sexta-feira, 6 de julho de 2012
Comunistas: Nenhum de Nós lhes Deve Nada!
Quem não tinha projeto de poder era a “massa de manobra”, como se referiam os chefes à multidão de jovens ingênuos, generosos, anônimos, que repetiam palavras-de-ordem cujo real significado ignoravam e cumpriam ordens e instruções vindas de cima. Os soldados rasos lutavam pela liberdade. Os comandantes planejavam suprimi-la. O rebanho sonhava com a ressurreição da democracia. Os pastores queriam muito mais, confirma Daniel Aarão Reis, ex-militante do MR-8, ex-exilado e hoje professor de História na Universidade Federal Fluminense.
“As esquerdas radicais não queriam restaurar a democracia, considerada um conceito burguês, mas instaurar o socialismo por meio de uma ditadura revolucionária”, fala de cadeira Aarão Reis, principal ideólogo de uma dissidência do PCB que desembocou no MR-8. “Não compartilho da lenda segundo a qual fomos o braço armado de uma resistência democrática. Não existe um só documento dessas organizações que optaram pela luta armada que as apresente como instrumento da resistência democrática”.
Recrutados na massa de manobra, os alunos dos cursinhos intensivos de revolução ainda estavam na terceira vírgula de O Capital e no quinto parágrafo de um palavrório de Engels quando descobriam que desistir da aula semanal era crime sem perdão. “Ele desbundou”, desdenhavam os mestres de qualquer discípulo sumido. Meia dúzia de panfletos de Lenin depois, os aprendizes descobriam que se haviam tornado oficiais do exército mobilizado para sepultar o capitalismo e conduzir o povo ao paraíso comunista.
Muitos se diplomavam sem sequer desconfiar da grande missão. Mas gente como Vladimir Palmeira tinha idade e milhagem suficientes para saber que perseguia um regime ainda mais selvagem, brutal e infame que o imposto ao Brasil. Conviviam com tutores de larga milhagem. O sessentão Carlos Marighela, por exemplo, ensinava aos pupilos da ALN a beleza que há em “matar com naturalidade”, ou por que “ser terrorista é motivo de orgulho”. Deveriam todos orgulhar-se da escolha feita quando confrontados com a bifurcação escavada pelo AI-5.
A rota certa era a esquerda, avisavam os que jamais tinham dúvidas. Passava pela luta armada e levava à luz. A outra era a errada. Passava pela rendição vergonhosa e levava à cumplicidade ostensiva com os donos do poder. Ou, na menos lamentável das hipóteses, aos campos da omissão onde se amontoavam desertores da guerra justa. A falácia foi implodida pelos que se mantiveram lúcidos, recusaram a idiotia maniqueísta e percorreram o caminho da resistência democrática.
Estivemos certos desde sempre. Desarmados, prosseguimos o combate contra quem os derrotara em poucos meses. Enquanto lutávamos pela destruição dos porões da tortura, eles se distraíam em cursinhos de guerrilha ou no parto de manifestos delirantes. Estavam longe quando militares ultradireitistas tentaram trucidar a abertura política. Só se livraram do cárcere e do exílio porque conseguimos a anistia, restabelecemos as eleições diretas e restauramos a democracia. Nós vencemos. Eles perderam todas. Alguns enfim conseguiram tornar-se contemporâneos do mundo ao redor. Quase todos permaneceram com a cabeça estacionada em algum lugar do passado. E voltaram com a pose dos condenados ao triunfo.
Fantasiados de feridos de guerra, os sessentões de 68 se apropriaram de indenizações milionárias, empregos federais, mesadas de filho mimado. Com a velha arrogância, seguem convencidos de que quem está com eles tem razão. Passa a fazer parte da tropa de elite formada por guerreiros a serviço das causas populares. Quem não se junta ao bando é inimigo do povo, lacaio dos patrões, reacionário, elitista, golpista vocacional. O comportamento e a discurseira dos dirceus, franklins, dilmas, genoínos, palmeiras, garcias, tarsos, vannuchis e o resto da turma confirmam: passados tantos anos, estão prontos para errar de novo. Infiltrados no governo de um presidente que não lê, não sabe escrever, merece zero em conhecimentos gerais e faz qualquer negócio para desfrutar do poder, eles aparelharam o Estado e vão forjando alianças com o que há de pior na vizinhança para eternizar-se no controle do país. Se não roubam , associam-se a ladrões. Se não matam, tornam-se comparsas de homicidas. E continuam seus delírios comunistas no governo da camarada Stella, codinome de Dilma Rousseff, terrorista de carteirinha.
Sequestradores da liberdade e assassinos da democracia jamais deixam de sonhar com o pesadelo. Não têm cura. Nenhum democrata lhes deve nada. Eles é que nos devem tudo, a começar pela vida.
por Augusto Nunes
Um Cadáver Comunista para a Comissão da Verdade
Em outubro de 1970, durante uma reunião clandestina, os componentes da Coordenação Nacional debateram as circunstâncias do assassinato de Joaquim Câmara Ferreira, que havia 11 meses substituíra o chefe supremo Marighela, fuzilado numa rua de São Paulo por uma milícia liderada pelo delegado Sérgio Fleury. Sob o argumento de que estavam percorrendo o caminho mais curto para a eliminação física dos engajados na luta armada, Márcio propôs aos demais dirigentes uma pausa na guerra desigual.
Não era a primeira vez que aquele companheiro desafinava do restante da direção, desconfiou Clemente. Demorou duas horas para concluir que Márcio era um dissidente prestes a traí-los, entregar-se à polícia da ditadura e contar o muito que sabia. Demorou dois dias para convencer o restante da cúpula a avalizar seu parecer. Demorou um pouco mais para, com o endosso dos parceiros, montar o tribunal revolucionário, propor a pena capital e aprovar a sentença que, já com 20 anos, ajudou a executar numa rua de São Paulo.
Convocado para uma reunião de rotina do alto comando, Márcio foi para o encontro com a morte no fim da tarde de 23 de março de 1971. Antes de sair do apartamento que lhe servia de esconderijo, o condenado que não tivera o direito de defender-se e sequer suspeitava da tocaia deixou um registro manuscrito: “Nada me impedirá de continuar combatendo”, prometeu-se. Não imaginava que fora proibido de continuar vivendo. Assim que chegou ao ponto combinado na região dos Jardins, foi abatido a tiros.
Alguns foram disparados por Clemente, acaba de admitir o terrorista aposentado ao jornalista Geneton Moraes Neto, que o entrevistou para o programa Dossiê, exibido pela Globo News neste 30 de junho. O vídeo abaixo reproduz o trecho da entrevista em que o depoente se transforma oficialmente em assassino confesso. “Então nós fomos lá e cumprimos a tarefa”, diz Clemente depois de resumir a decisão do tribunal revolucionário composto por três juízes com pouco mais de 20 anos de idade. “Cumprir a tarefa” é bem menos chocante que “executar um companheiro de luta contra a ditadura”.
Entrevistador competente, Geneton vai direto ao ponto: “Você participou diretamente da execução, então?” Com a placidez de quem recita uma receita de bolo, Clemente enfim assume a autoria do crime. “Essa é uma informação que até hoje eu não dei”, avisa. “E, na verdade verdadeira, eu não dei também porque ninguém teve essa atitude de chegar e me perguntar diretamente. Participei, sim, da ação. A tiros… a tiros…” A expressão sem culpas e o olhar de quem não perde o sono por pouca coisa informam que, para o declarante, tirar ou não a vida de um ser humano é algo que merece tanta reflexão quanto ir à praia ou ficar na piscina do prédio.
Alguns integrantes da Comissão da Verdade dividem o universo que resolveram devassar em torturadores a serviço da ditadura e heróis da resistência. Uns merecem o fogo do inferno, outros só merecem a gratidão do país (e desfrutar de uma Bolsa Ditadura de bom tamanho). Em qual dessas categorias devem ser enquadrados Carlos Engênio Coelho Sarmento da Paz e Márcio Leite de Toledo? O algoz pode alegar que a execução de um dissidente que também combatia a ditadura militar foi um acidente de percurso? Essa espécie de homicídio foi engavetada pela anistia? A família da vítima de um crime que o Estado não cometeu pode figurar na relação dos indenizados? Como reparar a memória do jovem executado? A Comissão da Verdade está convidada a oferecer respostas convincentes para tais interrogações.
Bem menos complicado é responder à pergunta feita por Clemente em novembro de 2008, quando voltei a tratar do episódio infame: “O que quer o jornalista Augusto Nunes quando publica um artigo como este?”. Simples: quero deixar claro que não há nenhuma diferença entre o torturador que matou Vladimir Herzog e o terrorista que executou Márcio Leite de Toledo. Um a serviço da ditadura militar, outro a serviço da ditadura comunista, ambos são assassinos sem direito ao perdão.
por Augusto Nunes
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Meu Brasil Brasileiro
Quem mudou: Collor ou o Brasil? Provavelmente nenhum dos dois. Algo está profundamente errado quando um país não consegue, depois de duas décadas, enfrentar a corrupção. Hoje, diferentemente de 1992, as denúncias de corrupção são muito mais graves. Estão nas entranhas do Estado, em todos os níveis, e em todos os Poderes. Não se trata - o que já era grave - simplesmente de um esquema de corrupção organizado por um grupo marginal do poder, recém-chegado ao primeiro plano da política nacional.
Ao longo dos anos a corrupção foi sendo aperfeiçoada. Até adquiriu status de algo natural, quase que indispensável para governar. Como cabe tudo na definição de presidencialismo de coalizão, não deve causar admiração considerar que a corrupção é indispensável para a governabilidade, garante estabilidade, permite até que o País possa crescer - poderia dizer algum analista de ocasião, da turma das Polianas que infestam o Brasil.
Parodiando Karl Marx, corruptos de todo o Brasil, uni-vos! Essa poderia ser a consigna de algum partido já existente ou a ser fundado. Afinal, a nossa democracia está em crise, mas não é por falta de partidos. É uma constatação óbvia de que o Brasil não tem memória. O jornalista Ivan Lessa escreveu que a cada 15 anos o Brasil esquecia o que tinha acontecido nos últimos 15. Lessa é um otimista incorrigível. O esquecimento é muito - mas muito - mais rápido. É a cada 15 dias. Caso contrário não seria possível imaginar que Fernando Collor estivesse no Senado, presidisse comissões e até indicasse diretores de empresas estatais, como no caso da BR Distribuidora. E mais: que fosse indicado como membro permanente de uma CPMI que visa a apurar atos de corrupção. Indo por esse caminho, não vai causar nenhuma estranheza se o Congresso Nacional revogar o impeachment de 1992 e até fizer uma sessão de desagravo ao ex-presidente. Como estamos no Brasil, é bom não duvidar dessa possibilidade.
Em 1992 muitos imaginavam que o Brasil poderia ser passado a limpo. Ocorreram inúmeros atos públicos, passeatas; manifestos foram redigidos exigindo ética na política. Até surgiu uma "geração de caras-pintadas". Parecia - só parecia - que, após a promulgação da Constituição de 1988 e a primeira eleição direta presidencial - depois de 29 anos -, a tríade estava completa com a queda do presidente acusado de sérios desvios antirrepublicanos. O novo Brasil estaria nascendo e a corrupção, vista como intrínseca à política brasileira, seria considerada algo do passado.
Não é necessário fazer nenhum balanço exaustivo para constatar o óbvio. A derrota - de goleada - dos valores éticos e morais republicanos foi acachapante. Nos últimos 20 anos tivemos inúmeras CPIs. Ficamos indignados ouvindo depoimentos em Brasília com confissões públicas de corrupção. Um publicitário, Duda Mendonça, chegou mesmo a confessar - sem que lhe tivesse sido perguntado - na CPMI do Mensalão que havia recebido numa conta no exterior o pagamento pelos serviços prestados à campanha do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva. A bombástica revelação foi recebida por alguns até com naturalidade. O que configurava um crime de responsabilidade, de acordo com a Constituição, além de outros delitos, não gerou, por consequência, nenhum efeito. E, vale recordar, com a concordância bovina - para lembrar Nelson Rodrigues - da oposição.
A aceitação de que política é assim mesmo foi levando à desmoralização da democracia e de seus fundamentos. Hoje vivemos um simulacro de democracia. Ninguém quer falar que o rei está nu. Democracia virou simplesmente sinônimo de realização de eleições, despolitizadas, desinteressadas e com um considerável índice de abstenção (mesmo com o voto obrigatório). Aqui, até as eleições acabaram possibilitando expandir a corrupção.
Na política tradicional, a bandeira da ética é empunhada de forma oportunista, de um grupo contra o outro. Na próxima CPI os papéis podem estar invertidos, sem nenhum problema. É um querendo "pegar" o outro. E muitas vezes o feitiço pode virar contra o feiticeiro.
E as condenações? Quem está cumprindo pena? Quem teve os bens, obtidos ilegalmente, confiscados? Nada. O que vale é o espetáculo, e não o resultado.
O Brasil conseguiu um verdadeiro milagre: descolou a política da economia. O País continua caminhando, com velocidade reduzida, por causa da má gestão política. Mas vai avançando. E por iniciativa dos simples cidadãos que desenvolvem seus negócios e constroem dignamente sua vida. Depois, muito depois, vão chegar o Estado e sua burocracia. Aparentemente para ajudar, mas, como de hábito, para tirar "alguma casquinha", para dizer o mínimo. E a vida segue.
Não vai causar admiração se, em 2032, Demóstenes Torres for indicado pelo seu partido para fazer parte de uma CPI para apurar denúncias de corrupção. É o meu Brasil brasileiro, terra de samba e pandeiro.
por Marco Antonio Villa
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Ex-Marido Terrorista Também Folga...
“Eu tenho muito orgulho de ser companheiro da Dilma. Sempre nos identificamos. O nosso bom companheirismo persiste até hoje. Sempre fui uma pessoa de esquerda. Com a ditadura não vi outra saída a não ser partir para a luta armada. Formamos uma organização chamada Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), e praticávamos ações de desapropriação (assalto nr) de bancos. Buscávamos dinheiro no banco para comprar armas. Também fizemos algumas ações em quartéis para pegar armas (…).
Conforme aumentava o número de clandestinos, de pessoas procuradas, tínhamos que planejar ações em bancos e pegar dinheiro para sustentar o pessoal (…).
A Dilma não participou de ação nenhuma. Não existe nenhum processo. Ela não participou de nenhuma ação armada porque não era o setor dela (…)”.
Araújo só fez questão de esquecer, que ele e seu grupo não lutavam pela democracia, mas tão somente para implantar, o odiosa “Ditadura do Proletariado”. Com foram as dos países do Leste Europeu e continuam sendo as da China, de Cuba e da Coréia do Norte.
Agora está tirando férias, acompanhado da atual mulher, como convidado da presidente, na Base Naval de Aratu (BA), tudo sendo pago pelo contribuinte.
Para bajular sua ex-mulher, nesse dia 29 ele soltou essa pérola: “Ninguém pense que engana a Dilma! Ela conhece todo mundo muito bem desde que era ministra”.
Portanto, acabou montando a cavalo num porco.
Se Dilma, sabe muito bem quem são seus ministros, como é que escolheu 6 ladrões e mais 2 na marca do pênalti?
Deduz-se que se não é incompetente, é conivente, ou quem sabe,é uma incompetente conivente.
por Giulio Sanmartini
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Comissão da Inverdade!
Foram 20 anos de ordem e de progresso. Os guerrilheiros do Araguaia foram vencidos, evitando-se que hoje, a exemplo da Colômbia, tivéssemos organizações como as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) atuando no coração do Brasil. O nosso povo vivenciou sequestros de autoridades estrangeiras e de avião, dezenas de justiçamentos, tortura, execuções como a do adido inglês e a do tenente da Força Pública de São Paulo no Vale do Ribeira, bombas no aeroporto de Recife e carro-bomba no QG do 1º Exército, respectivamente com mortes de um almirante e de um recruta, latrocínios, roubos etc. O regime, dito de força, negociou e foi além das expectativas dos derrotados ao propor anistia até mesmo para crimes de terrorismo praticados pela esquerda. Agora, no poder, eles querem escrever a história sob sua ótica, de olhos vendados para a verdade.
Projeto do Executivo, ora em tramitação na Câmara, cria a dita Comissão da Verdade, composta por sete membros, todos a serem indicados pela presidente da República, logo ela, uma das atrizes principais dos grupos armados daquele período, que inclusive foi saudada pelo então demissionário ministro José Dirceu como "companheira em armas". Ninguém pode acreditar na imparcialidade dessa comissão, que não admite a participação de integrantes dos Clubes Naval, Militar e da Aeronáutica. Essa é a democracia dos "companheiros". Ainda pelo projeto, apurar-se-iam apenas crimes de tortura, mortes, desaparecimentos forçados e ocultação de cadáveres, não tratando de sequestros, atentados a bomba, latrocínios, recebimento de moeda estrangeira de Cuba, sequestro de avião e justiçamentos.
É notório que a esquerda quer passar para a história como a grande vítima que lutou pelo Estado democrático atual, invertendo completamente o papel dos militares, que, em 1964, por exigência da imprensa, da Igreja Católica, de empresários, de agricultores e de mulheres nas ruas intervieram para que nosso país não se transformasse, à época, em mais um satélite da União Soviética. Os militares sempre estiveram prontos para quaisquer chamamentos da nação, quando ameaçada, e, se a verdade real é o que eles querem, as Forças Armadas não se furtarão, mais uma vez, a apoiar a democracia. Se hoje nos acusam de graves violações de direitos humanos no passado, por que não começarmos a apurar os fatos que levaram ao sequestro, à tortura e à execução do então prefeito Celso Daniel em Santo André? Ou será que, pela causa, tudo continua sendo válido, até mesmo não extraditar o assassino italiano Cesare Battisti por temer o que ele possa revelar sobre seu passado com terroristas brasileiros hoje no poder?
por Jair Bolsonaro
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
A Posse do Poste
Em seu primeiro discurso como presidente (e não "presidenta", como querem alguns, a menos que também exista "gerenta" ou "superintendenta"), Dilma Vana Rousseff, ao lado das platitudes de praxe, repetiu uma mentira histórica. Ao mencionar o período da luta armada dos anos 60 e 70, da qual participou (e da qual diz se orgulhar), ela se referiu aos "companheiros que tombaram para que chegássemos ao que temos hoje" (ou seja: a democracia). Suas palavras foram repetidas à exaustão por uma repórter da TV Record (cujo dono, o "bispo" Edir Macedo, compareceu à cerimônia do beija-mão no Palácio do Planalto), que não parava de evocar, em tom de emoção, que a nova presidente do Brasil fora "torturada durante 22 dias", "lutou contra a ditadura", "pela democracia" etc. Embaixo do palanque, sob chuva, uma platéia de militantes petistas ouvia tudo, extasiada, ansiosa para acreditar.
Colocando à parte os possíveis exageros - tenho minhas dúvidas sobre a capacidade física de alguém sair vivo após 22 dias de tortura ininterrupta - e o fato de que o processo judicial de Dilma tenha ficado trancado, até depois das eleições, a sete chaves no STM, por força de uma liminar (o que será que ela quer tanto esconder?), a frase da Camarada Estela, agora oficialmente presidente Dilma Vana Rousseff, é mais um tijolo no edifício da mitologia que se está criando em torno de sua figura. O Brasil já teve o primeiro presidente "operário" (aliás, a "encarnação do povo", segundo suas próprias palavras) que não pega no batente há 35 anos. Agora tem a "primeira mulher". Mais: a "primeira ex-torturada", ou a "primeira mulher, ex-torturada e que lutou contra a ditadura e pela democracia".
Aí é que está. Não coloco em dúvida que Dilma Rousseff seja mulher. Nem que tenha sido presa e torturada (embora ainda espere provas de que tenha sido por 22 dias, como ela diz, ou 22 horas, ou 22 minutos). Tampouco que ela tenha lutado "contra a ditadura militar". Não duvido disso. Mas afirmar, ainda mais no primeiro discurso oficial como presidente da República, que os que pegaram em armas contra o regime de 64 "lutaram pela democracia" (ou: "para que tivéssemos o que temos hoje") é demais até para os padrões dos lulo-petistas. É querer reescrever a História, é torturar os fatos para que eles digam aquilo que se quer ouvir. Dilma Rousseff jamais lutou pela democracia. Isso porque as organizações armadas de esquerda de que participou - Colina, VAR-Palmares e VPR - jamais tiveram como objetivo a restauração das liberdades democráticas. O objetivo pelo qual assaltaram bancos, sequestraram diplomatas estrangeiros e assassinaram pessoas (inocentes ou não, não importa) não tinha nada a ver com democracia, estado de direito e eleições livres. Era, isso sim, instalar no Brasil uma ditadura comunista. Como visavam, aliás, todas as organizações armadas de esquerda do período, diga-se de passagem.
Eis a trajetória política de Dilma Rousseff: participou da luta armada para transformar o Brasil num país comunista. Foi presa e solta três anos depois. Estudou economia e trabalhou no governo do Rio Grande do Sul. Não se sabe o que estava fazendo quando das manifestações pela volta da democracia nos anos 80. Emergiu, há alguns anos, como ministra do governo Lula, tendo sido ungida sua sucessora e continuadora. Onde está a "luta pela democracia"?
O mito da luta armada como forma de "resistência democrática" contra a ditadura militar é um dos mais persistentes na História e na política brasileiras. Agora, com Dilma, ele se torna ainda mais oficial. E isso apesar de ser sobejamente desmentido pela existência de razoavél bibliografia a respeito, a qual desvenda por completo os objetivos e métodos totalitários dos "guerrilheiros" (que eram, sim, terroristas, como deixam claro suas palavras e ações - algo de que já tratei aqui em vários textos). À guisa de sugestão, recomendo ao leitor interessado no assunto a coletânea de documentos das organizações de esquerda do período organizada por Daniel Aarão Reis Filho e Jair Fernandes de Sá, Imagens da Revolução, ou os livros de Jacob Gorender, Combate nas Trevas, e de Elio Gaspari, A Ditadura Envergonhada e A Ditadura Escancarada, que mostram claramente que o terrorismo de esquerda não teve nada de "luta pela democracia". Muito pelo contrário.
Mas, para além dessa evidente falsificação histórica, a posse do poste escolhido por Lula da Silva para esquentar a cadeira presidencial por quatro anos teve, claro, outro significado. Em primeiro lugar - e isso a televisão não cessou de lembrar por um minuto sequer - ela é mulher. Muito bem. Que importância tem uma mulher na Presidência da República? Nenhuma. Países como Inglaterra, Israel, Alemanha e Chile já tiveram ou têm mulheres ocupando o cargo mais alto da nação. E isso não acrescentou absolutamente nada à política. Nem dela retirou o que quer que seja.
Francamente, não engulo o discurso feminista de que o fato de alguém ser mulher (ou homem, ou transsexual, ou ET) lhe confere qualidades e virtudes diferentes e superiores às dos demais mortais. Em política, pelo menos, isso não existe, a não ser como mistificação (estou me lembrando agora do texto que li de um esquerdista a favor de Dilma quando da polêmica do aborto nas eleições; o autor dizia que a campanha de Serra estava usando o sexo de Dilma para atacá-la - o título era "A Desconstrução da Mulher"...). Se o objetivo desse discurso é dizer que uma presidente da República ou uma primeira-ministra governam de maneira diferente dos homens, com um olhar, digamos, mais "sensível" (ou mais "feminino"), a História mostra que isso nunca, ou muito raramente, corresponde à realidade. Aí estão Golda Meir, Margaret Thatcher e Angela Merkel para provar o contrário.
Mas e o caráter "simbólico" da coisa, não é importante? Depende. Se este se refere ao fato de que é a primeira vez que uma representante do sexo frágil (prefiro como se dizia antigamente, o "belo sexo", soa bem melhor do que "gênero" - parece que as feministas não têm sexo, ou não gostam de sexo) assume o poder no Brasil, OK, é algo que tem, vá lá, um certo valor simbólico. Mas, historicamente, já houve uma Cleópatra, uma Teodora, uma Hatshepsut. Que valor, até mesmo "simbólico" ou "histórico", existe em ter hoje algo que já havia no Antigo Egito uns dois mil anos atrás?
O fato é que, se a eleição e posse de Dilma Rousseff tiveram alguma coisa de simbólico - e isso não é necessariamente algo positivo, muito pelo contrário - é que, hoje em dia, não são mais pessoas, seres de carne e osso, que são eleitos para a Presidência da República. São categorias inaugurais - o "primeiro negro", o "primeiro operário", o "primeiro homem do povo", a "primeira mulher" (ainda por cima, "ex-guerrilheira") etc. Em breve, não duvido, teremos no Palácio do Planalto o "primeiro torcedor do Bonsucesso", o "primeiro colecionador de tampinhas de garrafa", o "primeiro apreciador de chocolate amargo" e assim por diante. Qual a contribuição disso para o melhoramento da política? Aliás, qual a relevância disso? Nenhuma.
Por que digo isso? Porque, por trás desse discurso politicamente correto, está o inverso da política, a desumanização da política. Não somos mais governados por pessoas, mas por símbolos, por entes abstratos e ideológicos. Por mitos, lendas. No caso de Dilma Rousseff, é mais do que isso: trata-se de um produto, uma embalagem criada por outro mito, este construído ao longo de várias décadas. É a continuação da lenda por outros meios. Um poste, um simples poste, ao qual se acrescentaram várias demãos de tinta.
Uma anedota antiga contava a estória (ou história, não me lembro bem) de um prefeito de cidade do interior que, na falta de coisa melhor, resolveu inaugurar um poste. Fez uma festa de arromba, com discurso, banda de música, fogos de artifício, tudo. A anedota, se baseada em fato real ou não, perde para a realidade. O poste do prefeito, pelo menos, tinha luz. Quanto a Dilma Vana Rousseff, a se julgar por seu discurso de posse, tenho minhas dúvidas.
por Gustavo Bezerra
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Viva Honduras! Novamente...
Diz o néscio:
Golpista é o exército. Você é que diz não ao Comunismo; e com isso diz sim ao Imperialismo. O povo hondurenho não merece trabalhar para manter os luxos das elites locais... Vai entender história, certo?
Como todo esquerdista, ele nada entende de liberdades e de preservação das mesmas. Gosta de ser apenas mais um no formigueiro da ideologia socialista e, portanto, esquece-se de ler documentos e entender os fatos, limitando-se a propagar o que lhe falam aqueles esquerdistas que eles chama de "intelequituais".
Então, vamos ensinar um pouquinho ao pobre coitado. E eu vou começar pelo final de seu comentário. Por partes, para facilitar a ele:
0. Vai entender história, certo? - Não entendi muito bem o que o anódino camarada quis dizer com "vai entender história"... talvez fosse "vai estudar história", mas vamos lá. Se há alguém que precisa estudar - muito e não somente história - é o anônimo que fez este comentário.
1. Golpista é o exército - ele deve estar referindo-se ao fato de o exército ter agido para retirar Zelaya do país a mando da Corte Suprema de Justiça, baseada em sua Carta Magna (a Constituição, viu, anônimo?)! E por que a Corte Suprema fez isto?
- O artigo 239 da Constituição hondurenha determina, entre outras coisas, que "o cidadão que tenha desempenhado a titularidade do Poder Executivo não poderá ser presidente ou indicado. Quem transgredir essa disposição ou propuser a sua reforma, assim como aqueles que o apoiarem direta ou indiretamente, perderão imediatamente seus respectivos cargos e ficarão inabilitados por dez anos para o exercício de qualquer função pública". Foi o que Zelaya tentou. Pesquise: Zelaya anunciou que faria a sua consulta para tentar a reeleição e a Justiça do país a declarou ilegal; A Justiça proibiu o Exército de tomar as providências para fazer a tal consulta; Zelaya deu ao Exército uma ordem considerada ilegal pela Justiça, violando outros artigos constitucionais. Se o Exército a tivesse cumprido, o golpe teria sido dado ali - e os esquerdistas estariam dizendo que tudo foi feito democraticamente (na democracia torta das cabeças comunistas)!
- Ainda na própria Constituição hondurenha, no capítulo II do Artigo 4º ("Dos Cidadãos") estabelece que: a qualidade de cidadão perde-se: (...) 5. Por incitar, promover ou apoiar o continuísmo ou a reeleição do Presidente da República;(...). Foi o que fez o sr. Zelaya. Foi deposto. Perdeu sua qualidade de cidadão hondurenho e, não mais sendo um cidadão hondurenho, o exéricot agiu para retirá-lo do país. Legalmente.
Se você quiser ver como não foi um "golpe militar", leia o que o petista Dalmo Dalari escreveu à época a este respeito. Espero sinceramente qu evocê consiga entender.
2. Você é que diz não ao Comunismo; e com isso diz sim ao Imperialismo - Não somente eu digo NÃO ao Comunismo. Toda as pessoas realmente estudadas e que prezam suas liberdades dizem NÃO AO COMUNISMO! E com isto, também digo NÃO AO IMPERIALISMO, boçal!
Jamais, em toda a História do último século, houve país mais imperialista do que a extinta URSS, que era, adivinhe só?, COMUNISTA!
É claro que o anônimo usa maliciosamente da palavra "imperialismo", referindo-se, particularmente, aos Estados Unidos, como aprendeu com seus mestres comunistas. Mas ele, anônimo, particularmente não "vai entender história" Ele nunca vai saber que a extinta URSS, após a II Guerra Mundial, anexou dezenas de países e os manteve subjugados, a poder de fuzis e tanques, como Hungria, Checoslováquia, Polônia, Alemanha Oriental etc. E ele sempre vai crer que o massacre de Katyn foi feito pelos alemães, e não pelos comunistas soviéticos a mando de Stalin.
3. O povo hondurenho não merece trabalhar para manter os luxos das elites locais - Ah! O que seria dos comunistas sem as eternas "zelites", não é mesmo? Esses cupins da sociedade humana conseguem destacar-se em absolutamente nada em nossa sociedade sem estar em bando, sem suas palavras de ordem, sem seus brados de "justissa çossiau"! E no entanto, quando têm que verdadeiramente fazer algo para a evolução do mundo, somente conseguem torná-lo ainda pior, como na Coréia do Norte, na China, nas extintas Rússia e Alemanha Oriental e em Cuba!
Quem trabalha para manter "os luxos das elites locais", caro parvoalho? O povo hondurenho trabalha para manter seus próprios luxos - que, aliás, é o que você deveria fazer, ao invés de vir com suas ideias retógradas aqui (embora vocês mesmos digam ser "pogressistas"). Já dizia Joãozinho Trinta: quem gosta de miséria é intelectual; pobre gosta é de luxo!
E prá você, anódino, que tanto gosta do socialismo e do comunismo, um quadrinho com dados factuais sobre os mortos por estas tão odientas ideologias - dados estes retirados do "Livro Negro do Comunismo", o qual foi escrito por ex-comunistas com base em DOCUMENTOS; portanto, História inegável:
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Ainda o Caso do Terrorismo Ambiental
Uma leitora, identificada como Ana, diz:
Quanta bobagem! Se vocês tem a liberdade de estar falando aqui, é graças a esses cidadãos que colocaram a vida em risco a favor da democracia.
Bem, Ana, não sei o que você entende por liberdade. Eu entendo que liberdade é - além de um conjunto de ideias liberais e dos direitos garantidos a todos os cidadãos, indistintamente, os quais foram sendo moldados pela evolução da sociedade ocidental - o direito de proceder conforme me pareça.
É exatamente esta liberdade que os socialistas e comunistas não suportam! Estude a História e você verá que onde quer que esta ideologia macabra foi implantada, TODAS AS LIBERDADES FORAM SUPRIMIDAS! Nunca houve uma sociedade que conjugasse o socialismo e a democracia, porque são regimes antagônicos.
E não, Ana, ESSES CIDADÃOS NUNCA COLOCARAM A VIDA EM RISCO EM FAVOR DA DEMOCRACIA!, embora todos aqueles que ainda querem implantar o socialismo em nosso país digam que o fizeram e que a respeitem. Basta ver o que os vários ex-socialistas e ex-comunistas declaram a respeito daquela época: nunca houve qualquer documento, dentre os vários que eles mesmos fizeram, que tivesse uma única citação sobre a democracia. Pelo contrário, muitos destes documentos falavam sobre o "ditadura do proletariado", conforme ensinaram Marx/Engels. Até Fernando Gabeira, um dos muitos companheiros de armas de Dilma, disse que ela mente quando afirma que lutou em favor da democracia. Diz ele em sua entrevista:
"Todos os principais ex-guerrilheiros que se lançam na luta política costumam dizer que estavam lutando pela democracia. Eu não tenho condições de dizer isso. Eu estava lutando contra a ditadura militar, mas, se você examinar o programa político que nos movia naquele momento, [ele] era voltado para uma ditadura do proletariado. Então, você não pode voltar atrás, corrigir seu passado e dizer que estava lutando pela democracia. Havia muita gente lutando pela democracia no Brasil, mas não os grupos armados, que tinham como programa esse processo de chegar à ditadura do proletariado. A luta armada não estava visando a democracia, pelo menos em seu programa"
Se você quiser saber um pouco mais a respeito do antagonismo entre o socialismo e a democracia, pare de ler os esquerdistas e procure os escritos liberais, como os de Ludwig von Mises, por exemplo.
Um(a) anônimo(a) diz:
Socialismo e comunismo são ideologias ensinadas desde o fim da ditadura, inclusive nos governos de direita, a exemplo do FHC.
Bem, caro anônimo, talvez você careça de um pouco mais de estudo para tecer um comentário como este.
Primeiro porque o socialismo e o comunismo sempre foram ensinados desde antes do fim da "ditadura"; porém da forma como realmente são, ao invés desta invencionice esquerdista de que promovem um "bem estar paradisíaco" onde for implementado.
Segundo porque não são ideologias: o comunismo, já ensinava Marx, é o fim último do socialismo, sendo ambos pertencentes à mesma ideologia. E isto é o que querem todos aqueles que se dizem socialistas ou comunistas, como os partidários do PT, do PC do B, PCO, PSTU etc.: a ditadura do proletariado. E o fazem a partir da destruição gradativa dos valores e liberdades conquistadas pela sociedade ao longo de centenas de anos e que conhecemos como sociedade democrática, conforme o esquema abaixo:
E terceiro, porque o governo de FHC não era um governo de direita. FHC, que sempre se disse um "marxiano", pertence ao que chamamos de "social-democracia", um tipo de "centrão" da política que visa estabelecer uma ponte entre o socialismo e o mercado, mais ou menos na via feita hoje pela China, no que tange à economia, não na política, que, lá, continua com a pequenez do pensamento comunista.
A verdadeira direita - e antes que alguém tente afirmar que a esta era a visão política do regime militar brasileiro eu já lhes afirmo categoricamente que não, pois os governantes da época, particularmente após 1969, derivavam da escola social-estatizante, a mesma que foi adotada entre a partir da Revolução de 1930, com marcos de crescente dependência em relação ao paternalismo oficial no Estado Novo getuliano (1937-45) e no ciclo juscelinista (1956-61) - é aquela que defende as liberdades conquistadas pela evolução da sociedade: a livre da concorrência, o respeito absoluto à propriedade, a obediência às regras do mercado e a integração à economia mundial, entre outras coisas, isto tudo baseado em três virtudes, infelizmente ainda pouco encontradiças em nosso meio social: a virtude de trabalho, a virtude de poupança e a virtude de honestidade, as quais devem coincidir com a eficiência produtiva numa economia livre, sem a qual nem o subdesenvolvimento, nem a má distribuição dos bens econômicos, como o famigerado Bolsa Família, poderão ser vencidos.
Outro(a) anônimo(a) diz:
eu nao acredito nessas bobagens eu sei oque e passar fome depois que o pt assumiu eu tenho uma vida farta e isso imcomoda muita gente que quer ver o pobre no inferno nos nunca tinhamos oportunidade de nada o pobre era miseravel hoje nao temos comida tv geladeira e ate computador nao se emgane os outros ja estavam no poder so o pt que olho pros pobres
Bem, como diria Lenin, um dos ídolos de esquerdistas como Dilma e Minc, o quê fazer? Muitas vezes a Verdade está na frente de nossos olhos sem que a enxerguemos, não é mesmo?
Eu, anônimo(a), também já passei fome. E exatamente por isto é que estudei muito, trabalhei e trabalho muito e progredi na vida. Nunca, em momento algum, quis ser um estado-dependente para poder ter ou ser alguém.
Há apenas um porém - e isto é algo que todo político sabe, que é uma característica marcante: a memória do povo brasileiro parece remanescer apenas aos últimos quinze meses. Daí para trás, o brasileiro tudo esquece ou confunde quando um novo governante vem com, parafraseando Lula, bravatas!
Se hoje você tem uma "vida farta", é graças às políticas econômicas implementadas principalmente no governo FHC. Se você não se recorda ou é muito novo(a) para saber, o PT votou contra a implementação do Plano Real e da Lei de Responsabilidade Fiscal, que hoje lhe garantem "comida tv geladeira e ate computador".
Aliás, a última crise do governo FHC foi causada por Lula! E ele sabe disso. Quando Lula estava na frente das pesquisas, as empresas estrangeiras estavam retirando seus investimentos do país, porque o PT dizia que ia implementar o socialismo e estatizar todas as empresas, como Hugo Chávez tem feito na Venezuela!, o que levou o partido a escrever a "Carta ao Povo Brasileiro", dando garantias de que não iria modificar o modelo econômico, mas apenas e tão somente tentar evoluí-lo.
De outra forma, o "olhar para os pobres" do PT é nada mais nada menos do que uma forma do antigo coronelismo ampliado ao governo. Ao invés de distribuir óculos, dentaduras, muletas etc., como faziam os antigos coronéis nordestinos, o governo petista distribui o Bolsa Família.
Se se quisesse realmente olhar para os pobres, o PT poderia tentar forçar uma diminuição da carga tributária sobre as empresas no que tange os empregados: afinal, um empregado com carteira assinada, hoje, custa o dobro para uma empresa. Ou seja, se um empregado recebe R$ 1.000,00 como salário, a empresa paga outros R$ 1.000,00 de impostos para o governo. Isto sem falar nos descontos de IRRF que o governo recebe do próprio empregado.
Se estes impostos fossem menores, haveria, certo como a noite vem depois do dia, um número muito mais acentuado de vagas de emprego. E esta, sim, seria a melhor ajuda que um governo, qualquer que seja, poderia dar aos pobres!
Quanto ao fato de que há "muita gente que quer ver o pobre no inferno", bem, o que dizer? Há muita gente que quer que todos as gentes sejam iguais, como robôs, pensando formar, aí, um paraíso na terra; há muita gente que não gosta de carne; há muita gente que não suporta pessoas que se deram bem e enriqueceram...
Isto tudo só demonstra uma única coisa: a imperfectibilidade humana. Somos todos, em maior ou menor grau, falíveis e, portanto, sempre haverá diferenças entre os homens. Por isto nunca será possível criar uma sociedade perfeita e igualitária e todas as tentativas que foram feitas pelos socialistas utópicos terminaram - e sempre terminarão - em desastre. Tudo o que podemos esperar - e lutar por - é uma sociedade que seja sofrivelmente ordenada, justa e livre, na qual alguns males, desajustes e desprazeres continuarão a existir.
Ainda outro(a) anônimo(a) diz:
Justamente pelo fato da Dilma ter ficado e enfrentado a ditadura militar, mostra uma mulher de muita fibra e coragem, antes de apontar o dedo acusador procurem saber o que esse cap.americano fazia aqui no Brasil qdo foi justisado. Parabens DILMA VANA ROUSSEF.
Justamente por integrar um das mais violentos grupos armados da época - a VAR-Palmares, que seguia à risca o Minimanual do Guerrilheiro, de Carlos Marighela - que abertamente lutava para implantar a "ditadura do proletariado" - e, portanto, contra a democracia - é que ela mostra o tipo de fibra podre da qual é formada!
Se você quer saber o que o capitão Rodney Chandler fazia aqui antes de ser friamente assassinado em frente de sua mulher e seus filhos, veja mais aqui. Se você, algum dia, leu que Chandler foi morto por ser um espião da CIA, como hoje muitos esquerdistas da época costumam dizer, prepare-se: é uma mentira! E quem afirme e prova isto não sou eu, mas os próprios esquerdistas que quiseram se redimir pelos atos covardes que cometeram em nome de uma causa imbecil.
E como você não sabe o que é um "justiçamento", leia a História de Elvira Cupelo, conhecida como Elza Fernandes - assim, você conhecerá como sempre agiram os esquerdistas e passará a entender porque a ministra Erenice Guerra é dispensável diante da causa de implantação do socialismo petista - o socialismo do Foro de São Paulo.
Mas para que você tenha uma ideia do tipo de fibra que esta mulher é feita - e daqueles aos quais ela sempre se associou, veja como o Blog da Dilma tratou Marina Silva no dia 30 próximo passado - três dias antes do primeiro turno das eleições, portanto:
Na charge, a candidata do PV é chamada de “Laranja verde”. Atribui-se a ela esta fala, com visível desdém pela militância verde:
“Distribuição de renda é com a Dilma. Eu farei entre as camadas menos favorecidas, a maior distribuição de oxigênio puro jamais visto neste país”.
Abaixo do desenho, o texto afirma:
“Marina Silva é uma grande traidora. Traiu o povo brasileiro quando se posicionou contra o crescimento do país. Traiu o PT. Traiu também a memória de Chico Mendes quando se uniu àqueles que disfarçadamente se alegraram com a morte do grande líder seringueiro. Marina Silva jogou no lixo uma biografia de defensora dos povos da floresta, de defensora da Amazônia. Traiu por despeito e por vingança. (…) Marina não foi escolhida pelo presidente Lula porque não tem conhecimento, competência e caráter para governar (…)”
E vai por aí, leitor. Agora que o PT quer o apoio de Marina, o post foi tirado do ar. Mas vocês sabem como é a Internet. Tudo fica registrado.
E é assim que os esquerdistas sempre agem: para conquistar seus fins, usam quaisquer meios, mesmo que seja "justiçando" aqueles que, como Marina, um dia estiveram a seu lado, não é mesmo anônimo(a)?
Minha moral, particularmente, prefere fibra nenhuma a esta deturpação mental chamada socialismo.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
O Dia em que Um Marciano Veio ao Brasil
- Percebi que a candidatura governista bebe no sucesso econômico do atual governo. Nesse sentido, acusa o principal oponente de, se eleito, colocar em risco as conquistas dos últimos anos. Pelo visto a estabilidade da economia sempre foi defendida pelos que hoje estão no poder...
- Não é bem assim. A estabilidade econômica foi uma herança do governo anterior.
- Mas a candidata do governo diz que foi uma conquista do atual presidente, que é seu patrono político... Inclusive vi a campanha dela outro dia, dizia que antes o país vivia o caos, que estava à beira da falência, e que foram eles, que hoje estão no governo, que botaram ordem na casa, possibilitando a milhões de pessoas melhorarem de vida. Não foi assim?
- Não foi, não. Na verdade, o partido da candidata oficial foi contra as medidas de estabilização da economia. Diziam que era um "estelionato eleitoral"...
- Você está dizendo que o partido da candidata oficial foi contra as medidas que colocaram a economia em ordem quando foram implementadas, mas depois se apropriou delas e agora se diz seu maior defensor?
- Sim. Foi isso mesmo.
- Bem, parece um típico caso de conversão. Nesse caso, é claro que eles se desculparam pela oposição do passado, não?
- Não. Não se desculparam.
- Nem se arrependeram?
- Não. Também não se arrependeram.
- Então os que estão hoje no poder simplesmente se apropriaram do que antes condenavam, sem confissão nem arrependimento, e agora se apresentam como os garantidores da estabilidade econômica?
- Isso mesmo. Você definiu perfeitamente.
- Que estranho... Isso é, no mínimo, falta de honestidade. Isso sim, é o que se pode chamar de estelionato. Mas entendo, porque o candidato adversário deve ser mesmo um perigo para as conquistas econômicas, que o governo herdou do antecessor...
- Nada disso. O candidato adversário é do partido do presidente que antecedeu o atual, o mesmo que implementou as reformas. Inclusive, ele fez parte daquele governo, foi ministro...
- Espere aí. Você está me dizendo que a candidata do governo atual está acusando seu principal adversário de ser uma ameaça à continuidade da política econômica, quando ele fez parte do governo que implementou essas conquistas, enquanto o partido dela foi contra? É isso mesmo?
- Exatamente.
- Nesse caso, a população deve ter percebido que está sendo vítima de uma farsa grotesca, uma verdadeira empulhação, e deve estar muito zangada com ela...
- Pelo contrário! Ela está em primeiro lugar nas pesquisas, pode vencer até no primeiro turno.
- Mas ela não é a candidata do governo? E o presidente atual não é aquele que sequestrou as conquistas do seu antecessor, apenas colhendo os frutos do que outros fizeram? Imagino que ele deva ser muito impopular...
- Aí é que você se engana. Ele tem quase 90% de popularidade, segundo os institutos de pesquisa.
- Mas estive em outros países, aqueles que vocês chamam de desenvolvidos, e lá quem fizesse isso seria execrado como um farsante, e não louvado!
- Sim, mas aqui é o Brasil...
- Mas vocês não são todos uma mesma espécie?
- Sim, somos, mas...
- A lógica não é a mesma para todos os seres humanos?
- É, mas...
- Das duas uma: ou vocês, brasileiros, são muito estúpidos ou pertencem a uma outra espécie, diferente dos demais terráqueos. Pelo que você me disse, a noção de honestidade que vocês têm não é a mesma da do restante da humanidade.
- Bom, mas pelo menos o líder de vocês, pelo que diz a propaganda oficial, é um estadista global, comprometido com as melhores causas da humanidade, a política externa é um sucesso, o País é finalmente respeitado no exterior...
- (interrompendo) Er... Na verdade, também não é bem assim...
O marciano já se preparava para fazer outra pergunta, mas desistiu. Sem resposta, o gentil cidadão que se prontificou a explicar o Brasil ao visitante alienígena se calou, coberto de vergonha. Enquanto isso, o marciano coçava as antenas, intrigado diante do que julgou ser um mistério sem solução. Em todas as galáxias que visitara, jamais presenciou uma situação tão insólita. Voltando à sua nave, simplesmente desistiu de tentar compreender, cheio de piedade por uma espécie tão primitiva.
por Gustavo Bezerra
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Vidas Separadas
Em 1990, cedendo a pressões internacionais, o Presidente Frederic de Klerk solicitou sua libertação. Durante os vinte e seis anos em que permaneceu preso, Mandela tornou-se o símbolo da antissegregação. Mesmo na prisão, enviou cartas para incentivar a luta, tendo recebido apoio de governos de todo o mundo.
Em 1993, ele e de Klerk dividiram o Prêmio Nobel da Paz. Em 1994, foi eleito o primeiro presidente negro da África do Sul. Governou até 1999, sendo responsável pelo fim do apartheid.
Ele poderia ter conduzido uma caça às bruxas. Poderia ter mandado procurar ossadas, que não são poucas. Poderia, até, ter criado um “bolsa-apartheid”, sustentado pelo diamante extraído em abundância das minas sul-africanas. Teria inúmeras razões e tinha poder para isso. Seu espírito humanista e sua visão de estadista, porém, levaram-no a pensar na nação como um todo e buscar sua reconciliação.
Entre as inúmeras frases de Mandela, uma talvez explique o porquê de sua decisão: “Sonho com o dia em que todas as pessoas levantar-se-ão e compreenderão que foram feitas para viver como irmãs”.
A presença, mesmo que por apenas alguns minutos, de Nelson Mandela no campo do Soccer City foi um dos momentos mais emocionantes da Copa do Mundo recentemente encerrada. Quando ele sorriu seu sorriso de paz e acenou do alto dos seus 92 anos de idade, recebeu a ovação de carinho e respeito da multidão.
As milhares de pessoas de todo o mundo que estavam lá, provavelmente, tinham na mente outra de suas frases famosas: “A luta é minha vida. Continuarei a lutar pela liberdade até o fim dos meus dias”. Então, que ele demore a chegar!
por Hamilton Bonat
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Cota Racial
A raça é humana, somos todos iguais. O ingresso na universidade através do sistema de cota racial é discriminatório. A questão é social.
Se o conhecimento e a informação não são disseminados de forma justa, o sistema de cota racial não vai corrigir essa falha.
Aponto a Constituição Federal, no seu Artigo 19, que estabelece:
“É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si”.
Enquanto os Estados Unidos se livra das cotas raciais nas universidades e comemora a eleição de um presidente mestiço para assumir a Casa Branca, o Brasil, que teve um ex-presidente mulato*, sofre com o atual presidente que insiste com as cotas raciais, o PROUNI e trata de alisar o seu pixaim para fugir da negritude.
(*) Nilo Peçanha, presidente do Brasil entre 1909 e 1910, era mulato, embora muitas vezes fosse retratado como branco. Outras figuras públicas do país tinham fotografias retocadas para ocultar seus traços raciais, explica o diplomata e membro da Academia Brasileira de Letras Alberto Costa e Silva.
Nilo Peçanha, que era vice de Afonso Pena, assumiu a presidência com sua morte e exerceu o cargo de 14 de junho de 1909 a 15 de novembro de 1910. De origem humilde, Peçanha construiu uma sólida carreira política, ascendendo, em um intervalo de poucos anos, de senador a presidente do estado do Rio de Janeiro – nome da época para o cargo de governador – e a presidente do Brasil. Filho de um padeiro,viveu uma infância simples em um sítio no interior do Rio de Janeiro até sua família se mudar para a capital.
Peçanha era mulato – sua mãe era negra – e a imprensa da época constantemente fazia charges e anedotas referentes à cor de sua pele. Apesar disso, no campo político, a origem não foi um empecilho. Isso porque, no Brasil, o status social é mais importante que a cor, segundo o diplomata e membro da Academia Brasileira de Letras Alberto Costa e Silva.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Lamarca: A Trajetória de um Desertor
No meio da tarde de uma sexta-feira, sob o ardente calor de 40 graus da caatinga do sertão baiano, uma equipe de agentes, aproximando-se passo a passo, vislumbrou os dois homens que descansavam à sombra de uma baraúna, no lugarejo de Pintada, município de Oliveira dos Brejinhos.
À voz de prisão, tentaram sacar suas armas. Duas rajadas curtas mataram os dois homens: um deles era José Campos Barreto, o Zequinha, morador da região; o outro, também conhecido por "Renato", "Célio", "Sylas", "João", "César", "Cid", "Cláudio", "Paulista" e "Cirilo", era Carlos Lamarca, ex-Capitão do Exército, ex-dirigente da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e da Vanguarda Armada Revolucionária - Palmares (VAR-P), naqueles tempos já militante do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8) e escondido no interior da Bahia. Foi o fim trágico de um desertor.
Filho de pais pobres, Lamarca nasceu em 27 de outubro de 1937 e viveu, até os 17 anos, no Morro de São Carlos, no Rio de Janeiro, com seus irmãos e uma irmã de criação, Maria Pavan, que viria a ser sua esposa.
Em meados da década de 50, como muitos, entusiasmou-se com a campanha do "O Petróleo é Nosso", politizando-se com as idéias nacionalistas que o influenciaram a procurar a carreira militar.
Depois de reprovado por duas vezes nos exames, ingressou, em 1955, como aluno na Escola Preparatória de Cadetes de Porto Alegre. Três anos depois, estava matriculado na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN).
Já como cadete, Lamarca - clandestinamente e fora dos limites da AMAN - participou de grupos de estudo do marxismo-leninismo, tornando-se um simpatizante do Partido Comunista Brasileiro (PCB).
Declarado, em dezembro de 1960, aspirante-a-oficial da Arma de Infantaria, foi designado para servir no quartel do 4º Regimento de Infantaria (4ºRI), em Quitaúna/SP.
Como tenente, iniciou estudos sobre guerrilha e, em junho de 1962, vislumbrando a possibilidade de integrar a Força Brasileira, em Suez, conseguiu ser transferido para o 2º Regimento de Infantaria, na Vila Militar/RJ, e participou, durante 13 meses, da Força de Emergência da ONU, no Oriente Médio.
Retornando ao Brasil, foi designado, em outubro de 1963, para a então 6ª Companhia de Polícia do Exército (6ª Cia PE), em Porto Alegre/RS.
A Revolução de 31 de março de 1964 veio encontrar o Tenente Lamarca na 6ª Cia PE, admirando a tentativa de resistência de Brizola e condenando a atitude de Jango, por ele tachada como uma "fuga covarde".
Nesse ano, já transitando com desenvoltura pelas esquerdas, chegou a pedir o seu ingresso no PCB, somente desistindo quando alguns companheiros afirmaram que esse partido, "reformista e traidor, o entregaria à polícia".
Na noite de um sábado de dezembro de 1964, quando escalado de oficial-de-dia, Lamarca, deliberadamente, facilitou a fuga do Capitão da Aeronáutica Alfredo Ribeiro Daudt, que estava preso por subversão.
O inquérito, aberto para apurar o seu primeiro ato de traição ao Exército Brasileiro, não chegou a conclusões definitivas.
Entretanto, essa fuga inexplicável tornou o ambiente demasiadamente tenso para ele, na PE.
Novamente movimentado, apresentou-se, em dezembro de 1965, no seu antigo quartel do 4º RI, em Quitaúna.
Nesse quartel paulista, reencontrou-se com seu amigo, o Sargento Darcy Rodrigues, com quem, novamente, passou a ter longas conversas sobre a situação brasileira e a realizar um estudo sistemático sobre o marxismo-leninismo.
Em 1968, várias organizações clandestinas, de linha foquista e militarista, sob o pretexto de livrar o Brasil da ditadura militar, ensangüentavam-no, desencadeando as açõs armadas e terroristas preconizadas por Cuba. Uma delas era a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), criada, em março desse ano, pela fusão do grupo foquista dissidente da Política Operária (POLOP) com os remanescentes do núcleo de São Paulo do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), de Brizola. Paradoxalmente, uniram-se os "políticos" teóricos com os "militares" práticos.
Depois de estabelecer conversações com a Ação Libertadora Nacional (ALN) e com o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Lamarca decidiu ingressar na VPR, seduzido pela facilidade com que poderia galgar os postos de comando, fazendo valer sua natural ascendência hierárquica sobre os inúmeros sargentos que integravam a organização.
Assim, em junho de 1968, ingressou na base militar da VPR, levado pelos irmãos de um de seus dirigentes, o ex-sargento Onofre Pinto. De imediato, criou uma célula clandestina da VPR no seu quartel, o 4º RI, composta pelo Sargento Darcy Rodrigues, pelo Cabo José Mariano Ferreira e pelo Soldado Carlos Roberto Zanirato. Muito "convenientemente", Lamarca era, na época, o instrutor de tiro da Unidade.
Com essa facilidade, cometeu a segunda traição ao Exército, conseguindo desviar 2 mil tiros para municiar os 9 FAL que haviam sido roubados pela VPR, em 22 de junho de 1968, no assalto ao Hospital Geral de São Paulo, no Cambuci.
Em dezembro desse ano, explodiu a crise latente na VPR, provocada pela contradição entre a prática e a teoria, entre os "militaristas", oriundos do MNR, e os "políticos" ou "leninistas", oriundos da POLOP. Numa conturbada reunião realizada no litoral paulista, que ficou conhecida como a "praianada", os "militaristas", agora fortalecidos pela adesão do Capitão Lamarca, assumiram a direção da VPR.
Nesse ínterim, Lamarca vinha ministrando instrução de tiro a funcionárias do Banco Bradesco, ironicamente, para que elas pudessem enfrentar os assaltos a bancos.
Na sua cabeça, entretanto, fervilhavam as idéias sobre futuras ações armadas, dentre as quais o assalto ao seu próprio quartel, ato que marcaria, publicamente, o seu ingresso na luta armada terrorista e a sua terceira traição ao Exército.
Apesar do comando militar da área já ter tido conhecimento, desde outubro de 1968, da existência de uma célula comunista no 4º RI e, inclusive, da participação do Capitão Lamarca, as medidas então tomadas - fruto do despreparo em combater ações desse tipo - revelaram-se inócuas e não impediram o assalto.
Foi intenso e meticuloso o planejamento da ação, prevista para ser realizada nos dias 25 e 26 de janeiro de 1969, um final de semana, inclusive com a especificação detalhada de quem deveria matar quem. Entretanto, a prisão de quatro militantes da VPR, na quinta-feira, e a descoberta, em Itapecerica da Serra, do caminhão que estava sendo pintado com as cores do Exército, a fim de facilitar o roubo do armamento, determinaram a antecipação do assalto.
Assim, no final da tarde de sexta-feira, 24 de janeiro de 1969, Lamarca entrou no 4º RI com sua própria Kombi e, no paiol, carregou-a com 63 FAL, 3 metralhadoras INA, uma pistola .45 e farta munição.
Dali, dirigiu-se para a casa de Onofre Pinto, a fim de despedir-se de sua esposa, Maria Pavan, e do casal de filhos que, naquela mesma noite, embarcariam para Cuba, via Roma, junto com a família de Darcy Rodrigues.
Com 31 anos, Carlos Lamarca desertava do Exército e ingressava na clandestinidade, com seu nome já aureolado pelo ato audacioso. Com a família em segurança, pôde livremente desfrutar da companhia de sua amante Iara Iavelberg, psicóloga casada com um médico, também militante da VPR, e que, desde sua antiga militância na POLOP, colecionava os codinomes de "Leila', "Norma", "Rita", "Leda", "Cláudia", "Célia", "Márcia" e "Mara".
Alimentado pelo desejo de logo iniciar as ações violentas, foi planejá-las nos locais secretos da organização, os "aparelhos". Em pouco tempo, cometeria o seu primeiro assassinato.
O 1º Assassinato
Depois de um Congresso realizado em abril de 1969, numa casa em Mongaguá, cidade do litoral paulista, entre Praia Grande e Itanhaém, no qual Lamarca foi eleito um dos cinco membros do Comando Nacional (CN), a VPR reiniciou as ações armadas.
Na tarde de 09 de maio, Lamarca comandou o assalto simultâneo aos bancos Federal Itaú Sul-Americano e Mercantil de São Paulo, na Rua Piratininga, bairro da Moóca, cujo gerente, Norberto Draconetti, foi esfaqueado e o guarda-civil, Orlando Pinto Saraiva, morto com dois tiros, um na nuca e outro na testa, disparados por Lamarca, que se encontrava escondido atrás de uma banca de jornais. No final da ação, disparou uma rajada de metralhadora para o ar, como a marcar, ruidosa e pomposamente, o seu primeiro assalto a banco e o seu primeiro assassinato.
Os primeiros meses de 1969, entretanto, foram marcados pelas prisões de dezenas de militantes da VPR e do Comando de Libertação Nacional (COLINA), organização criada em junho do ano anterior por dissidentes da Política Operária (POLOP) em Minas Gerais e no Rio de Janeiro. Debilitadas, ambas buscaram, na fusão, um modo de rearticularem-se, formando uma única organização, mais poderosa e de âmbito quase nacional. Dessa forma, no início de julho de 1969, surgiu a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-P), com Lamarca integrando, com mais cinco membros, o seu Comando Nacional (CN).
Nessa época, Lamarca já era um dos comunistas mais procurados. O roubo das armas, a deserção e o primeiro assassinato levaram os órgãos de segurança a efetuarem esforços especiais para a sua captura. O Exército, particularmente, sentindo-se traído, colocara como ponto de honra o fim dos seus atos terroristas. No entanto, ele não era mais um subversivo desconhecido, que necessitava ser identificado. Sua fama e sua origem o qualificavam como extremamente perigoso e sua fotografia atualizada era guardada no bolso de muitos agentes. Sua aparência física e, principalmente, seu rosto cadavérico, tornavam-no um alvo fácil de ser reconhecido. Lamarca sabia disso e resolveu mudar.
Em julho de 1969, dois médicos militantes da Base Médica da VPR, Almir Dutton Ferreira ("Augusto", "Cesar", "Ivo", "João") e Germana Figueiredo ("Júlia"), incumbiram-se da tarefa.
Almir convocou seu amigo de infância, o dentista Rogério Iório, que, em quatro consultas em seu consultório na Avenida Nelson Cardoso, em Jacarepaguá, trocou todos os dentes superiores de Lamarca.
Quinze dias depois, já em agosto, Almir procurou um outro amigo, o médico Milton Nahon, que conseguiu os serviços do também militante comunista Afrânio Marciliano Freitas Azevedo, cirurgião mineiro do Hospital Gaffrée Guinle, que, com o auxílio do médico cearense Amauri Luzardo Santiago de Almeida e do anestesista Luiz Alves, realizou a operação plástica na Clínica São João de Deus, na Rua Almirante Alexandrino, em Santa Tereza.
Lamarca foi internado com o nome de "Paulo Cesar de Castro" e chegou na clínica estranhamente vestido de mulher, com trejeitos para se passar por cabelereiro e homossexual. Durante as 24 horas da cirurgia, dois militantes da VPR, Sonia Eliane Lafoz e Wellington Moreira Diniz - este escondido no armário, permaneceram no seu quarto, como seguranças armados.
Logo depois, já com o nariz reduzido e sem os marcantes sulcos da testa e da face, Lamarca tirou fotografias para a nova identidade e viajou para São Paulo, numa caravana composta por seguranças e pelo médico da VPR Luiz Roberto Tenório, que a capitaneava num Gordini.
Entretanto, se a cirurgia deu certo e tínhamos um novo Lamarca, o mesmo não ocorria com a fusão que dera origem à VAR-PALMARES. Se, por um lado, os "marxistas" oriundos do COLINA, melhor preparados politicamente, criticavam os "militaristas" da VPR pelo "imediatismo revolucionário", por outro, os oriundos da VPR sentiam-se moralmente fortalecidos pelo que levavam para a nova organização: 55 milhões de cruzeiros e um grande arsenal de armas, munições e explosivos.
Nem a "Grande Ação", planejada meticulosamente por Dilma Rousseff, atual ministra da Casa Civil, - assalto ao cofre de Anna Benchimol Capriglione, amante de Adhemar de Barros, ex-Governador de São Paulo, e que proporcionou à VAR-P cerca de 2 milhões e 800 mil dólares - conseguiu acalmar os conflitos entre os dirigentes.
Entre agosto e setembro de 1969, uma casa em Teresópolis abrigou 33 militantes que, depois de 20 dias, transformaram aquilo que seria o I Congresso Nacional da VAR-P num festival de bebedeiras, drogas e sexo, recheado por acirradas discussões político-ideológicas que, por pouco, não degringolaram em agressões físicas e tiros. Ao final, concretizou-se um "racha" na VAR-P, surgindo o "Grupo dos 7" - dentre os quais, Lamarca - que foi reestruturar a VPR.
No início de outubro, no bar do Hotel das Paineiras, na Floresta da Tijuca, representou a VPR num encontro com dirigentes da VAR-P para a partilha dos bens das duas organizações. Apesar de ser membro do CN, ele delegou aos demais a burocrática tarefa de organizar o Congresso da nova VPR, realizada na Barra da Tijuca, e foi orientar seus militantes que se exercitavam no tiro e em marchas tipo guerrilha, num sítio em Jacupiranga, próximo ao Km 234 da BR-116. Observou, no entanto, que esse local, demasiado próximo de uma rodovia e de regiões urbanas, não oferecia boas condições de segurança.
Assim, já como Comandante-em-Chefe da VPR, Lamarca determinou a desmobilização dessa área e a ativação de uma outra, em Registro, no Vale do Ribeira/SP.
A Área de Registro
No feriado da Proclamação da República, Lamarca e Iara Iavelberg foram apanhados de carro por Joaquim dos Santos, num "ponto" junto ao Forte de Copacabana, na então Guanabara, e levados para São Paulo. No dia seguinte, chegavam na nova área de treinamento, localizada no Sítio Palmital, com 40 alqueires de terra, na região de Barra do Azeite, na altura do Km 254 da BR-116, antiga BR-2, rodovia que liga São Paulo a Curitiba, 30 Km ao Sul do município de Jacupiranga.
O ex-Capitão - agora utilizando o codinome de "Cid" - e mais quatro militantes permaneceram no sítio, realizando exercícios de tiro, marchas e reconhecimento das áreas adjacentes. Observaram que a área também não era a ideal: além de ser pequena, a excessiva proximidade da rodovia e a constante presença de caçadores aumentavam a sua vulnerabilidade, inviabilizando-a como área de treinamento apta a receber mais "guerrilheiros".
No início de dezembro, a VPR adquiriu um outro sítio, de 80 alqueires, situado um pouco mais ao Norte, distante 4 quilômetros da BR-116. A primeira área foi desmobilizada e seu material transferido para a nova, denominada de Área 2, considerada pronta antes do Natal.
A partir de janeiro de 1970, os militantes foram chegando para o treinamento e, em março, a Área 2 contava com um total de 18 "guerrilheiros", dentre os quais Lamarca e duas mulheres, uma delas, sua companheira Iara.
Mas as coisas começaram a se complicar.
Em 27 de fevereiro, foi preso Chizuo Ozawa, o "Mário Japa", que sabia a localização da área. Se falasse, tudo estaria perdido. Preocupado em libertá-lo, Lamarca exigiu, em caráter de urgência, o seqüestro de um diplomata. Assim, em 11 de março de 1970, foi seqüestrado o Cônsul do Japão, Nobuo Okuchi, posteriormente trocado por cinco presos, dentre os quais "Mário Japa". A localização da Área 2 permanecia secreta.
Mas as dezenas de prisões de dirigentes e militantes da VPR, ocorridas no início de abril, viriam, novamente, comprometer a segurança da área de treinamento. Os depoimentos dos presos confirmaram que Lamarca havia feito, no ano anterior, uma operação plástica e Maria do Carmo Brito, membro do CN, presa no Rio de Janeiro, apontara a localização da área.
Em meados de abril de 1970, sentindo-se seguro, Lamarca convocou uma reunião ampliada do CN/VPR, numa casa da Rua Estância, em Peruíbe, cidade do litoral sul paulista. Aventurou-se a deixar a área de treinamento - relativamente próxima ao local - e encontrou-se com Ladislas Dowbor, membro do CN e Cmt da Unidade de Combate (UC) de São Paulo, e com Maria do Carmo Brito, membro do CN, além dos dois Cmt/UC da Guanabara, Juarez Guimarães de Brito e José Ronaldo Tavares de Lira e Silva. O Cmt da UC/RS, Felix Silveira Rosa Neto, também previsto para comparecer à reunião, não foi encontrado por Joaquim dos Santos, que o fora buscar de carro em Porto Alegre (ninguém sabia que Félix já havia sido preso em 12 de abril). Ainda na casa, estavam presentes Iara Iavelberg, Maria Barreto Leite Valdez, que iria cumprir missão no Sul, e Tercina Dias de Oliveira, a "Tia", retirada da área de treinamento no início de março. As informações ainda obscuras sobre as quedas dos militantes da VPR não permitiram que essa reunião do CN decidisse ações de importância.
Entretanto, na noite de 18 de abril de 1970, já alertado sobre as prisões, Lamarca decidiu desmobilizar a área e evacuar os militantes em três grupos. Dois dias depois, quando chegaram as primeiras tropas da "Operação Registro", 8 militantes já haviam fugido.
O Assassinato do Tenete Mendes
Na noite do Dia das Mães, 08 de maio, depois de mais de duas semanas ainda cercados na área, Lamarca e mais 6 militantes emboscaram cerca de 20 homens da Polícia Militar de São Paulo, chefiados pelo Tenente Alberto Mendes Júnior - o "Berto", como era chamado por sua família, que decidiu se entregar como refém, desde que seus subordinados, feridos, pudessem receber auxílio médico.
Na noite seguinte, os 7 guerrilheiros ficaram reduzidos a 5, pois 2 haviam se extraviado na refrega da noite anterior.
Conduzindo o Ten Mendes como refém, prosseguiram na rota de fuga. Depois de andarem um dia e meio, os 5 guerrilheiros pararam para um descanso, no início da tarde de 10 de maio de 1970.
Lamarca disse que o Ten Mendes os havia traído, causando a morte de dois companheiros (não sabia que eles estavam, apenas, desgarrados) e, por isso, teria que ser executado.
Nesse momento, enquanto Ariston Oliveira Lucena e Gilberto Faria Lima vigiavam o prisioneiro, Carlos Lamarca, Yoshitane Fujimore e Diógenes Sobrosa de Souza afastaram-se e, articulando-se em um "tribunal revolucionário", condenaram o Ten Mendes à morte.
Poucos minutos depois, Yoshitane Fujimore, acercando-se por trás do Tenente, desferiu-lhe, com a coronha do fuzil, violentos golpes na cabeça. Caído e com a base do crânio partida, o Ten Mendes gemia e contorcia-se em dores. Diógenes Sobrosa de Souza desferiu-lhe outros golpes na cabeça, esfacelando-a. Ali mesmo, numa pequena vala e com seus coturnos ao lado da cabeça ensangüentada, o Ten Mendes foi enterrado. Lamarca, perante os 4 terroristas, responsabilizou-se pelo assassinato.
Alguns meses mais tarde, em 08 de setembro de 1970, Ariston Oliveira Lucena, que havia sido preso, apontou o local onde o Tenente Mendes estava enterrado. As fotografias tiradas de seu crânio atestam o horrendo crime cometido. Sua mãe entrou em estado de choque e ficou paralítica por quase três anos.
Ainda nesse mês de setembro, descoberto o crime, a VPR emitiu um comunicado "Ao Povo Brasileiro", onde tenta justificar o frio assassinato, no qual aparece o seguinte trecho:
"A sentença de morte de um Tribunal Revolucionário deve ser cumprida por fuzilamento. No entanto, nos encontrávamos próximos ao inimigo, dentro de um cerco que pôde ser executado em virtude da existência de muitas estradas na região. O Tenente Mendes foi condenado e morreu a coronhadas de fuzil, e assim o foi, sendo depois enterrado."
Os dirigentes da VPR não só eram os donos da verdade, como arvoravam-se em senhores da vida e da morte!
Na tarde de 31 de maio de 1970, Lamarca e os 4 militantes seqüestram uma viatura do 2º Regimento de Obuses 105 e conseguem romper o cerco, largando o veículo já na cidade de São Paulo, na marginal do rio Tietê, perto do bairro da Vila Maria, com os militares amarrados à carroceria, sem roupas.
O segundo assassinato cometido por Lamarca e a fuga bem sucedida, ludibriando e humilhando os militares, serviu para aumentar a lenda e o mito.
O Seqüestro do Embaixador da Suíça
Lamarca encontrou a VPR em situação caótica, em face das numerosas "quedas" de abril e de maio de 1970. Em 03 de junho, cobriu um ponto com Ariston Oliveira Lucena na Avenida Ipiranga e reassumiu a sua função de Comandante-em-Chefe, rearticulando o Comando Nacional (CN) com Inês Etienne Romeu e com o homossexual ainda não assumido Herbert Eustáquio de Carvalho, o "Daniel", que com ele estivera na área de Registro. Ao mesmo tempo, foi morar com Iara num "aparelho" do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT).
Em meados de junho, Lamarca, em reunião com Joaquim Câmara Ferreira ("Toledo"), da ALN, e Devanir José de Carvalho ("Henrique"), do MRT, estabeleceu a lista dos 40 prisioneiros que seriam trocados pelo Embaixador alemão, seqüestrado em 11 de junho de 1970.
Reestruturada e com o moral fortalecido pelo sucesso alcançado no seqüestro, a VPR ingressou no 2º semestre de 1970 disposta a incrementar as ações violentas.
Contudo, o seu Comandante-em-Chefe continuava enclausurado em "aparelhos" de outra organização, o diminuto mas violento MRT, por falta de uma conveniente infra-estrutura em São Paulo, até que, no início de outubro, os três membros do CN foram transferidos para o Rio de Janeiro, sendo que o casal Lamarca e Iara foi descansar, durante dois meses, numa casa alugada pelo militante Walter Ribeiro Novaes - nomeado "infra" do Comando - em Rio D'Ouro, pequeno lugarejo situado entre Piabetá e Santo Aleixo, na entrada de Imbariê, estrada Rio-Teresópolis.
Com tranqüilidade, Lamarca pôde, nesses dias, escrever vários documentos teóricos de orientação à VPR e, à revelia da "frente" composta com a ALN, o PCBR, o MR-8 e o MRT, decidiu executar o seqüestro do Embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher.
A ação desencadeou-se na manhã de 07 de dezembro de 1970, na Rua Conde de Baependi, uma rua estreita, de mão única, que liga o bairro de Laranjeiras ao Flamengo.
Depois de bloqueado o Buick azul do Embaixador, Lamarca, de cavanhaque, terno e gravata, bateu no vidro da janela onde estava o segurança, o Agente da Polícia Federal Hélio Carvalho de Araújo. Abriu a porta e disparou dois tiros com um revólver "Smith & Wesson" calibre .38, cano longo, a uma distância de um metro: o 1º tiro atingiu o teto do carro e o 2º, as costas do Agente que, por instinto, se virara. Com a medula totalmente seccionada pelo projetil, o Agente viria a falecer três dias depois, no Hospital Miguel Couto.
Consumado o seqüestro e o seu 3º assassinato, Lamarca levou o Embaixador para uma casa da Rua Tacaratu, uma ladeira que começava em Rocha Miranda e terminava em Honório Gurgel.
Nessa casa, durante os 40 dias de cativeiro, junto com quatro outros militantes, Herbert Eustáquio de Carvalho, Gerson Theodoro de Oliveira, Tereza Ângelo e Alfredo Hélio Sirkis, Lamarca viu, por diversas vezes, ameaçada a sua autoridade, na polêmica sobre se matavam ou não o suíço.
Num rompante de democracia, Lamarca determinou que os militantes da VPR enviassem, por escrito, as respectivas posições.
No documento de Adair Gonçalves Reis, datado de 24 de dezembro, aparece:
"Propomos a marcação imediata da data e horário para o justiçamento, com comunicado à ditadura. Prazo mínimo de 48 horas e máximo de 72 horas, tomando as 18 horas da tarde como horário básico."
Dois dias depois, Zenaide Machado afirma:
"A saída é pagar o preço alto e carregar um defunto que irá muito nos incomodar."
Ubajara Silveira Roriz ("Otávio", "Nando", "Paulo", "Salomão"), militante que já defendera a idéia de sabotar as indústrias siderúrgicas soltando milhares de ratos nas cidades próximas, propugnava:
"... fazer a ditadura levar o cadáver do embaixador atravessado na garganta, nas suas andanças pelo mundo."
Nas respostas, somente Alfredo Hélio Sirkis e José Roberto Gonçalves de Rezende não viram dividendos políticos na morte do Embaixador. Dentre os 5 militantes confinados no "aparelho" da Tacaratu, inicialmente, Sirkis ficou isolado, numa posição absolutamente minoritária.
Com as respostas e o passar dos dias, Lamarca mudou a sua posição. Mesmo assim, eram cerca de 15 votos contra 3, esmagadora maioria a favor da execução. Lamarca, como comandante-em-chefe da VPR, exerceu o seu poder de veto e a sustou. Sem o saber, Bucher nunca estivera tão perto da morte como naqueles dias de Natal.
À meia-noite de 13 de janeiro de 1971, 70 presos, escoltados por 3 agentes da Polícia Federal, decolavam do Galeão num Boeing da Varig, com destino a Santiago do Chile.
No dia 15, um dia antes do Embaixador ser libertado, Lamarca abandonou o "aparelho" e foi matar as saudades de Iara, que viera de São Paulo.
A Saída da VPR e o Inresso no MR-8
Se o seqüestro do Embaixador suíço proporcionou, por um lado, a libertação de 70 militantes, por outro, demonstrou ser uma "vitória de Pirro", abalando a liderança de Lamarca e iniciando o que viria a ser a desestruturação da VPR.
Em 10 de janeiro de 1971, ainda no "aparelho" da Tacaratu, Lamarca redigiu o documento "Os Mesmos Problemas da Propaganda Armada", no qual, num desabafo, revela as incertezas que lhe corroíam o espírito:
"Estamos nos esvaziando, não conseguimos recuperar o terreno perdido, os companheiros no exterior estão sendo transformados em tábuas de salvação enquanto aqui não conseguimos criar condições para recebê-los, não admitimos fazer trabalho político e ficamos impossibilitados de penetrar no campo, aprofundamos o nosso isolamento político, afundando cada vez mais na marginalidade, ignoramos a história, preocupamo-nos mais com o que o MR-8 vai dizer do que significam as nossas ações, transformamos as nossas discussões em afirmação pessoal (encenações de marxismo), deturpamos tudo para demonstrar que a nossa linha é a correta quando estamos num impasse histórico, esquecemos as discussões, a maioria silencia aguardando não sabemos o que, desgastamo-nos no cri-cri-cra-cra da política burguesa, não criamos nada. A discussão é decisiva."
Dez dias depois de escrever uma "Carta Aberta a Toda a ORG", Zenaide Machado escreveu em 25 de janeiro, em parceria com Adair Gonçalves Reis, um documento no qual analisa os fenômenos existentes na esquerda, dentre os quais o voluntarismo, o espontaneísmo, o individualismo, o personalismo e a autoafirmação, concluindo:
"Toda a esquerda sofre na carne a presença destes fenômenos que têm atravancado o seu desenvolvimento. Se não vencermos o desafio que esta realidade nos impõe, se não tivermos a combatividade necessária para fazermos uma profunda autocrítica e revolução interna não passaremos do que somos hoje: um tumor dentro da realidade política brasileira."
O ponto alto das discussões, entretanto, pelo caricato que se revestiu, foi a polêmica entre Lamarca e o estranho militante de codinome "Otávio", Ubajara Silveira Roriz, o mesmo dos "ratos" e do cadáver "atravessado na garganta". Depois de escrever, em 27 de outubro de 1970, um documento sobre a moral revolucionária, Ubajara, em 19 de dezembro, redigiu o "Libelo contra os Apóstolos do Laissez-Faire ou Abaixo o Positivismo Anti-Revolucionário", usando termos nunca sonhados no hermético discurso marxista-leninista, tais como "pitecantropus erectus", "primatas", "português do bar da esquina", etc.
Foi, no entanto, a crítica aos que estavam no Comando que provocou a irritação em seus companheiros, agravada por dois novos documentos datados de 02 e 05 de janeiro, respectivamente, uma "Carta Aberta ao Comando Nacional" e um "Balanço da Situação", nos quais reputa o seqüestro do embaixador suíço como uma derrota política e disserta sobre a "volúpia do poder" e a "completa ausência de companheirismo revolucionário" que havia, no seu entender, na VPR.
Até aquele momento, o ex-Capitão não havia recebido nenhum desses documentos, pois os comandantes das Unidades de Combate (UC) e das bases estavam considerando que era melhor preservar o comandante-em-chefe da leitura das diatribes de Ubajara. O último documento, entretanto, foi recebido por Lamarca em 14 de janeiro e, dois dias depois, enviava uma "Resposta Sintética ao Companheiro Otávio", afirmando que seu balanço havia sido superficial e incompleto, caindo num "desvio ideológico". Ao final, uma advertência: "Nós devemos é ser mais sérios em nossas análises."
Em 23 de janeiro, Ubajara responde com o documento que mexeu com toda a organização, o "Quem é Carlos Lamarca ?", no qual levanta dúvidas sobre a lealdade revolucionária do "ex-capitão do Exército" e afirma estranhar o mito que se havia criado em torno do seu nome.
Quase uma dezena de documentos sobre a polêmica Lamarca x "Otávio" circularam entre os militantes da VPR nesses dois primeiros meses de 1971, demonstrando a fragilidade do Comando, tendo em vista, particularmente, que tudo acabou em nada.
O mês de março de 1971 ficou marcado pelas ásperas discussões travadas entre Lamarca e Inês Etienne Romeu, que redundaram no desligamento desses dois membros do triunvirato que compunha o Comando Nacional da VPR.
Em 22 de março de 1971, Lamarca, através do documento "Ao Comando da VPR", apresentou o seu "pedido de desligamento em caráter irrevogável", fundamentado por:
"1) divergir da linha política da VPR, conforme coloquei em diversos documentos internos;
2) ter constatado os desvios ideológicos da VPR e a deformação que acarreta em muitos dos seus quadros;
3) não ter conseguido levar a luta interna que iniciei há um ano com a devida serenidade;
4) não conseguir romper com o culto ao sectarismo existente na VPR;
5) discordar do método de direção (apesar de ser Cmt-em-Chefe); a Org impede a liberação de potencial, não forma quadros, aliena militantes, deforma dirigentes, elimina a criatividade, impede a prática leninista -- tudo como já coloquei em documentos internos."
Em 27 de março, logo depois de escrever o documento "Congresso: Salvação Política e Não de Honra", Lamarca, conduzido por Alex Polari de Alverga num Volks bege, foi passado para o MR-8 num "ponto" na Rua Vilela Tavares, no Méier, onde o aguardavam Carlos Alberto Vieira Muniz e Stuart Edgard Angel Jones, num Volks vermelho. Ao mesmo tempo, Iara era trazida a esse ponto por Alfredo Hélio Sirkis. Nesse final de março, Lamarca e Iara iniciavam a trajetória que os levaria à morte na Bahia.
No dia 11 de abril, um recém-formado Comando Nacional Provisório (CNP) emitiu o documento "Sobre o Problema do Desligamento do Companheiro Cláudio", no qual o tachava de "personalismo", "oportunismo" e possuidor de um "idealismo ingênuo" e afirmava que essa atitude havia sido de "fuga à responsabilidade", "a partir de um profundo emocionalismo", denotando uma "fraqueza ideológica". A propósito dos numerosos documentos escritos por Lamarca, o CNP não esqueceu-se de criticá-los, afirmando que eram "somente algumas frases feitas (e ainda por cima mal feitas)" e não passavam de "mero exercício de caligrafia", referindo-se à sua escrita perfeita, redondinha, estranhamente feminina.
Ao final, o CNP concluía que não aceitava o seu desligamento enquanto que não ficassem claras as divergências e que ele não poderia "assumir militância em outra organização até a decisão final da questão".
Mero exercício de retórica. Lamarca já estava no MR-8.
A Morte no Sertão da Bahia
À primeira vista, parecia que o MR-8 se fortalecia com a vinda do "Cid" ou "Cláudio", aumentando o seu prestígio junto às esquerdas. Na realidade, a organização recebia, mais do que um militante, um verdadeiro "elefante branco" e a responsabilidade de mantê-lo na absoluta clandestinidade. Para Lamarca, o ingresso no MR-8 representou, nada menos, que o início do seu fim.
Carlos Lamarca e Iara Iavelberg passaram os meses de abril, maio e junho de 1971 escondidos de "aparelho" em "aparelho", dentre os quais o de Renato Perrault de Laforet ("Zé"), em Botafogo, e o de José Gomes Teixeira ("P1").
A prisão deste último, em 11 de junho, que veio a se somar a uma série de prisões de militantes e dirigentes do MR-8, precipitou a decisão de levar o casal para o sertão da Bahia, junto ao trabalho de campo na região do Médio São Francisco. Para o transporte, conseguiu-se um Volks e uma Kombi, cujos proprietários e também motoristas eram, respectivamente, Rui Berford Dias ("Aguiar") e Waldir Fiock da Silva ("Dirceu", "Pantera", "Gota Serena", "Roberto").
No início da noite de 25 de junho, os quatro encontraram-se, junto ao BOB'S da Avenida Brasil, com José Carlos de Souza, que viera especialmente para buscá-los. No Volks, seguiram Lamarca, Iara e José Carlos. Um pouco mais à frente, para verificar as barreiras policiais, a Kombi com Waldir e Rui.
No dia seguinte, ao chegarem em Vitória da Conquista, Rui retornou com seu Volks e os outros quatro seguiram com a Kombi até Jequié. Depois de pernoitarem, o casal se separou: Iara e Waldir foram de ônibus para Salvador, enquanto Lamarca e José Carlos dirigiram-se para Itaberaba e Ibotirama. Ao chegarem na ponte da BR-242 sobre o Rio Paramirim, encontraram-se, no fim da tarde de 27, com José Campos Barreto, o "Zequinha". Depois de dormirem numa pensão no início da estrada que demanda a Brotas de Macaúbas, chegaram nessa cidade na tarde de 28 e, no dia seguinte, Lamarca e Zequinha foram a Buriti Cristalino, enquanto José Carlos seguia com a Kombi para Salvador, a fim de encontrar-se com Iara e Waldir. Sem o saber, Lamarca, acobertando-se como o "geólogo Cirilo", chegara em sua penúltima morada.
Na tarde de 06 de agosto, encontraram-se, no centro de Salvador, César de Queiroz Benjamin ("Menininho") e José Carlos de Souza. Como assunto principal, estabeleceram que Iara seguiria para Feira de Santana, onde havia melhores condições de segurança, e ele, José Carlos, incorporar-se-ia ao trabalho de campo, em Brotas. Há algum tempo na vigilância, policiais deram voz de prisão aos dois militantes. O "Menininho" atracou-se com os agentes, chegou a atirar e conseguiu fugir (pela 2ª vez) ao cerco, dirigindo-se para a então Guanabara. Menos feliz, José Carlos foi preso e começou a denunciar diversos companheiros.
A partir de 17 de agosto, Iara Iavelberg, agora com os novos codinomes de "Gil", "Liana" e "Leila", passou a residir no apartamento 201, do Edifício Santa Terezinha, na Rua Minas Gerais, 125, na Pituba, com Jaileno Sampaio da Silva e sua companheira Nilda Carvalho Cunha, além da irmã desta, Lúcia Bernardeth Cunha.
No dia 20 de agosto de 1971, através das declarações de José Carlos, a polícia cercou o Edifício Santa Terezinha e exigiu a rendição dos ocupantes do apartamento 201. Após terem sido presos Lúcia, Jaileno e Nilda, Iara Iavelberg foi encontrada no apartamento vizinho, o 202, onde se escondera no início do cerco. Não vendo possibilidades de fuga e assolada por bombas de gás lacrimogênio, a amante de Lamarca suicidou-se com um tiro no coração.
No dia seguinte, um sábado, às 19 horas, logo depois de passar um telegrama do Rio de Janeiro para Iara (sem saber que ela já estava morta), o "Menininho", num Volks com Ney Roitman, Alberto Jak Schprejer ("Souza", "Beto") e sua amante Teresa Cristina de Moura Peixoto ("Tetê"), é detido por uma "Operação Pára-Pedro", na Avenida Vieira Souto, na altura do Jardim de Alá. Ao serem solicitados os documentos, o "Menininho" saiu rapidamente do carro, fugindo correndo entre os transeuntes. Pela 3ª vez, conseguia escapar de um cerco policial. No veículo, ficaram o diário de Lamarca e cartas para Iara, escritas de 29 de junho a 16 de agosto, que forneceram, aos órgãos de segurança, a certeza de onde deveriam procurar e concentrar esforços a fim de capturá-lo.
Enquanto isso, as declarações de José Carlos de Souza ajudavam a colocar mais dirigentes do MR-8 na cadeia. Em 27 de agosto, foi a vez de Diogo Assunção de Santana e Milton Mendes Filho.
No dia seguinte, a polícia chegou em Buriti Cristalino, dando voz de prisão aos ocupantes da casa dos irmãos Campos Barreto, que reagiram com intenso tiroteio. Ao final, Olderico foi preso, ferido no rosto e na mão direita, enquanto Otoniel foi morto, quando tentava a fuga. Dentro da casa, o cadáver de Luiz Antônio Santa Bárbara, que se matara com um tiro na cabeça. Era o 3º suicídio de militantes do MR-8 para não denunciarem Lamarca que, acampado a poucos quilômetros do lugarejo de Buriti Cristalino, ouvira os tiros e fugira, internando-se com Zequinha mata a dentro.
Sem saber do acontecido e sentindo-se "queimado" no Rio de Janeiro, César de Queiroz Benjamin retornou a Salvador, sendo preso em 30 de agosto, num "ponto" delatado por Jaileno, no Rio Vermelho. Após longa série de assaltos e ter escapado de três choques com a polícia, o "terrível Menininho", com apenas 17 anos, mostrou-se extremamente dócil nos interrogatórios. Suas extensas declarações, todas de próprio punho, desvendaram a linha política e as ações do MR-8. Muitos militantes foram, então, identificados. Chegou, inclusive, a fazer uma análise dos métodos de interrogatório aplicados, declarando-se surpreso com o bom tratamento recebido e com o nível de seus interlocutores.
Com essa nova e importante fonte, os órgãos de segurança, que já haviam retirado boa parte de seus efetivos da região de Brotas de Macaúbas, retornaram ao local, iniciando-se nova caçada a Lamarca e a Zequinha.
No meio da tarde de 17 de setembro de 1971, uma equipe de agentes, integrantes da Operação Pajussara, localizou os dois militantes, que descansavam à sombra de uma árvore, perto do arruado de Pintada, município de Oliveira dos Brejinhos. À voz de prisão, tentaram sacar de suas armas. Uma série de tiros pôs fim ao ex-Capitão comunista - que deixara um rastro de sangue atrás de si - e a José Campos Barreto.
Traidor do Exército Brasileiro
Essa é a verdadeira história de Carlos Lamarca, a qual poucos conhecem, pois sempre foi contada por só um dos lados. Mais de 28 anos após sua morte, os tempos mudaram.
Os militantes comunistas que ensangüentaram o País em nome de uma revolução - hoje, por muitos deles mesmos vista como equivocada -, não mais matam, seqüestram ou roubam e nem mais descansam nas enxêrgas dos "aparelhos" ou da selva. Beneficiados pela anistia, seus crimes foram esquecidos. Seus atos ensandecidos foram transformados em heróicos e seus passados são avaliados pelas maiores ou menores "perseguições políticas" que, supostamente, teriam sofrido.
Em contrapartida, aqueles que lutaram contra a luta armada, ao lado da Lei e a Ordem, são tachados de torturadores, de opressores e de reacionários. Listados nos livros vermelhos elaborados por esquerdistas, são marcados durante toda a vida, ao arrepio da Justiça, pelos intolerantes derrotados.
Enquanto uns ganham homenagens, monumentos, nomes em logradouros públicos e filmes patrocinados pelo dinheiro público, outros são acusados, perseguidos, destituídos de suas funções e convocados a "pseudo-comissões de inquérito".
Para os primeiros, os derrotados na luta armada, a anistia de 1979 não serviu para sepultar as idéias exacerbadas e conduzir a Nação para o caminho do entendimento mas, apenas, para conceder-lhes a liberdade de atacar seus antigos inimigos e de praticar o revanchismo.
Para os segundos, a vitória na luta armada foi o estopim da derrota política e amargam um compulsivo silêncio, patrulhados pela mídia ideológica.
Assim é com Carlos Lamarca.
Há mais de 16 anos, em 25 de agosto de 1983, um desses ex-terroristas, Liszt Benjamim Vieira, então Deputado Estadual pelo PT do Rio de Janeiro, pronunciou um discurso na Assembléia Legislativa, no qual fez a seguinte assertiva sobre o ex-Capitão:
"Senhor Presidente, Senhores Deputados, hoje, 25 de agosto, Dia do Soldado, queremos homenagear um herói brasileiro. (...) Cursou a Escola Militar, onde foi o primeiro aluno. Seguiu brilhante carreira militar."
Por ser "herói", sua viúva, desde 1984, recebe pensão do Exército. Por ser "herói", sua família também recebeu, por decisão da Comissão dos Desaparecidos, em 11 de Setembro de 1996, a quantia de R$ 100 mil de indenização.
Na realidade, em torno de Lamarca construíram-se muitas lendas:
- À lenda de que foi primeiro aluno da AMAN, opõe-se a realidade de que saiu Aspirante-a-Oficial classificado em 46º lugar numa turma de 57 cadetes.
- À lenda de que era brilhante atirador, opõe-se a realidade de que nunca conseguiu, com revólver calibre .38, média maior do que 78 no tiro de precisão e, apenas, usava a sua condição de "atirador" para roubar munição e entregá-la para as organizações comunistas.
- À lenda de que era um exemplar marido e chefe de família, opõe-se a realidade de que foi obrigado a se casar, ainda como cadete, por ter engravidado sua própria irmã de criação, Maria Pavan, e que a enviou para Cuba com um casal de filhos - o menino viria a ser tenente do exército cubano - não por temer por sua segurança, mas para desfrutar do convívio com sua já amante, Iara Iavelberg.
- À lenda de que era um Oficial com brilhante carreira militar, opõe-se a realidade de que desertou do Exército Brasileiro. Ao divergir, não pediu sua saída conforme os princípios de ética e de moral que lhe foram ensinados na caserna. Usando a própria farda, roubou e traiu seu sagrado juramento de Oficial do Exército, demonstrando não possuir a lealdade que caracteriza o soldado.
- À lenda de que era um herói, "libertador da Pátria", opõe-se a realidade de suas ações terroristas: assaltos a bancos, seqüestros de embaixadores, assassinatos, incentivador de guerrilhas urbana e rural, roubo de armamento e aliciador de outros militares para a causa comunista.
Insuspeitas são as opiniões de Ariston Oliveira Lucena sobre Lamarca - que com ele participou do assassinato do Tenente Mendes em Registro, publicadas em entrevista no "Jornal do Brasil" de 22 de setembro de 1988: "... era teoricamente despreparado e politicamente sem experiência ... tinha frieza e intuição ... era autoritário e não gostava de ser contrariado ..."
Também insuspeitas são as declarações de José Araújo da Nóbrega, ex-sargento do Exército e militante da VPR, que, em maio de 1970, escreveu de próprio punho:
"O Cap Lamarca não possui um QI satisfatório, à altura de ser um líder revolucionário. É um elemento de caráter volúvel, não tem posição definida, suas decisões são tomadas seguindo suas tendências emocionais. Suas qualidades militares são limitadas, tem limites de aproveitamento prático do conhecimento técnico que possui. É pouco engenhoso. O valor político que possui para ser um líder de esquerda lhe foi dado pela imprensa (interessada ou não). As suas façanhas são limitadas e são raras, todavia é elemento audacioso."
Na realidade, apesar da audácia, da lenda e do mito, Lamarca foi um desertor e um traidor do Exército Brasileiro.
E é assim que deverá passar à História.



