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quarta-feira, 11 de julho de 2012

O Sr. Oliveira e o Dia-a-Dia

Imagine-se um hipotético indivíduo que doravante chamaremos de Sr. Oliveira.

O Sr. Oliveira é um homem comum. É um pai de família.

Habita uma região metropolitana que poderia ser São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte ou Recife ou alguma outra grande cidade.

Tem um emprego em uma instituição financeira, ou em uma revendedora de peças por exemplo. Pertence àquela classe média ligeira, que além de trabalhar 4 meses por ano de graça para o governo esforça-se para pagar as contas de aluguel, escola, natação e inglês dos filhos, plano de saúde, o guarda da rua e outros pormenores no fim do mês.

O Sr. Oliveira levanta-se de manhã e veste-se com roupas de algodão, algodão esse crescido nos campos de Chapadão do Sul - MS, Campo Novo dos Parecis - MT e processado em Blumenau - SC. Talvez esteja um pouco frio e ele use um pulôver de lã de carneiros criados em Pelotas - RS e fabricado em Americana - SP.

Calça seus sapatos de couro vindo de bois do Mato Grosso, e fabricados em Novo Hamburgo, RS.

Ele toma café da manhã, com ovos vindos de Bastos, SP, leite de uma cooperativa do Rio de Janeiro, broa de milho colhido em Londrina, PR, um mamão vindo do Espírito Santo, suco de laranja de Araraquara, SP e um cafezinho vindo direto de São Lourenço, MG.

Ele lê um jornal, impresso em papel feito de eucalipto crescido em Três Lagoas, MS.

O Sr. Oliveira entra em seu carro, abastecido com álcool de cana de açúcar produzida em Piracicaba, SP, com pneus de borracha saída dos seringais de São José do Rio Preto, SP.

Enquanto ele vai ao trabalho, a Sra. Oliveira vai às compras nos supermercados do bairro, sempre pesquisando os melhores preços das frutas, das verduras e da carne para não apertar o orçamento familiar.

No almoço, o Sr. Oliveira come um filé de frango criado no Paraná, alimentado com soja e milho de Goiás e de Mato Grosso, com molho de tomate de Goiás.

Tem arroz do Rio Grande do Sul, feijão dos pivôs do oeste baiano.

Tem salada das hortas de Mogi das Cruzes, SP. Suco de uvas do Vale do São Francisco e de sobremesa goiabada feita com goiabas de Valinhos, SP e açúcar de Ribeirão Preto, SP, e queijo de Uberlândia, MG.

Outro cafezinho dessa vez da Bahia.

Hoje a noite é de comemoração. Sua empresa fez um corte de pessoal, mas felizmente o Sr. Oliveira manteve o emprego.

Ele leva a esposa jantar fora. Vinho do Vale dos Vinhedos gaúcho.

Presuntos e frios de porco criado em Santa Catarina, alimentado com soja paranaense, filet mignon de bois criados no Sul do Pará.

Chocolate produzido com cacau do sul da Bahia. E outro café de Minas, adoçado com açúcar pernambucano.

O Sr. Oliveira é um homem razoavelmente informado e inteligente.

No dia seguinte ele lerá os jornais novamente.

Pelos jornais ele ficará sabendo que há conflitos em terras indígenas recentemente demarcadas e fazendeiros cujas famílias foram incentivadas a ocupar aquelas terras há décadas atrás.

Pelos jornais ele ficará sabendo que a pecuária é a maior poluidora do país (embora ele mesmo tenha o sonho de um dia abandonar a cidade poluída e viver no campo por uma qualidade de vida melhor).

Pelos jornais ele tem notícias de invasões de terras, de conflitos agrários, de saques e estradas bloqueadas (o Sr. Oliveira é a favor da reforma agrária, embora repudie a violência).

Pelos jornais ele toma conhecimento de ações do Ministério Público contra empresas do agronegócio (ele não entende que mal há em empresas que ganham dinheiro).

Pelos jornais ele acha que a Amazônia está sendo desmatada por plantadores de soja e criadores de boi...

Mas o Sr. Oliveira pensa que isso não tem nada a ver com ele.

Pois eu gostaria de agarrá-lo pela orelha, e gritar bem alto, de megafone talvez - não um, nem dez, mas mil megafones -, que TUDO ISSO É PROBLEMA DELE SIM!

- Gostaria de lhe dizer que a agropecuária está presente em todos os dias da vida dele.

- Gostaria de lhe dizer que o agronegócio gera um terço do PIB e dos empregos do país.

- Gostaria de lhe dizer que quem diz que a pecuária polui mente descaradamente.

- Gostaria de lhe dizer que o maior desmatador da Amazônia é o INCRA, que com o dinheiro dos impostos dele sustenta assentamentos que não produzem absolutamente nada, condenando uma multidão de miseráveis manipulados por canalhas balizados por uma ideologia assassina à eterna assistência do Estado.

- Gostaria de lhe dizer que estes mesmos canalhas estão tentando, sob a palatável desculpa dos direitos humanos, acabar com o direito de propriedade, arruinando qualquer futuro para o agronegócio brasileiro.

- Gostaria de lhe dizer, que os mesmos canalhas querem fechar índios, que há 5 séculos estão em contato com brancos, em gigantescos zoológicos onde eles estarão condenados à miséria e ao suicídio.

- Gostaria de lhe dizer que os índios são 0,5% da população brasileira e não obstante são donos de 13% do país.

- Gostaria de lhe dizer que querem transformar 2/3 do país em reservas e parques, que estão sendo demarcados sobre importantes reservas minerais e aquíferos subterrâneos essenciais para o futuro do país.

- Gostaria de lhe dizer que a agricultura ocupa apenas 7,5% da superfície do país, e que mesmo assim somos os maiores exportadores do mundo de carne, soja, café, açúcar, suco de laranja e inúmeros outros produtos.

- Gostaria de lhe dizer que podemos dobrar ou triplicar a produção pecuária do país sem derrubar uma árvore sequer.

- Gostaria de lhe dizer que o produtor rural não é a espécie arrogante e retrógrada que os canalhas dizem que são: é gente que está vivendo em lugares onde você não se animaria a viver, transitando por estradas intransitáveis e mortais, acordando nas madrugadas para ver nascer um animal, rezando para chover na hora de plantar e para parar de chover na hora de colher, com um contato e um conhecimento da natureza muito maior do que o seu.

- É gente cujos antepassados foram enviados às fronteiras desse país para garantir que esse território fosse nosso, incentivados a abrir a mata, abrir estradas, plantar e colher, às vezes por causa do governo, às vezes apesar dele.

- Gostaria enfim de gritar a plenos pulmões, que qualquer problema que afete um produtor rural, uma empresa rural, uma agroindústria É UM PROBLEMA DELE, DO PAÍS E DO MUNDO.

- Sim, porque no mesmo jornal que o Sr. Oliveira leu, há uma nota de rodapé que diz que há 1 bilhão de pessoas no mundo passando fome.

- E grito finalmente para o Sr. Oliveira e tantos outros iguais a ele: ABRA OS OLHOS! E desconfie daqueles que querem transformar o agronegócio em uma atividade criminosa.

por Fernando Sampaio (engenheiro Agrônomo)

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Movimentos Sociais pela Terra: A Bandidagem Continua

Representantes da Via Campesina entregaram nesta quinta-feira ao chefe-de-gabinete da Presidência da República, Gilberto Carvalho, um documento com propostas "consideradas estruturantes para o desenvolvimento do campo". Desde ontem, a Via Campesina realiza manifestações em diversos Estados em protesto contra o agronegócio e a atuação de empresas estrangeiras no país.
No documento, os movimentos sociais defendem a criação de uma estatal de fertilizantes e sugerem medidas de estímulo a programas de fomento a agroindústrias para produção de alimentos e agroenergia, reflorestamento e infra-estrutura em assentamentos.
Outra proposta é a ampliação do orçamento do Programa de Aquisição de Alimento para R$ 1 bilhão por ano, a fim de garantir a compra dos produtos da agricultura familiar e da reforma agrária pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento).
"A humanidade vive hoje uma encruzilhada. Só temos uma saída para essa crise [de alimentos], que é a restruturação das comunidades camponesas, dos territórios camponeses e comunidades tradicionais, para que a gente possa, através dos recursos da agrobiodiversidade, da terra, da água, produzir alimentos para este país", disse Maria Costa, representante da direção nacional do MAP (Movimento dos Pequenos Agricultores) e da coordenação da Via Campesina.

Manifestações
A Via Campesina realizou hoje manifestações em sete Estados na jornada de lutas contra o agronegócio e a atuação de empresas estrangeiras no país. Os protestos foram realizados em protestos em Minas Gerais, Rio da Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul, Goiás, Mato Grosso, Pernambuco.
Em Minas Gerais, cerca de 1.500 integrantes Via Campesina ocuparam a ferrovia da Vale em Governador Valadares, para que a mineradora abra negociação com as 500 famílias da comunidade Pedra Corrida, que será desalojada pela barragem de Baguari. Os manifestantes respeitaram decisão da Justiça e saíram da estrada de ferro no final da tarde.
No Rio, cerca de 400 integrantes de movimentos sociais fizeram manifestação na porta da sede da Vale. Eles arremessaram cerca de 200 cascas de bananas contra o prédio da empresa em protesto contra a privatização da mineradora e supostos danos ambientais causados pela Vale ao redor do país.
No Paraná, cerca de 700 manifestantes protestaram em frente a fábrica de fertilizantes Bunge em Araucária, região metropolitana de Curitiba.
No Rio Grande do Sul, cerca de 200 agricultores assentados e acampados marcharam até a Fazenda Tarumã, em Rosário do Sul, para denunciar práticas ilegais da transnacional de celulose Stora Enso.
Em Mato Grosso, cerca de 300 manifestantes realizaram um ato público em Diamantino, no encerramento de uma marcha de 80 Km, que partiu de Nova Marilândia no dia 5.
Em Goiânia (GO), 150 manifestantes protestaram em frente à CELG (Companhia Energética de Goiás) contra o preço da energia.
Em Pernambuco, cerca de 500 trabalhadores rurais e índios Xukuru trancaram a BR-232 e outros 400 pessoas bloquearam a BR-110, que liga os municípios de Inajá e Ibimirim, contra o avanço da monocultura da cana.
Segundo Maria Costa, as atividades de mobilização da Via Campesina deverão continuar nos próximos dias. "Como essa é uma jornada política, ela é permanente. As ações terão continuidade sim, porque não podemos dar trégua. Enfrentamos desafios diários e permanentes", disse.

da Agência Brasil e da Folha On-line


O pretexto é o de menos. O que importa é que, quando quer, onde quer e como quer, a Via Campesina, representada no Brasil principalmente pelo Movimento dos Sem-Terra (MST), investe contra uma coleção de alvos que inclui propriedades rurais, centros de pesquisas agronômicas, canteiros de obras, rodovias, ferrovias, hidrelétricas e ainda indústrias e escritórios. Em resumo, contra a ordem econômica e social, substrato da ordem política, como está definida na Constituição de 1988 - que o partido do presidente da República se recusou a assinar. O mote para a sortida predatória, anteontem, em 13 Estados, foi a alta do preço dos alimentos, provocada pelo suspeito de sempre, o modelo agrícola brasileiro, ultimamente em conluio com o também demonizado cultivo de cana para a produção de etanol.
Os ''campesinos'' têm horror, na realidade, ao mundo contemporâneo. A sua Internacional - diferentemente daquela outra que podia ser acusada de tudo, menos de pregar a desmodernização das ''bases materiais da existência'', como diziam os seus teóricos - persegue uma fantasia insana: a destruição do capitalismo para tornar possível a exumação do modo de organização da economia e da sociedade que precedeu a Revolução Industrial. É a utopia do retrocesso, nostálgica de uma idealizada Idade Média. Não é coincidência, a propósito, a proximidade entre esses novos milenaristas e setores da Igreja Católica praticantes da Teologia da Libertação, que também consideram anátema as transformações tecnológicas e o cosmopolitismo da era da globalização.
Mesmo quando apontam para problemas efetivos, como a disparada dos preços dos alimentos, a Via Campesina e suas extensões nacionais invocam causas falsas e soluções fictícias. E, ainda que se exprimissem por meios civilizados, com eles o debate de quaisquer questões é por definição impossível. Imagine-se, por exemplo, o presidente Lula tentando convencê-los com dados objetivos, como fez na cúpula da FAO em Roma, de que o aumento da área plantada para a obtenção do etanol de cana não tira um hectare de terra destinada ao cultivo de grãos.
Cegos pelo fanatismo e viciados em violência, 200 depredadores invadiram na terça-feira uma estação experimental de cana-de-açúcar mantida pela Universidade Federal Rural de Pernambuco em parceria com o setor sucroalcooleiro, no município de Carpina. Sem nada nem ninguém a impedi-los, destruíram mudas de novas variedades do vegetal e vandalizaram uma área plantada de 100 hectares, alegando que ali poderiam ser assentadas 50 famílias. É de emudecer. O ataque à instalação científica - réplica da destruição de um laboratório da Aracruz, no Rio Grande do Sul, em março de 2006 - fez par com as manifestações em Alagoas, Bahia, Paraná, Tocantins e São Paulo contra... a luz elétrica. De fato, usinas hidrelétricas estão na lista negra dos exércitos do atraso.
No centro da capital paulista, uma turba da Via Campesina e da Assembléia Popular - movimento articulado por setores da Igreja -, com cerca de 400 integrantes, ocupou a sede do Grupo Votorantim para protestar contra a construção da Usina de Tijuco Alto, no Vale do Ribeira. A empresa divulgou uma nota em que diz que sempre esteve aberta ao diálogo ''com todos os setores da sociedade'' e considera ''inaceitável'' a violação das leis vigentes no País. É duplamente patético. Primeiro, porque o termo diálogo não existe no léxico dos violentadores da ordem democrática. Segundo, porque o fato de serem inaceitáveis as suas ações não muda uma vírgula na situação. É clamorosa a liberdade de que eles desfrutam para transgredir. De raro em raro a polícia aparece para contê-los. Foi o que aconteceu anteontem na invasão de uma fábrica da multinacional de alimentos Bunge, no município gaúcho de Passo Fundo.
A rigor, é como se houvesse um acordo tácito entre os agressores e o poder público. Eles podem nutrir delírios medievais, mas parecem ser suficientemente espertos para não extrapolar nas suas incursões, praticando crimes contra a pessoa que levantariam tamanha grita a ponto de obrigar o Estado a acabar com a sua consagrada impunidade.


do Editorial do Estado de São Paulo, em 12/06/2008

terça-feira, 3 de junho de 2008

Quem Apóia os Subsídios Americanos?

Vejam a coincidência: a condenação (mais uma) da Organização Mundial de Comércio aos subsídios concedidos pelos EUA aos seus produtores de algodão sai no exato momento em que entra em vigor a nova Lei Agrícola norte-americana.

E que aumenta os subsídios não apenas para o algodão, mas para vários outros produtos, incluindo trigo, soja e açúcar. São subsídios que distorcem preços e condições do mercado internacional e prejudicam a agricultura dos países mais pobres, conforme têm denunciado os emergentes, Brasil à frente.

A nova lei é uma criação do Partido Democrata, que controla o Congresso dos EUA. O presidente Bush havia vetado a lei, considerando esse apoio aos agricultores "excessivo e caro". Bush propôs, entre outras coisas, que os subsídios fossem pagos apenas a fazendeiros com renda anual inferior a US$ 200 mil.

O Congresso democrata derrubou o veto e a proposta, permitindo que as regras beneficiassem agricultores com renda de até US$ 1,25 milhão.
E sabem quem foi o mais ardoroso defensor da lei?


Barack Obama, que fez o discurso mais populista.

Hillary Clinton também sustentou a legislação.

Quem foi contra?

John McCain, o republicano.

por Carlos Alberto Sardenberg em 02 de Junho de 2008

Ainda o Debate Sobre o Etanol

O tom das declarações sobre as causas da inflação mundial de alimentos começou a preocupar o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon. Em conversa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no fim da tarde de ontem, na embaixada brasileira em Roma, Ki-Moon revelou temor de que a "excessiva politização" das posições apresentadas na cúpula tome lugar das soluções práticas para a crise. Ouviu de Lula que a posição brasileira será "científica", sem paixões e emoções.
Em conversas anteriores, o secretário-geral da ONU já demonstrou simpatia pela posição brasileira e revelou não ser uma visão generalizada do órgão apontar a culpa da inflação de alimentos diretamente para os biocombustíveis, apesar de mais de um relatório ligado às Nações Unidas ter batido na tecla. No entanto, Ki-Moon pretende ver sair desse encontro do Fundo das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO, sigla em inglês) soluções práticas além do tiroteio entre as acusações ao etanol e aos subsídios agrícolas dos países ricos, a posição brasileira.
O governo brasileiro devolve a acusação de politização do debate para os acusadores. "Para nós, excessiva politização são as pessoas que esquecem os subsídios agrícolas e o impacto do preço do petróleo e buscam nos biocombustíveis um fantasma para ser condenado", disse o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, ao fim do encontro entre o presidente e Ban Ki-Moon. "Eu acho que o recado era para outros, os que ficam dizendo que os biocombustíveis causam o aumento de preços."
De acordo com Amorim, o comentário do diretor da ONU sobre politização valeu a resposta mais longa de Lula, que passou a explicar a intenção do governo brasileiro de sediar uma conferência em São Paulo, em novembro, para fazer a discussão "científica" do etanol. "O Brasil nessa questão é parte da solução, não do problema. Não tem que receber recados e lições de ninguém", disse o ministro. "Também o governo do presidente Lula ajudou muito ao assumir a liderança, sem nenhum temor, no combate aos subsídios agrícolas, principal arma de destruição em massa que mais causa fome no mundo."
Em entrevista no dia anterior a jornalistas brasileiros que o acompanham a Roma, o presidente já havia avisado que a defesa do etanol, o fim dos subsídios agrícolas e o preço do petróleo serão seus temas únicos daqui para frente nas relações internacionais - inclusive na reunião do G-8 em julho no Japão, para a qual decidiu ir.
Lula chegou a se definir como "o chato do etanol" e o tom de seu discurso hoje, na abertura da Cúpula da FAO, pretende ser "duro", especialmente no ataque aos preços do petróleo. O presidente chega a falar em "especulação no mercado futuro" do combustível e vai lembrar que, mesmo no Brasil, onde o petróleo representa apenas 46% da matriz energética, a atual cotação do barril, de US$ 145, chega a 30% do custo de produção de alimentos.
No encontro com Ban Ki-Moon, Lula informou extra-oficialmente ao diretor da ONU sobre a decisão do encontro dos países do Sistema para Integração Centro-Americana (Sica), na última semana, em El Salvador, de pedir às Nações Unidas uma reunião para debater o petróleo. De acordo com Celso Amorim, Ki-Moon mostrou interesse na idéia e pode levá-la adiante ainda este ano.
A reunião poderia ser uma tentativa de mudar o foco do ataque dos biocombustíveis para o petróleo, na guerra de acusações que se tornou a tentativa de encontrar a culpa pela inflação dos alimentos. Apesar de hoje praticamente só Brasil e Estados Unidos produzirem etanol - no caso americano, de milho - em escala industrial, boa parte da culpa passou a recair sobre os biocombustíveis desde que os alimentos começaram a subir.
A briga brasileira começou com a acusação de Jean Ziegler, então relator especial da ONU para o Direito à Alimentação, que chegou a classificar a produção de biocombustível como "crime contra a humanidade". Depois, as acusações foram secundadas por integrantes do FMI e repetidas por especialistas e parte da imprensa européia e americana.
A própria FAO aponta, em um de seus documentos, como responsabilidade dos biocombustíveis cerca de 20% da inflação de alimentos, relacionada especialmente com especulações de mercado. Um documento que está sendo preparado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e deve ficar pronto em julho quer colocar o etanol como responsável por 20% a 30% do aumento de preços.
A posição do governo brasileiro é de que as teorias serão difíceis de provar. A briga, no entanto, promete ser longa e solitária.

por Lisandra Paraguassú, no Estado de São Paulo, 03/06/2008


Vamos lá, já falei
aqui sobre o problema do etanol brasileiro e o produzido lá no "império" (como gostam de dizer os esquerdistas): esta crise está ligada diretamente às barreiras protecionistas feitas pelos governos dos outros países produtores de biocombustível - especialmente no caso dos EUA, que produzem etanol a partir do milho.
Lula está certo neste ponto - ou, pelo menos, extremamente bem assessorado - quando diz que os países devem dar fim aos fortes subsídios agrícolas existentes. Tanto que ganhou apoio do diretor-geral do Fundo das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Jacques Diouf, e do diretor-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, na abertura da reunião de Cúpula do órgão, em Roma. Em seu discurso de abertura, Ki-moon pediu o ajuste de tarifas para permitir o livre comércio e uma rápida solução da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC), dizendo que "precisamos agir para uma resistência de longo termo e contribuir para uma segurança alimentar global. Isso significa eliminar taxas de comércio que distorcem os mercados".
Ban Ki-Moon afirmou ainda que "acima de tudo, ninguém pode entender como, primeiro, os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) criaram uma distorção tal no mercado mundial com US$ 372 bilhões gastos em 2006 para apoiar sua agricultura. Depois, que o desperdício de comida em um único país pode chegar a U$ 100 milhões por ano; finalmente, que em 2006 o mundo tenha gasto U$ 1,2 trilhão em compras de armas. Com esse cenário, como podemos explicar para pessoas de bom senso e boa-fé que não é possível encontrar US$ 30 bilhões por ano para permitir que 862 milhões de pessoas famintas possam ter o mais fundamental dos direitos humanos: à comida e, conseqüentemente, à vida ?", criticando explicitamente as políticas protecionaistas dos países desenvolvidos e sustentando as constantes solicitações de ajuda humanitária que têm sido feitas a todos os países desenvolvidos e em desenvolvimento.
É o que sempre digo aqui: os governos que se metem aonde não devem - leia-se aí, o livre mercado, principalmente -, metem os pés pelas mãos! Poucas áreas da economia são mais atingidas por leis protecionistas do que a agricultura - tanto nos países pobres quanto nos ricos.
Quando o governo tenta resolver o problema da fome, como o soviético e o chinês fizeram durante o comunismo, temos a fome de milhões como resultado inevitável. O mercado de produção de alimentos deve ser livre, para que os preços sirvam como instrumento de informação aos agentes, que poderão assim fazer cálculos racionais e atender a demanda. Se há mais demanda por conta do enriquecimento de milhões de chineses e indianos, os preços deverão subir mesmo, para que sirva de alerta aos produtores e os incentive a realizar maiores investimentos produtivos. Isso não ocorre, no entanto, quando os governos usam e abusam de uma panóplia de cotas, subsídios, tarifas e proibições, que tem desencorajado o muito necessário aumento na produção de alimentos e vem distorcendo a formação dos preços.
Neste ponto, faço minhas as palavras de Lula da Silva: "É sacanagem pura, malandragem pura de quem não tem competência para competir com o Brasil".

quarta-feira, 7 de maio de 2008

É Mesmo Muita Sacanagem!

O presidente Lula, em discurso nesta terça-feira, 06/05/2008, se queixou mais uma vez da tese de que o avanço dos biocombustíveis poderá prejudicar a produção de alimentos, dizendo: "É sacanagem pura, malandragem pura de quem não tem competência para competir com o Brasil.", em referência ao etanol de milho, produzido pelos Estados Unidos.

Então, vamos lá! Embora o Brasil, através da figura de nosso presidente, esteja comprando uma briga que talvez não seja de sua alçada, uma vez que muitos estão tentando culpar nossa produção de etanol pela fome crescente no mundo, por conta do aumento do preço dos alimentos, quem está realmente na mira são os Estados Unidos e a União Européia e, assim, precisamos ser justos: o presidente está certo, ao menos desta vez - e o que está certo, tem que ser dito, pois a verdade de nada se envergonha senão de estar oculta - e é mesmo um erro culpar nossa produção de biocombustíveis pela crise de alimentos no mundo.

Nos anos 1830, Richard Cobden e John Bright começaram uma campanha contra as leis protecionistas que estavam mantendo os preços dos alimentos em alta na Grã-Bretanha. Depois de suportarem o abuso por muitos anos, em 1846, eles convenceram o governo a revogar as infames Leis do Milho , uma mudança que ajudou o início de um longa período de prosperidade.

Os preços têm subido com constância nos últimos três anos, mas a questão só estourou neste ano. Desde janeiro, o preço do arroz subiu 141%, enquanto o do trigo quase dobrou em um ano. Num mundo no qual os pobres gastam três quartos do orçamento em comida, isso significa uma potencial situação de vida ou morte para um bilhão de seres humanos que vivem com o equivalente a menos de US$ 1 por dia.

Quando o preço de algo dispara, pode-se inferir que o abastecimento não está acompanhando a demanda. Na seqüência do atual choque dos alimentos, muitas pessoas centraram o foco nas causas do aumento da procura por comida. Todas elas - do crescimento econômico da China e da Índia à explosão dos biocombustíveis derivados de grãos nos países ricos - parecem muito plausíveis. Menos atenção tem sido dada ao motivo pelo qual a produção não está encontrando a demanda (na era da globalização, quando os produtos podem ir mais rápido dos produtores ao mercado, e com os avanços na biotecnologia isto jamais deveria estar ocorrendo).

Essas causas têm pouco a ver com economia ou demografia e tudo a ver com políticas de governo e com quem usa os governos para servir seus interesses - em detrimento daqueles do público geral.

Assim como no passado, esta crise está diretamente ligada às barreiras protecionistas que governos mundo afora criaram, impondo restrições às exportações de alimentos, oferecendo subsídios aos produtores locais ou interferindo de outras maneiras no livre mercado e poucas áreas da economia são mais atingidas por leis protecionistas do que a agricultura - tanto nos países pobres quanto nos ricos.

Quando o governo tenta resolver o problema da fome, como o soviético e o chinês fizeram durante o comunismo, temos a fome de milhões como resultado inevitável. O mercado de produção de alimentos deve ser livre, para que os preços sirvam como instrumento de informação aos agentes, que poderão assim fazer cálculos racionais e atender a demanda. Se há mais demanda por conta do enriquecimento de milhões de chineses e indianos, os preços deverão subir mesmo, para que sirva de alerta aos produtores e os incentive a realizar maiores investimentos produtivos. Isso não ocorre, no entanto, quando os governos usam e abusam de uma panóplia de cotas, subsídios, tarifas e proibições (destinados a conseguir votos e, basicamente, propinas), que tem desencorajado o muito necessário aumento na produção de alimentos e vem distorcendo a formação dos preços.

De acordo com a The Economist, dos 58 países cujas reações à crise têm sido acompanhadas pelo Banco Mundial, 48 impuseram controle de preços, subsídios ao consumidor e restrições a exportação. Um problema criado pelo protecionismo levou a uma resposta ainda mais protecionista na maioria dos países!

Como já disse, em circunstâncias normais de livre mercado, o menor sinal de que os preços estão subindo é suficiente para garantir que um grande capital seja investido na agricultura para a alimentação. Na atual confusão, não é surpresa que os investidores não estejam pondo dinheiro na produção de alimentos: fazendeiros na Europa são pagos para manter suas terras ociosas por causa de um sistema chamado Política Agrícola Comum; fazendeiros na Argentina estão sendo solicitados a abrir mão de 75% de seus ganhos por meio de vários tributos; fazendeiros nos Estados Unidos estão mais interessados em alimentar os veículos utilitários esportivos do que as pessoas porque o Congresso norte-americano determinou uma quintuplicação do uso dos biocombustíveis; e fazendeiros na África não estão fazendo testes como lavouras geneticamente modificadas porque elas são proibidas em muitos desses países que poderiam exportá-las.

O economista britânico e especialista em África Paul Collier escreveu recentemente que "a forma mais realística é copiar o modelo brasileiro de enormes agroempresas tecnologicamente sofisticadas que abastecem o mercado mundial. (...) Para conter a alta nos preços dos alimentos precisamos de mais globalização, não de menos".

Eu acrescentaria que os pequenos agricultores nos países em desenvolvimento também poderiam se unir e criar economias de escala se não estivessem limitados por leis domésticas destinadas a proteger os consumidores e por leis do comércio internacional destinadas a proteger os produtores - e de preferência, sem os abusos feitos pelo braço armado do PT no campo, o MST e congêneres!
A escassez de alimentos é, portanto, um resultado da ausência de livre mercado nesse setor. Nada tem a ver com a competitiva produção brasileira de combustíveis alternativos, que também deve ser deixada sob a responsabilidade do livre mercado, por sinal.

Assim, tudo exposto, sejamos imparciais. Embora nosso presidente faça muita bravata, fale muita bobagem e proteja a qualquer custo os "cumpanhêro" em suas falcatruas, no que diz respeito à crise de alimentos, o presidente está certo: é sacanagem pura usar como bode expiatório o biocombustível brasileiro.

compilado a partir dos artigos de
Rodrigo Constantino e de Alvaro Vargas Llosa