Mostrando postagens com marcador Liberalismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Liberalismo. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Ajudando a Melhorar o País - Prólogo

Depois de muito tempo sem escrever em meu blog, resolvi voltar a postar algumas coisas, porque vejo tudo ir-se sucumbindo cada vez mais rapidamente.

Este post é a introdução de uma série que denominei "Ajudando a Melhorar o País", onde exponho algumas ideias que há muito tenho comigo e que, creio, poderão servir não somente como uma guia para ações que visem realmente melhorar os serviços existentes e vindouros para todos os indivíduos que compõem nossa nação.

Nesta série, irei escrever sobre sociedade, política, economia e tudo aquilo que afeta diariamente a população, bem como tentar propor soluções baseadas em proposições liberais (libertárias). E porque irei usar tais propostas, se tantos e tantos usam o "progressismo" socialista (o que engloba o comunismo, já que aquele parteja este) como base para alcançar uma sociedade mais justa e igualitária?

Falando em termos teóricos mais simples, sem entrar nas complexidades de cada proposição (liberalismo versus socialismo), o socialismo pode ser descrito como uma ideologia que visa levar a uma sociedade regida pelo igualitarismo, onde todos os que trabalham recebem uma remuneração justa e igual de acordo com suas funções, todos têm acesso a serviços básicos de boa qualidade e todos têm uma vida digna e confortável - e que tudo isto só não é possível devido aos maldosos empresários e à burguesia (classe média), que não querem que os pobres progridam e tenham acesso ao que há de melhor.

Já o liberalismo é aquele que defende o mais básico trinômio existente (vida, liberdade e propriedade privada), sem o qual nada é possível ser feito, além de um sistema em que o Estado, que deve ser o menor possível, praticamente se atém como garantidor dos contratos entre os indivíduos, não produz bens ou serviços, não interfere na regulação dos mercados, inclusive do mercado de trabalho, e que, sendo o menor possível, mantém a carga tributária baixa.


Assim, vejam a diferença: enquanto o socialismo é definido por aquilo que ele promete alcançar (praticamente o paraíso na Terra), o liberalismo o é pelas políticas que recomenda! Dificilmente vocês verão um socialista definir sua ideologia como sendo "um sistema político-econômico onde o Estado coordena todos os aspectos da vida dos cidadãos de forma centralizada", o que seria uma contraparte mais correta à proposição liberal, porém muito menos atraente do ponto de vista psicológico. E esta é a tática do impostor!

terça-feira, 10 de julho de 2012

A Volta de Karl Marx, o Cara de Pau

Um leitor chamado Matheus enviou recentemente um comentário no post Karl Marx, o Celerado Cara de Pau em que diz:

Olá José Weiss, achei muito interessante o seu texto e os dados sobre a vida de Karl Marx. Acontece que o "clima" da minha escola é de esquerda, e faz algumas semanas que eu ando lendo Denis Rosenfield, Pondé, J.P.Coutinho etc... Eu vou escrever um artigo sobre o assunto e publicar no jornal da escola. Creio que esses dados sobre Marx são bastante relevantes para a minha pesquisa e ficaria muito agradecido se o senhor postasse a sua fonte aqui,ou me mandasse por email(jacobhorta@gmail.com), para que eu possa usufruir dela e dos dados que você me forneceu.



Desde já agradeço,


Matheus
 
Bem, Matheus, este é o "clima" normal nas nossas escolas. Se você acessar o site Escola sem Partido, verá que este assédio moral feito pelos esquerdistas é a coisa mais comum que existe.
 
Infelizmente, as pessoas não são ensinadas a pensar logicamente; são, apenas, doutrinadas, o máximo possível, nas "filosofias" ditas socialistas - nenhum professor vai expor os alunos às teorias liberais, por exemplo; afinal, estas teorias irão fazê-los começar a pensar por si próprios e, além disto, fazê-los abandonar a massa de manobra que os socialistas precisam para "criar o novo homem para o novo mundo".
 
Para este artigo que eu escrevi, houve diversas fontes, muitas delas totalmente disponíveis na internet. No tocante a'O Capital, uma delas foi o livro Karl Marx and the critical examination of his works de Leslie R. Page, de 1987. Também poderá usar o Marx as politician de David, F. Felix, de 1983.
 
Mas há mais: Marx - e Engels, aquele burguês que o sustentou a vida inteira - eram extremamente racistas.
 
Acho que você poderá escrever um artigo muito interessante, mas será totalmente tachado de "conservador", "reacionário", "burguês", e outras palavras de ordem que eles - os esquerdistas - são ensinados a chamar aqueles que não professam sua ideologia macabra.
 
É interessante ver, ainda, que Hitler não era, como insistem em dizer, "de direita", mas, sim, totalmente esquerdista! Ele, inclusive, dizia-se o verdadeiro socialista.
 
E, mais legal do que isso, é pode mostrar o que as ideias deturpadas de Karl Marx causaram no mundo - e prová-las, além de tudo: quase 100 milhões de mortos nos países onde a ideologia comunista foi implantada. E tudo isto comprovado por documentos e exposto no Livro Negro do Comunismo, sem falar no documentário The Soviet Story de Edvīns Šnore.
 
Hoje, muitas das ideias marxistas persistem. Muito do que os esquerdistas fazem vem das ideias dele, de Lenin, em seu decálogo, e de Gramsci, principalmente. Mas há muitos outros pulhas esquerdistas. Veja que a própria ideia do aquecimento global foi desmascarada recentemente e o chefe da gangue teve que dizer que era uma mentira!
 
Assim, de novo, tente sempre ler os liberais (leia este artigo de Ludwig Von Mises, por exemplo), os recém-convertidos (Pondé, Coutinho, Rosenfeld eram esquerdistas até há pouco) e muitos outros, inclusive os conservadores. Leia os esquerdistas e contraponha com o pensamento liberal: você verá, em detalhes berrantes, o erro desta ideologia assassina.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

É Preciso Saber Viver...

Que Roberto Carlos é um dos maiores gênios do mundo das artes, ninguém ousa duvidar. Bom, na verdade sempre há alguns para pagar de “contestadores” e questionar esse fato universalmente aceito. Gosto, afinal, é igual dedo mindinho: alguns não têm… Mas já divago.

Além de escrever algumas das composições poéticas mais lindas que nos é dado conhecer durante nossa passagem por este vale de lágrimas, o Rei também criou um estilo próprio: você pode até não apreciar a obra dele, mas “imediatamente você vai lembrar” de Roberto Carlos quando vir alguém fazendo aqueles trejeitos.

Missão impossível é apontar aquela que seria a melhor música do Rei. Isso depende do ouvinte, de sua história pessoal, de seus gostos… Pessoalmente, acho “Detalhes” e “Proposta” duas grandiosidades únicas; dois patrimônios da humanidade. Mas não pretendo me atrever a tecer análises acerca da poesia e do lirismo de Roberto Carlos. Pessoas mais gabaritadas que este vosso humilde criado já fizeram isso. Quero aqui propor uma abordagem diversa – que reputo inédita: fazer uma leitura da música “É preciso saber viver” sob o ponto de vista de um liberal.

Sim, vocês leram direito. Serei Virgílio e vocês serão meus Dantes: de braços dados, os conduzirei pelos caminhos do pensamento, revelando o tratado sociológico que o Rei cifrou e cantou naquela música, construindo um verdadeiro libelo sobre as responsabilidades individuais e o sistema de liberdades democráticas. Shall we?

Em “É preciso saber viver”, Roberto Carlos exalta a iniciativa individual, suas conseqüências e as responsabilidades que dela decorrem. O cerne da música, o muro de arrimo da obra como um todo, é o indivíduo em sua particularidade humana. Mas o Rei vai além. Não satisfeito, também refuta com elegante simplicidade – mas com precisão cirúrgica – as diversas distopias coletivistas que tentam, há séculos, subjugar o homem e reduzi-lo a “povo”, “sociedade civil”, “operariado”, e afins.

Ao dizer que “Toda pedra no caminho, você pode retirar”, Roberto lembra a todos que o motor da história humana, longe de ser qualquer espécie de luta de classes, é a ação individual. Em outras palavras, o Rei musicou (e simplificou, é verdade) aquilo que Adam Smith havia dito: é o desejo particular de cada ser humano que conduz à prosperidade coletiva, não a ação de qualquer grupo acéfalo.

Em essência, Roberto nos chama a retirarmos nós mesmos as pedras do nosso caminho, em vez de esperar que algum partido, sindicado, ou governo faça isso por nós. É uma ode ao minimalismo estatal, convocando o ser humano a agir ele mesmo, em primeira pessoa, a fim de solucionar seus problemas. É, enfim, uma releitura do bordão Reaganiano segundo o qual “O governo não é a solução para os nossos problemas. O governo é o problema!”

E se trouxermos a coisa toda prum contexto mais atual? Ora, tudo fica ainda mais claro: numa época de Bolsa-Família, de lei contra o cigarro, lei contra passageiros nas motocicletas, lei determinando o que podemos e o que não podemos comer e beber, lei estabelecendo o que podemos e o que não podermos ver nas televisões, lei determinando como devemos repreender nossos filhos… Enfim, numa época em que o Estado parece intencionado a agir cada vez mais como uma Super Nanny paquidérmica, alimentada por impostos escorchantes, “É preciso saber viver” vem nos lembrar que o caminho correto é justamente aquele que vai de encontro a esse estatismo doentio: você pode resolver seus problemas. Você pode agir. Você sabe o que é melhor para você; para o seu núcleo familiar.

Em outra passagem sobremodo interessante, Roberto nos diz que “se o bem e o mal existem, você pode escolher”. Não se enganem e atentem para o que eu, na condição de portador da única verdade, direi a seguir: trata-se de uma bofetada histórica na sociologia pobrista, que pretende dividir com toda a sociedade o resultado dos males praticados por indivíduos. Explico.

Lembram do sociopata do ônibus 174? Lembram do menor que concorreu para a morte atroz do menino João Hélio? Lembram de Champinha, delinqüente que sequestrou, sodomizou e matou uma jovem, há alguns anos? Lembram, mais recentemente, do maníaco que invadiu uma escola no Rio e atirou contra crianças inocentes? Pois bem, qual o denominador comum entre todos esses casos? Sim, vocês já entenderam onde eu quero chegar: em cada um dos episódios acima ouvimos especialistas os mais diversos nos chamando a “meditar sobre nossa parcela de responsabilidade” naqueles eventos hediondos. Bem, a minha parcela, como indivíduo livre e consciente dos meus atos é exatamente nenhuma.

A teoria de que a sociedade e seu meio são responsáveis pelo surgimento de determinados criminosos, ao lhes negar condições de vida tidas como favoráveis, não apenas é preconceituosa, como empiricamente errada. Trata-se de uma linha de pensamento que não resiste a trinta segundos de embate lógico.

Curioso notar que os advogados da redistribuição social das responsabilidades individuais possuem sempre seus bandidos de estimação. A lógica de que um Champinha não é um psicopata vagabundo merecedor de cadeia, mas “uma vítima das desigualdades e da exclusão, que precisa de apoio”, só vale para infratores pobres. Vai ver o que pensam essas bravos sobre uma Suzane Richtoffen da vida… Duvido que algum deles ache que ela mereça “um abraço, não cadeia” – para usar uma expressão que os estudiosos adoram sacar da algibeira.

Um liberal, por outro lado, não se deixa pautar por semelhantes preconceitos. Ele acha que Suzane e Champinha são iguais perante a lei: dois bandidos frios e perigosos, que precisam ser detidos, punidos e excluídos do convívio social. Um liberal não acha que Suzane é pior porque nasceu rica, nem que Champinha seja uma vítima das desigualdades, que tentava apenas conquistar a parte que lhe cabia neste latifúndio. Um liberal concorda com Roberto Carlos e sabe que bem e mal existem, cabendo a cada um de nós, na condição de indivíduos livres, fazer sua escolha.

“Ah, mas quem vive em situação de risco não tem liberdade de escolha!”, gritariam os progressistas. On the first place, eu queria saber what the fuck quer dizer “situação de risco”, um termo tão usado pela turma do "ê abraço, não dê cadeia" Sério, o que exatamente caracteriza uma “situação de risco”? Em outras palavras, a partir de qual momento um sujeito, por sua condição pessoal, passa a ser considerado – se me permitem a construção – menos imputável do que seus semelhantes? Para mim, que sou branco como um islandês, “situação de risco” é estar sob o sol. Devo concluir que um eventual homicídio cometido no sertão nordestino será, pois, tratado com mais benevolência pela sociologia do pobrismo? Marilena Chaui e Emir Sader vão me oferecer abraços? Francamente…

Não deixa de ser curioso que os entusiastas dessa coletivização das responsabilidades, uma linha de pensamento absurdamente preconceituosa, sejam, justamente, aqueles que se reivindicam progressistas, modernos e tolerantes. Ora, se antes de analisar fatos e condutas individuais é preciso olhar para “contextos sociológicos” e “situações de risco social”, significa que aquelas pessoas inseridas em tais categorias seriam mais propensas a dar um "bypass" nos valores éticos e morais sobre os quais se erigiu a civilização humana, e soltar uns pipocos na cara de todo burguesinho de classe média que se negasse a entregar o iPhone, durante um assalto.

O liberalismo chuta a bunda desse – vá lá… – “pensamento” e prefere dar ouvidos ao Rei Roberto Carlos: as condutas humanas não são nada além do resultado de escolhas individuais: “se o bem e o mal existem, você pode escolher”. Para os liberais, o ser humano não é naturalmente um anjinho de candura, como queria Rousseau, mas alguém dotado de liberdade natural suficiente para decidir ser aquilo que quiser – inclusive um monstro.

Não há, assim, diferença essencial entre uma Suzane e um Champinha: ela escolheu abrir a porta da casa para quem esmagou a cabeça dos seus pais; ele escolheu estuprar e espancar repetidamente uma jovem, para depois matá-la. Repito: eles escolheram! Não há responsabilidade minha, sua, nem de sociedade alguma nessas condutas individuais livres. E as condições sociais discrepantes de cada um? Bem, elas existem e influenciam vários fatores da vida, é inegável. Mas não servem para moldar caráter, ou estabelecer norte moral. Se tivesse nascido em berço de ouro e recebido toda assistência devida, Champinha poderia ter se tornado um médico. Mas continuaria sendo um médico sociopata, à espera do gatilho que acionaria o Mr. Hide escondido dentro dele. Da mesma forma, uma Suzane nascida na favela não seria merecedora de mais ternura ou de menos reprovação: continuaria sendo apenas uma fria e cruel assassina. O bem e o mal existem e eles escolheram.

O que certa sociologia moderna parece não ver, é que negar isso significa admitir, por vias oblíquas, que todo pobre (ou “oprimido”, como eles preferem) seria um bandido em potencial, dada a condição de “exclusão social” – ou “situação de risco” – em que vive. Um liberal não tolera esse preconceito dos “bons moços de esquerda”. Manda Emir Sader e Marilena Chaui aos diabos e fica com Roberto Carlos: as ações que moldam as condutas de vida de cada indivíduo são resultado de escolhas pessoais. E todos podemos, sim, fazê-las. Independentemente da renda per capita, do local de nascimento, ou da qualidade da educação recebida.

Negar isso é fechar os olhos para a realidade e ficar enfurnado numa Matrix sócio-política. Ou, nas palavras do Rei, é viver como “quem espera que a vida seja feita de ilusão”. Roberto Carlos não cometeu esse erro e, assim como os liberais, sabe que “é preciso saber viver”. Como? Bem, não há segredo: o que move a humanidade é a ação humana – não uma sorte de luta de classes destinada a opor coletivismo genéricos. São as escolhas individuais dos homens e mulheres livres, e a certeza de que há sempre que se arcar com as responsabilidades que decorrem delas, que garantem o equilíbrio da vida em sociedade.

Menos Paulo Freire e Leonardo Boff nas escolas e universidades brasileiras. Mais Roberto Carlos!

por Yasha Gallazzi, no Construindo Pensamentos

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

É Possível Fazer Concessões a Ideias Socialistas?

A distinção entre propriedade privada dos meios de produção (economia de mercado ou capitalismo) e propriedade pública dos meios de produção (socialismo, comunismo ou "planejamento central") é bastante nítida. Cada um desses dois sistemas de organização econômica da sociedade pode ser descrito e definido de maneira precisa e sem ambiguidades.

Não podem jamais ser confundidos um com o outro; não podem ser misturados ou combinados; não podem transitar gradualmente de um para o outro; são mutuamente incompatíveis. Um fator de produção ou é de propriedade privada ou pública.

Se, no contexto de um sistema de cooperação social, alguns meios de produção são de propriedade pública, enquanto os demais são controlados por entidades privadas, isto não configura um sistema misto combinando socialismo e propriedade privada. O sistema continuará sendo uma sociedade de mercado desde que o setor socializado não se tornar inteiramente separado do setor não socializado, passando a ter uma existência estritamente autárquica. (Neste último caso, estaríamos diante de dois sistemas que coexistem independentemente lado a lado — um capitalista e outro socialista).

Empresas estatais funcionando em um sistema no qual existam empresas privadas e um mercado — assim como países socialistas que trocam bens e serviços com países não socialistas — estão integradas em um sistema de economia de mercado. Estão sujeitas às leis do mercado e têm a possibilidade de recorrer ao cálculo econômico.

Se quisermos considerar a ideia de colocar lado a lado a estes dois sistemas, ou entre eles, um terceiro sistema de cooperação humana baseado na divisão do trabalho, teremos necessariamente de partir da noção de economia de mercado e não da noção de socialismo. A noção de socialismo, com seu monismo e centralismo rígidos, em que uma só vontade tem o poder de escolher e agir, não dá margem a qualquer tipo de acordo ou concessão; não é um sistema passível de ajustes ou alterações.

Mas o mesmo não ocorre em relação à economia de mercado. Neste sistema, a coexistência do mercado com o poder de coerção e compulsão do governo dá margem a diversas possibilidades. Seria realmente necessário ou conveniente, perguntam-se as pessoas, que o governo se mantenha fora do mercado? Não seria uma tarefa do governo interferir e corrigir o funcionamento do mercado? Será que não há uma terceira alternativa entre capitalismo e socialismo? Será que não existem outros sistemas viáveis de organização social que não sejam nem o comunismo e nem a pura economia de mercado?

Em resposta a essas questões já foram arquitetadas várias soluções — também chamadas de terceira via — que, segundo os seus criadores, estariam tão distantes do socialismo como do capitalismo. Alegam esses autores que tais sistemas não são socialistas porque preservam a propriedade privada dos meios de produção, e não são capitalistas porque eliminam as "deficiências" da economia de mercado.

Um tratamento científico dessa questão deve necessariamente ser neutro em relação a quaisquer julgamentos de valor — e, portanto, não pode condenar de antemão nenhum aspecto do capitalismo como sendo prejudicial, defeituoso ou injusto. Consequentemente, não faz sentido recomendar, em bases puramente emocionais, o intervencionismo. Cabe à ciência econômica analisar essas questões e buscar a verdade; não pode ser invocada para louvar ou condenar a realidade a partir de postulados preconcebidos e de preconceitos. Em relação ao intervencionismo, cabe à ciência econômica apenas perguntar e responder: como é que funciona?

O intervencionismo
Existem duas maneiras de se chegar ao socialismo:

A primeira (podemos denominá-la de modelo leninista ou russo) é puramente burocrática. Todas as fábricas, lojas e fazendas são formalmente estatizadas; passam a ser departamentos do governo dirigidos por funcionários públicos. Cada unidade do aparato de produção mantém com o órgão superior central a mesma relação que uma agência local dos correios mantém com a central dos Correios [Nota: este é o modelo utilizado até hoje em Cuba].

A segunda maneira (podemos denominá-la de modelo alemão ou de Hindenburg) preserva nominal e aparentemente a propriedade privada dos meios de produção, fazendo parecer que continuam a existir mercados, preços, salários e juros. Entretanto, já não existem empreendedores, mas apenas gerentes de empresas (Betriebsführer na terminologia nazista).
 Esses gerentes de empresa parecem estar efetivamente no comando das empresas que lhes foram confiadas; compram e vendem, contratam e dispensam trabalhadores, fixam remunerações, contraem dívidas, pagam juros e amortizam empréstimos. Mas, ao exercer a sua atividade, são obrigados a obedecer incondicionalmente às ordens emitidas pela agência central do governo encarregada de dirigir a produção.

Essa agência (a Reichswirtschaftsministerium na Alemanha nazista) instrui os gerentes das empresas sobre o que e como produzir, de quem comprar e a que preços, e a quem vender e a que preços. Especifica o emprego de cada trabalhador e fixa o seu salário. Decreta a quem, e em que termos, os capitalistas devem confiar os seus fundos. Em tais circunstâncias, as trocas de mercado tornam-se meramente uma farsa. Os salários, preços e juros são fixados pelo governo; são salários, preços e taxas de juros apenas na aparência; na realidade, são meramente as expressões quantitativas das ordens do governo, as quais determinam o emprego, a renda, o consumo e o padrão de vida de cada cidadão.

O governo de fato dirige toda a atividade econômica. Os gerentes das empresas obedecem às ordens do governo e não à demanda dos consumidores e à estrutura de preços do mercado. Isso é socialismo, só que disfarçado pelo uso da terminologia capitalista. Alguns rótulos da economia de mercado capitalista são mantidos, mas com um significado inteiramente diferente do que têm na economia de mercado.

É necessário salientar este fato a fim de evitar que se confunda socialismo com intervencionismo. O intervencionismo - ou a economia de mercado obstruída - difere do modelo alemão de socialismo pelo simples fato de ainda ser uma economia de mercado. As autoridades interferem no funcionamento da economia de mercado, mas não desejam eliminá-la completamente. Querem que a produção e o consumo sigam caminhos diferentes dos que seguiriam se não houvesse as obstruções, e querem atingir esse objetivo por meio de ordens, comandos e proibições, para cujo cumprimento contam com o respaldo do seu poder policial e de seu correspondente aparato de compulsão e coerção.

Tais medidas, entretanto, são atos isolados de intervenção. Não pretendem as autoridades integrá-las a um sistema que determinaria todos os preços, salários e taxas de juros, colocando em suas mãos o controle absoluto da produção e do consumo.

O sistema de economia de mercado obstruída, ou intervencionismo, procura preservar o dualismo de duas distintas esferas: a atividade do governo de um lado e a liberdade econômica do sistema de mercado de outro. O que caracteriza o intervencionismo é o fato de que o governo não limita suas atividades à preservação da propriedade privada dos meios de produção e à proteção contra as tentativas de violência ou fraude; o governo interfere na atividade econômica através de ordens e proibições.

A intervenção é sempre um decreto emitido, direta ou indiretamente, pela autoridade responsável pelo aparato administrativo de coerção e compulsão que força os empreendedores e os capitalistas a empregarem alguns dos fatores de produção de maneira diferente daquela que o fariam se estivessem obedecendo apenas aos ditames do mercado. Tal decreto pode ser uma ordem para fazer ou para deixar de fazer alguma coisa.

Não é necessário que o decreto seja emitido diretamente pelo poder legitimamente constituído e estabelecido. Pode ocorrer que algumas outras agências se arroguem o direito de emitir tais ordens ou proibições, e as imponham por meio do seu próprio aparato de coerção e opressão. Se o governo legalmente constituído tolera esse procedimento ou até mesmo o apoia por meio de seu aparato policial, as coisas se passam como se a ordem fosse do próprio governo. Se o governo se opõe à ação violenta dessas outras agências, e, embora o desejando, não consegue evitá-las nem com o emprego de suas forças armadas, advém a anarquia.

É importante lembrar que intervenção do governo significa sempre ou ação violenta ou ameaça de ação violenta. Os fundos gastos pelo governo em qualquer de suas atividades são obtidos por meio de impostos. E os impostos são pagos porque os contribuintes não se atrevem a desobedecer aos agentes do governo; eles sabem que qualquer desobediência ou resistência seria inútil. Enquanto perdurar esse estado de coisas, o governo tem a possibilidade de arrecadar tanto quanto queira para suas despesas.

Governo é, em última instância, o emprego de homens armados, de policiais, guardas, soldados e carrascos. A característica essencial do governo é a de impingir os seus decretos por meio do espancamento, do encarceramento e do assassinato. Quem pede maior intervenção estatal está, em última análise, pedindo mais coerção e menos liberdade.

 por Ludwig von Mises

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Os Fundamentos Econômicos da Liberdade

Os animais são guiados por desejos instintivos. São seres que se entregam a qualquer que seja o impulso prevalecente em dado momento, impulso esse que clama categoricamente por sua satisfação. Os animais são simples marionetes de seu próprio apetite.

Já a superioridade do homem pode ser comprovada no fato de ele ter a capacidade de escolher entre alternativas. Ele regula seu comportamento deliberadamente. Ele pode controlar seus impulsos e desejos; ele tem o poder de suprimir aqueles desejos cuja satisfação o forçaria a renunciar à realização de outros objetivos mais importantes. Em resumo: o homem age; ele propositalmente concentra esforços para atingir os fins por ele escolhidos. É isso que temos em mente ao declararmos que o homem é um ser moral, responsável por sua conduta.

A liberdade como um postulado da moralidade
Todos os ensinamentos e preceitos da ética - sejam eles baseados em um credo religioso ou em uma doutrina secular como a dos filósofos estóicos - pressupõem essa autonomia moral do indivíduo e, portanto, apelam à sua consciência. Esses ensinamentos pressupõem que o indivíduo é livre para escolher entre vários modos de conduta e requerem que ele se comporte em conformidade com regras definidas, as regras da moralidade. Ou seja: que ele faça as coisas certas e se afaste das erradas.

É óbvio que as exortações e as repreensões da moralidade somente fazem sentido quando voltadas para indivíduos que são agentes livres. Elas são totalmente vãs quando direcionadas para escravos. É inútil dizer a um escravo o que é moralmente bom e o que é moralmente ruim. Ele não é livre para determinar seu comportamento; ele é forçado a obedecer às ordens de seu mestre. É difícil culpá-lo se ele prefere se entregar aos comandos de seu mestre ao invés de desobedecê-lo, quando se sabe que a desobediência significará a mais cruel punição não só para ele, mas também para os membros de sua família.

É por isso que a liberdade não é apenas um postulado político; ela é um postulado de toda a moralidade, seja ela religiosa ou secular.

A luta pela liberdade
Entretanto, durante milhares de anos uma parte considerável da humanidade esteve inteiramente, ou ao menos em muitos aspectos, privada da faculdade de escolher entre o que era certo e o que era errado. Na sociedade daquela época, a liberdade para agir de acordo com sua própria escolha era - para as camadas mais baixas da sociedade, a grande maioria da população - restringida seriamente por um rígido sistema de controles. Uma formulação abertamente franca desse princípio foi o estatuto do Sacro Império Romano-Germânico, que conferia aos príncipes e condes do Reich (Império) o poder e o direito de determinar a fidelidade religiosa de seus súditos.

Os orientais docilmente se sujeitaram a essa situação. Mas os povos cristãos da Europa e seus descendentes que se estabeleceram em territórios além-mar nunca se cansaram de batalhar pela liberdade. Passo a passo eles aboliram todos os privilégios de casta e todas as desvantagens de determinadas posições sociais até que finalmente tiveram êxito na criação de um sistema. E esse sistema é aquele que os arautos do totalitarismo tentam difamar pela alcunha de sistema burguês.

A supremacia dos consumidores
A fundação econômica desse sistema burguês é a economia de mercado, na qual o consumidor é o soberano. O consumidor - ou seja, toda a população - determina, através do ato de comprar e o de não comprar, o que deve ser produzido, em qual quantidade e com que qualidade. Os empresários são forçados, por meio do instrumental de lucros e prejuízos, a obedecer às ordens dos consumidores. Somente irão prosperar aquelas empresas que fornecerem, da melhor e mais barata maneira, as mercadorias e serviços que os compradores estão mais ansiosos para obter. Aqueles que fracassarem em satisfazer o público sofrerão prejuízos e finalmente serão forçados a abandonar os negócios.

Nas eras pré-capitalistas, os ricos eram aqueles proprietários dos grandes terrenos e imóveis. Eles e seus ancestrais adquiriram sua propriedade, os feudos, como presente dado pelos soberanos que - com sua ajuda - conquistaram territórios e subjugaram seus habitantes. Esses aristocráticos proprietários de terras eram verdadeiros lordes, pois não estavam sob o jugo do público consumidor. Por outro lado, os ricos de uma sociedade industrial capitalista estão sempre sujeitos à supremacia do mercado. Eles adquirem sua riqueza ao servir os consumidores de uma forma melhor e mais eficiente do que outras pessoas, e perdem sua riqueza quando essas outras pessoas satisfazem os desejos dos consumidores de uma forma melhor e mais barata do que eles.

Em uma economia de livre mercado, os donos do capital são forçados investi-lo naquelas linhas que melhor irão servir o público. Assim, a propriedade dos bens de capital é algo que se transfere continuamente para as mãos daqueles que mais têm êxito em servir aos consumidores. Nesse sentido, é a economia de mercado baseada na propriedade privada que representa o verdadeiro serviço público: é ela que impõe aos proprietários a responsabilidade de empregar seu capital no melhor dos interesses dos consumidores soberanos. É a isso que os economistas se referem quando eles dizem que a economia de mercado é uma democracia na qual cada centavo dá direito a voto.

Os aspectos políticos da liberdade
O governo representativo é o corolário político da economia de mercado. O mesmo movimento espiritual que criou o capitalismo moderno substituiu o domínio autoritário dos reis absolutistas e das aristocracias hereditárias pelo sistema de representantes democraticamente eleitos.[1] Foi esse tão menosprezado liberalismo burguês que trouxe a liberdade de escolhas, de pensamento, de expressão e de imprensa, e pôs fim à intolerante perseguição de dissidentes.

Um país livre é aquele em que cada indivíduo tem a liberdade de moldar sua vida de acordo com seus próprios planos. Ele é livre para concorrer no mercado em busca dos empregos mais desejáveis e, no cenário político, dos cargos mais altos. A sua dependência em relação a favores alheios não é maior do que a dependência dos outros em relação a ele. Se ele quiser ter êxito no mercado, terá de satisfazer os consumidores; se quiser ter êxito na vida política, terá de satisfazer os eleitores.

Esse sistema trouxe aos países capitalistas da Europa Ocidental, América do Norte e Austrália um aumento demográfico sem precedentes e o mais alto padrão de vida jamais visto na história. O cidadão médio, sobre o qual tanto se fala, tem hoje à sua disposição amenidades e confortos com os quais os homens mais ricos das eras pré-capitalistas sequer sonhavam. Ele tem o privilégio de poder desfrutar das conquistas espirituais e intelectuais da ciência, da poesia e da arte, coisa que, no passado, eram acessíveis apenas a uma pequena elite de pessoas abastadas. E ele é livre para adorar e cultuar os símbolos religiosos que bem quiser.

A distorção socialista da economia de mercado
Todos os fatos a respeito da operação do sistema capitalista foram deturpados e distorcidos por políticos e escritores contrários à escola de pensamento que, no século XIX, esmagou o domínio arbitrário de monarcas e aristocratas e pavimentou o caminho para o livre comércio e a livre empresa. Essa escola chama-se liberalismo.

Do ponto de vista desses defensores do retorno ao despotismo, todos os males que atormentam a humanidade se devem às sinistras maquinações feitas pelas grandes empresas. O que é necessário fazer para levar riqueza e felicidade para todas as pessoas decentes é colocar as corporações sob estrito controle governamental. Eles admitem, ainda que bem indiretamente, que isso significa a adoção do socialismo, o sistema vigente na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Mas eles declaram que o socialismo será algo inteiramente diferente nos países da civilização Ocidental em relação àquilo que é na Rússia. E ademais, dizem eles, não há outra maneira de despojar as gigantescas corporações do enorme poder que elas adquiriram e impedir que elas sigam prejudicando os interesses populares.

Contra toda essa propaganda fanática, torna-se necessário enfatizar repetidas vezes a verdade: foram as grandes empresas que tornaram possível a melhora sem precedentes do padrão de vida das massas. Para um relativamente pequeno número de abastados, bens de luxo podem ser produzidos por empresas de pequeno porte. Mas o princípio fundamental do capitalismo é produzir para satisfazer as necessidades e desejos da maioria. As mesmas pessoas que estão empregadas nas grandes corporações são as consumidoras principais dos bens produzidos. Se você olhar ao redor das casas das famílias de classe-média, entenderá o que estou dizendo. São as grandes empresas que tornaram todas as conquistas da tecnologia moderna acessíveis ao homem comum. Todas as pessoas são beneficiadas pela alta produtividade da produção em larga escala.

É tolice falar sobre o "poder" das grandes empresas. A marca intrínseca do capitalismo é que o poder supremo em todas as questões econômicas é conferido aos consumidores. Todas as grandes empresas tiveram um começo modesto e se tornaram grandes justamente porque o apoio dado pelos consumidores as fez crescer. Seria impossível que pequenas e médias empresas criassem os mesmos produtos dos quais, hoje, nenhum cidadão médio consegue abrir mão. Quanto maior é uma corporação, mais ela depende da prontidão do consumidor para comprar suas mercadorias. Foram os desejos - ou, dizem alguns, a tolice - dos consumidores que levaram a indústria automotiva a produzir carros cada vez maiores para, logo depois, forçá-las a fabricar novamente carros menores. Redes de lojas e lojas de departamento necessitam ajustar diariamente suas operações para poder satisfazer as mudanças de desejos de seus clientes. A lei fundamental do mercado é: quem manda é o consumidor.

Qualquer um que critique a conduta dos negócios feitos no mercado e tenha a pretensão de saber métodos melhores para a provisão dos consumidores não passa de um tagarela desocupado. Se ele acha que seus esquemas são melhores, então por que ele próprio não os aplica? Sempre haverá capitalistas à procura de um investimento lucrativo para seus fundos. Estes se mostrarão dispostos a fornecer ao tagarela o capital necessário para qualquer inovação sensata. E o público sempre estará ávido para comprar o que for melhor, ou mais barato, ou que for simultaneamente melhor e mais barato. O que vale no mercado não são devaneios fantásticos, mas, sim, ação. Não foi o falatório que enriqueceu os "magnatas", mas o serviço prestado aos consumidores.[2]

O acúmulo de capital beneficia a todos
Virou moda hoje em dia ignorar silenciosamente o fato de que toda e qualquer melhoria econômica depende da poupança e do acúmulo de capital. Nenhuma das maravilhosas conquistas da ciência e da tecnologia poderia ter sido posta em prática se o capital requerido não tivesse sido previamente disponibilizado. O que impede que as nações economicamente atrasadas façam uso pleno dos métodos ocidentais de produção - inação essa que mantém empobrecida sua população - não é a infamiliaridade com os ensinamentos tecnológicos, mas sua insuficiência de capital. Trata-se de uma avaliação seriamente incorreta dizer que os problemas enfrentados pelos países desenvolvidos se devem à sua falta de conhecimento técnico, o chamado "know how". Seus empresários e seus engenheiros, grande parte deles graduados nas melhores universidades dos EUA e da Europa, estão bem familiarizados com o estado da atual ciência aplicada. O que amarra suas mãos é a escassez de capital.

Cem anos atrás os EUA eram ainda mais pobres do que essas nações atrasadas. O que fez com que os EUA se tornassem o país mais afluente do mundo foi o fato de que o "individualismo vigoroso" dos anos anteriores ao New Deal não colocou obstáculos muito pesados no caminho dos homens empreendedores. Os empresários desse país enriqueceram porque reinvestiram a maior parte dos seus lucros em seus negócios, e consumiram apenas uma pequena parte deles em proveito próprio. Assim, eles enriqueceram não apenas eles próprios mas também todas as outras pessoas. Foi essa acumulação de capital que elevou a produtividade marginal do trabalho e, consequentemente, os salários.

No capitalismo genuíno, a cobiça de um empreendedor individual beneficia não apenas ele próprio, mas também todas as outras pessoas. Há uma relação recíproca entre sua aquisição de riqueza - seja por meio dos serviços prestados aos consumidores, seja por sua acumulação de capital - e a melhora do padrão de vida dos assalariados que formam o grosso dos consumidores. As "massas" - tanto na sua condição de assalariados, como na de consumidores - estão interessadas é na florescência dos negócios. É isso que os antigos liberais tinham em mente quando declararam que, na economia de mercado, prevalece uma harmonia dos verdadeiros interesses de todos os grupos da população.

O bem-estar econômico ameaçado pelo estatismo
Foi na atmosfera mental e moral desse sistema capitalista que o cidadão americano enriqueceu. Ainda existem em algumas partes dos EUA condições que aparentam ser, para os prósperos habitantes dos avançados distritos do país, que são a maioria, altamente insatisfatórias. Mas o rápido progresso da industrialização já teria há muito acabado com esses bolsões de atraso não fossem as infelizes políticas do New Deal, que reduziram bruscamente a acumulação de capital - essa insubstituível ferramenta para o melhoramento econômico.

Acostumado às condições de um ambiente capitalista, o americano médio já toma como certo que a cada ano o mercado irá criar algo novo e mais acessível pra ele. Olhando para trás, relembrando seu próprio passado, ele percebe que muitos objetos que lhe eram totalmente desconhecidos nos dias de sua juventude, bem como muitos outros que àquela época só podiam ser desfrutados por uma minoria ínfima, já são hoje o equipamento padrão de quase todas as famílias. Ele está totalmente confiante que essa tendência vai continuar no futuro. Ele simplesmente chama isso de "o estilo americano de vida", e não pára muito para pensar no que tornou possível essa contínua melhora na oferta de bens materiais. Ele não está devidamente preocupado com o avanço de alguns fatores destinados não apenas a impedir uma ulterior acumulação de capital, mas que podem muito brevemente levar a uma desacumulação de capital. Ele não se opõe às forças que - ao aumentar estupidamente o gasto público, ao reduzir a acumulação de capital, ao consumir partes do capital investido nos negócios e, em última instância, ao inflacionar a oferta monetária - estão enfraquecendo as genuínas fundações de seu bem-estar material. Ele não está preocupado com o crescimento do estatismo, um sistema que, onde quer que foi aplicado, sempre resultou na produção e na preservação de condições que, a seus olhos, seriam horripilantemente miseráveis.

Não há liberdade pessoal sem liberdade econômica
Infelizmente, muitos de nossos contemporâneos são incapazes de perceber quais seriam as conseqüências de uma mudança radical nas condições morais do homem, da ascensão do estatismo e da substituição da economia de mercado pela onipotência do estado. Eles são iludidos pela idéia de que prevalece um dualismo bem definido nas relações do homem. Eles crêem que é possível separar, de um lado, toda a esfera das atividades econômicas e, de outro, toda a esfera das atividades consideradas não econômicas. E entre essas duas esferas, crêem eles, não há qualquer conexão. A liberdade que o socialismo abole é "apenas" a liberdade econômica, enquanto que a liberdade em todas as outras questões permanece intocada.

Entretanto, essas duas esferas não são independentes uma da outra, como assume essa doutrina. Os seres humanos não flutuam em regiões etéreas. Tudo o que um homem faz tem necessariamente que, de uma maneira ou de outra, afetar a esfera econômica ou material - o que requer que ele interfira nessa esfera. Para poder continuar existindo, ele precisa laborar arduamente e lidar com alguns bens tangíveis.

A confusão está explícita na idéia popular de que o que ocorre no mercado refere-se apenas ao lado econômico da vida e da ação humana. Mas, na verdade, os preços de mercado refletem não apenas "interesses materiais" - como conseguir comida, abrigo ou outras amenidades -, mas refletem também aqueles interesses que são costumeiramente chamados de espirituais, nobres, superiores. Por exemplo: o cumprimento ou o não cumprimento de mandamentos religiosos - se abster de certas atividades completamente ou em dias específicos, assistir os necessitados, construir e manter casas de culto religioso, e muitos outros - é um dos fatores que determinam a oferta e a demanda de vários bens de consumo, o que necessita de preços - como sinalizadores de mercado -, que por sua vez necessitam da conduta dos negócios no mercado. Assim, a liberdade que a economia de mercado garante ao indivíduo não é meramente "econômica"; ela se estende para todas as outras áreas. Ela não se distingue de qualquer outro tipo de liberdade. Ela também implica na liberdade de determinar todas as outras questões que são consideradas morais, espirituais e intelectuais.

Ao controlar absolutamente todos os fatores de produção, o regime socialista controla também a vida de cada indivíduo. O governo determina para cada indivíduo um emprego específico. Ele determina quais livros e jornais devem ser impressos e lidos, quem deve gozar da oportunidade de poder escrever, quem pode ter o direito de usar as salas de montagem para transmitir e usar todos os outros instrumentos de comunicação. Isso significa que aqueles no controle da conduta suprema dos assuntos do governo determinam, em última instância, quais idéias, ensinamentos e doutrinas podem ser propagados, e quais não. O que quer que uma constituição escrita e promulgada possa dizer sobre a liberdade de escolha, de pensamento, de expressão e de imprensa, bem como sobre a neutralidade em questões religiosas, em um país socialista se torna letra morta caso o governo confisque os meios materiais que possibilitam o exercício desses direitos. Aquele que monopoliza todos os meios de comunicação tem o total poder de manter uma mão firme sobre as mentes e as almas dos indivíduos.

O que torna muitas pessoas cegas às características essenciais de qualquer sistema socialista ou totalitário é a ilusão de que esse sistema será conduzido precisamente da maneira que elas próprias consideram desejável. Ao apoiar o socialismo, eles tomam como certo que o "estado" irá sempre fazer aquilo que elas querem que ele faça. Apenas aquele tipo de totalitarismo em que os regentes acatam suas idéias é que é chamado de socialismo "verdadeiro", "real" ou "bom". Todos os outros tipos são denunciados como falsificados. O que elas esperam em primeiro lugar é que o ditador suprima todas aquelas idéias com as quais elas discordam. De fato, todos esses apoiadores do socialismo sofrem, sem que percebam, desse complexo ditatorial ou autoritário. Elas querem que todas as opiniões e planos com os quais discordam sejam esmagados por uma ação violenta da parte do governo.

O significado do direito efetivo de dissentir
Os vários grupos que advogam o socialismo - não interessa se eles se chamam a si próprios de comunistas, socialistas ou reformadores sociais - concordam com seu programa econômico essencial. Todos eles querem substituir a economia de mercado e a supremacia dos consumidores individuais pelo controle estatal - ou, como alguns deles preferem dizer, controle social - das atividades produtivas. O que separa alguns grupos de outros não são questões de gerenciamento econômico, mas convicções religiosas e ideológicas. Existem socialistas cristãos - católicos, protestantes e outras denominações - e existem socialistas ateus. Cada uma dessas variedades toma por garantido que a futura nação socialista será guiada, no caso dos religiosos, pelos mesmos preceitos da sua fé, ou, no caso dos ateus, pela rejeição de qualquer credo religioso. Eles nunca pensam na possibilidade de que o regime socialista possa vir a ser dirigido por homens hostis à sua fé e aos seus princípios morais. Homens que podem considerar como sua tarefa principal utilizar todo o enorme poder do aparato socialista para suprimir aquilo que, do seu ponto de vista, é um erro, uma superstição, ou uma idolatria.

A simples verdade é que apenas onde há independência econômica em relação ao governo os indivíduos podem ser livres para escolher entre o que consideram certo ou errado. Um governo socialista tem o poder de tornar qualquer discordância impossível, discriminando contra grupos religiosos e ideológicos não desejados e negando a eles todos os instrumentos materiais necessários para a propagação e a prática de suas convicções. O sistema de partido único, o princípio político da regra socialista, significa também um sistema de religião e moralidade única. Um governo socialista tem à sua disposição meios que podem ser usados para a obtenção de uma rigorosa conformidade para com todos os aspectos; Gleichschaltung (conformidade política), como os nazistas chamavam. Os historiadores já mostraram o papel importante que a imprensa teve durante a Reforma. Quais seriam as chances dos reformadores se toda a imprensa estivesse sendo operada pelos governos liderados por Carlos V, da Alemanha, e pela Casa de Valois, da França?[3] E, por falar nisso, quais seriam as chances de Marx em um sistema no qual todos os meios de comunicação estivessem nas mãos dos governos?

Qualquer um que queira liberdade de idéias tem de abominar o socialismo. É claro, a liberdade permite ao homem fazer não apenas coisas boas, mas também coisas erradas. Mas nenhum valor moral pode ser atribuído a uma ação - por melhor que ela seja - que tenha sido feita sob a pressão de um governo onipotente.

por Ludwig von Mises (1881-1973)

[1] Apesar de Mises ter sido, na época, um entusiasta da democracia, isso não significa que todo o movimento austríaco atual apóie essa idéia. Com o passar do tempo, a democracia foi corrompida a tal ponto que, hoje, se tornou difícil distingui-la de outras formas de totalitarismo, conquanto mais branda. Leia o artigo de Hans-Hermann Hoppe, Democracia - o deus que falhou. [N. do T.]

[2] No Brasil, infelizmente, criou-se uma maneira fácil, rápida e imoral de enriquecimento: o serviço público. Nele, não há cobranças, não há riscos e não há - ao contrário do mercado - como levar incompetentes à falência. E o que é ainda pior: todos os proventos de seus membros advêm do roubo, pura e simplesmente.[N. do T.]

[3] Carlos V, da Alemanha (1500-1558), um católico devoto, oprimiu heresias religiosas nos Países Baixos e lutou para suprimir o luteranismo nos principados alemães. Durante o reinado dos reis Valois da França (1328-1589), guerras religiosas eclodiram, uma vez que os protestantes franceses, incluindo os huguenotes, lutavam pela liberdade de culto.

A Oligarquia de Esquerda

Você acredita em justiça social? Tenho minhas dúvidas. Engasgou? Como pode alguém não crer em justiça social? Calma, já explico. Quem em sã consciência seria contra uma vida “menos ruim”? Não eu. Mas cuidado: o jargão “por uma sociedade mais justa” pode ser falado pelo pior dos canalhas. Assim como dizer “vou fazer mais escolas”, dizer “sou por uma sociedade mais justa” pode ser golpe.

Aliás, que invasão de privacidade é essa propaganda política gratuita na mídia, não? O desgraçado comum, indo pro trabalho no trânsito, querendo um pouco de música pra aliviar seu dia a dia, é obrigado a ouvir a palhaçada sem graça dos candidatos. Ou o blablablá compenetrado de quem se acha sério e acredita que sou obrigado a ouvi-lo.

Mas voltando à justiça social, proponho a leitura do filósofo escocês David Hume (século 18), “An Enquiry Concerning the Principles of Morals, Section III”. Cético e irônico, Hume foi um dos maiores filósofos modernos. É conhecida sua ironia para com a ideia de justiça social. Ele a comparava aos delírios dos cristãos puritanos de sua época em busca de uma vida pura. Para Hume, os defensores de um “critério racional” de justiça social eram tão fanáticos quanto os fanáticos da fé.

Sua crítica visava a possibilidade de nós termos critérios claros do que seria justo socialmente. Mas ele também duvidava de quem estabeleceria essa justiça “criteriosa” e de como se estabeleceria esse paraíso de justiça social no mundo. Se você falar em educação e saúde, é fácil, mas e quando vamos além disso no “projeto de justiça social”? Aqui é que a coisa pega.

Mas antes da pergunta “o que é justiça social?”, podemos perguntar quem seriam “os paladinos da justiça social”. Seria gente honesta? Ou aproveitadores do patrimônio dos outros e da “matéria bruta da infelicidade humana”, ansiosos por fazer seus próprios patrimônios à custa do roubo do fruto do trabalho alheio “em nome da justiça social”? Humm…

A semelhança dos hipócritas da fé que falavam em nome da justiça divina para roubar sua alma, esses hipócritas falariam em nome da justiça social para roubar você. Ambas abstratas e inefáveis, por isso mesmo excelentes ferramentas para aproveitadores e mentirosos, as justiças divina e social seriam armas poderosas de retórica autoritária e mau-caráter.

Suspeito de que se Hume vivesse hoje entre nós, faria críticas semelhantes à oligarquia de esquerda que se apoderou da máquina do governo brasileiro manipulando uma linguagem de “justiça social”: controle da mídia, das escolas, dos direitos autorais, das opiniões, da distribuição de vagas nas universidades, tudo em nome da “justiça social”. Ataca-se assim, o coração da vida inteligente: o pensamento e suas formas materiais de produção e distribuição.

A tendência autoritária da política nacional espanta as almas menos cegas ou menos hipócritas. A oligarquia de esquerda associa as práticas das velhas oligarquias ao maior estelionato da história política moderna: a ideia de fazer justiça social a custa do trabalho (econômico e intelectual) alheio.

Outro filósofo britânico, Locke (século 17), chamava a atenção para o fato de que sem propriedade privada não haveria qualquer liberdade possível no mundo porque liberdade, quando arrancada de sua raiz concreta, a propriedade privada (isto é, o fruto do seu esforço pessoal e livre e que ninguém pode tomar), seria irreal.

Instalando-se num ambiente antes ocupado pela oligarquia nordestina, brutal e coronelista, e sua aliada, a chique oligarquia industrial paulista, os “paladinos da justiça social” se apoderam dos mecanismos de controle da sociedade e passam a produzir sucessores e sucessoras tirando-os da cartola, fazendo uso da mais abusiva retórica e máquina de propaganda.

Engana-se quem acha que propriedade privada seja apenas “sua casa”. Não, a primeira propriedade privada que existe é invisível: sua alma, seu espírito, suas ideias. É sobre elas que a oligarquia de esquerda avança a passos largos. Em nome da “justiça social” ela silenciará todos.

por Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo

quarta-feira, 15 de abril de 2009

As Barreiras do Sindicalismo

O poder sindical é essencialmente o poder de privar alguém de trabalhar aos salários que estaria disposto a aceitar.
Hayek

A economia de mercado pode ser descrita também como a democracia dos consumidores. Os empreendedores e capitalistas não são autocratas que determinam o que deve ser produzido independente da demanda. Eles estão sujeitos à soberania dos consumidores. São esses que, em última instância, decidem quais produtos serão os vencedores no mercado. Os sindicalistas gostariam de mudar isso, transformando tudo numa “democracia dos produtores”. A idéia é falaciosa, como argumenta Mises em Human Action, já que o propósito final da produção é o sempre o consumo.

O que mais incomoda os sindicalistas no sistema capitalista é sua suposta frieza na busca pelo lucro. Mas o que eles ignoram é que esta busca é justamente o que garante a supremacia dos consumidores. Sob a competição do livre mercado, os empresários são forçados a melhorar suas técnicas e oferecer os melhores produtos pelos menores preços. Por isso eles são levados a pagar somente o salário de mercado, ou seja, aquele decorrente da produtividade do trabalhador, sujeito às leis da oferta e demanda. Se um trabalhador pede aumento porque sua mulher teve mais um filho, e seu empregador nega alegando que o nascimento do filho em nada acrescenta à produtividade da empresa, ele está agindo nos melhores interesses de seus consumidores.

Afinal, esses consumidores não estão dispostos a pagar mais pelo produto porque o trabalhador aumentou sua família. A ingenuidade dos sindicalistas se manifesta no fato de que eles mesmos nunca aceitariam o mesmo argumento na compra dos produtos que eles consomem. O sindicalista enquanto consumidor não questiona nas lojas se o bem foi produzido por empregados com poucos ou muito filhos. Ele quer o melhor produto pelo menor preço. E quando ele exerce essa escolha, ele próprio está definindo como o empregador deve agir, sempre mantendo o menor custo possível, incluindo um salário de acordo apenas com o valor agregado pelo trabalhador.

Uma característica presente na mentalidade sindicalista é o foco no curto prazo. Para os sindicalistas, a empresa tem um lucro que pode ser dividido melhor entre seus empregados. A função de empresário é muitas vezes vista como sem valor, uma “exploração” que permite a apropriação indevida da “mais-valia”. O sindicalista ignora completamente o fato de que as condições de mercado estão sempre mudando, e que decisões fundamentais, que podem selar o destino da empresa, precisam ser tomadas diariamente. A visão sindicalista é estacionária. Portanto, o sindicalismo ignora os problemas essenciais do empreendedorismo, como a alocação de capital entre os diferentes setores, a expansão de indústrias já existentes, o desenvolvimento tecnológico, etc. Tudo que existe é tomado como certo pelos sindicalistas, que desejam apenas uma divisão diferente daquilo já existente. Como Mises conclui, não seria injusto chamar o sindicalismo de uma filosofia econômica de pessoas com visão limitada.

A essência das políticas sindicais é sempre garantir privilégios para um grupo minoritário à custa da imensa maioria. O resultado invariavelmente será reduzir o bem-estar geral. Os sindicatos tentam criar barreiras contra a competição entre trabalhadores, garantindo privilégios para aqueles já empregados. Quando esses obstáculos são erguidos (como salário mínimo, necessidade de diplomas, restrições de horas trabalhadas e inúmeras outras regalias), o que os sindicatos fazem é dificultar a entrada de novos trabalhadores, que poderiam aceitar condições menos favorecidas. O resultado prático disso é maior desemprego na economia, assim como preços mais altos para os consumidores.

Ninguém precisa defender as idéias sindicalistas, muitas vezes impregnadas de violência, para se sensibilizar com as condições de muitos trabalhadores pobres. Na verdade, pode ser justamente o contrário. A melhor garantia que esses trabalhadores têm para mudar de vida está no sistema capitalista de livre mercado. Com o foco nos consumidores, os empresários terão que investir em tecnologias que aumentam a produtividade do trabalho. Os salários terão aumento relativo aos preços dos produtos finais, lembrando que todos são consumidores. Os empresários no capitalismo desejam justamente atender as demandas das massas, pois somente assim terão expressivos ganhos de escala. Os produtos de luxo serão sempre mais limitados, voltados para um público menor que aceita pagar bem mais caro.

Por isso os trabalhadores de países capitalistas desfrutam de condições bem melhores que aquelas encontradas em países socialistas. Não adianta achar que imposições legais vão melhorar a vida dos trabalhadores. A solução para isso não está no decreto estatal, mas sim no próprio progresso capitalista. Foi ele que permitiu o acesso dos trabalhadores a diversos produtos que aumentam o conforto de maneira impensável mesmo para aristocratas do passado.

por Rodrigo Constantino

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

A Arte de Governar

Devemos dizer ao povo o que ele precisa saber e não o que ele gostaria de ouvir.
J.F.Kennedy

Os governos existem para proteger os legítimos direitos à vida, à liberdade e à propriedade.
John Locke

Todo governo que ousa fazer tudo, acaba fazendo nada.
Winston Churchil

O governo não pode fazer os homens ricos, mas pode empobrecê-los.
Ludwig von Mises

As leis abundam em Estados corruptos.
Tácito

Não se deve confundir Estado forte com Estado grande. Para ser forte o Estado tem que ser modesto.
Roberto Campos

O consenso é a negação da liderança.
Margareth Thatcher

Quando os cidadãos temem o governo, temos uma ditadura; quando o governo teme os cidadãos, temos liberdade.
Thomas Jefferson

Não há nada mais inútil do que fazer eficientemente aquilo que não se deveria fazer.
Peter Drucker

O menos mau dos governos é aquele que se mostra menos, que se sente menos e que se paga menos caro.
Alfred de Vigny

Dinheiro público é como água benta: todos querem colocar a mão.
Provérbio Italiano

A sociedade que coloca a igualdade à frente da liberdade irá terminar sem as duas.
Milton Friedman

Um governo é bom ou mau não só pelo que faz ou deixa de fazer, mas pelo que permite ou impede que se faça.
Jerry Brown

Se os homens fossem anjos, nenhum governo seria necessário.
James Madison

O maior cuidado de um Governo deveria ser o de habituar, pouco a pouco, os povos a dele não precisar.
Alexis de Tocqueville

Pouco mais é necessário para elevar um Estado do mais baixo nível de barbarismo ao mais elevado grau de opulência do que paz, impostos leves e uma razoável administração da justiça.
Adam Smith

Todo Poder corrompe, o Poder absoluto corrompe absolutamente.
Lord Acton

Não onere os negócios com custo alto ou com muitas regulamentações. O resultado será o desemprego.
Margaret Thatcher

Não espere que a solução venha do Governo. O Governo é o problema.
Ronald Reagan

A inflação é um imposto que se aplica sem que tenha sido legislado.
Milton Friedman

O governo não pode dar nada ao povo que primeiro dele não tenha tirado.
Richard Nixon

Se pudermos evitar que o governo desperdice o labor das pessoas sob a pretensão de ajudá-las, o povo será feliz.
Thomas Jefferson

As leis inúteis debilitam as necessárias.
Montesquieu

As leis e constituições mais generosas, quando desaparece a economia de mercado, não são mais que letra morta.
Ludwig von Mises

O governo não passa de um aglomerado de burocratas e políticos, que almoçam poder, promoção e privilégios. Somente na sobremesa pensam no "bem comum".
Roberto Campos

O governo é como um bebê. Um canal alimentício com grande apetite num extremo e nenhum sentido de responsabilidade no outro.
Ronald Reagan

Supõe-se que a política seja a segunda profissão mais antiga da Terra. Cheguei à conclusão que ela guarda grande semelhança com a primeira.
Ronald Reagan

A lei não é o refúgio do oprimido, mas a arma do opressor.
Frederic Bastiat

O governo é um mal gerente.
Peter Drucker

Onde há muitas leis específicas é sinal de que o Estado está mal governado.
Isócrates

O Estado, esta instituição fictícia sob a qual todos tratam de viver à custa dos demais.
Frederic Bastiat

A diferença entre um Estado benfeitor e um Estado totalitário é questão de tempo.
Ayn Rand

Ninguém é suficientemente competente para governar outra pessoa sem o seu consentimento.
Abraham Lincoln

Cada vez que o governo tenta manejar os nossos negócios, fica mais caro e os resultados são piores do que se fossemos nós a fazê-lo.
Benjamim Constant

O melhor governo é aquele em que há o menor número de homens inúteis.
Voltaire

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O Aumento da Desigualdade

Eu sempre tive muita dificuldade para entender o obsessivo foco da esquerda na questão da desigualdade "social" – leia-se material. Afinal de contas, qualquer um pode facilmente verificar que a riqueza não é um bolo fixo e estático, mas sim algo dinâmico. A riqueza precisa ser criada, e o seu nível absoluto pode aumentar para todos, através dos ganhos de produtividade oriundos da divisão de trabalho. Basta comparar a riqueza e o conforto material dos habitantes do antigo Império Romano com a vida de um americano médio de hoje. Qualquer indivíduo que desfruta de coisas como um carro, ar condicionado, microondas, celular e televisão, sem falar da enorme variedade de remédios disponíveis, vive muito melhor do que qualquer senhor medieval.

Portanto, parece evidente que o foco deveria estar voltado ao nível absoluto de riqueza. Se todos estão melhorando a qualidade de vida, o que importa se alguns poucos estão melhorando ainda mais, por mérito próprio? Se todos podem ter computador mais barato, por que ficar revoltado com os bilhões justos de Michael Dell? Se eu podia andar apenas de bicicleta antes, e agora posso ter um carro, devo ficar incomodado porque meu vizinho pode ter um carro ainda mais luxuoso? A obsessão na comparação entre ricos e pobres sempre me pareceu fruto da inveja, aquela mais anti-social das paixões. Como Adam Smith notou de forma brilhante, "a inveja é a paixão que vê com maligno desgosto a superioridade dos que realmente têm direito a toda a superioridade que possuem". Quantos jogam futebol como o Pelé? Quantos cantam como Pavarotti cantava? Então por que todos devem ter uma renda parecida? Eu sempre fui do time que admira o sucesso alheio, em vez de desejar que o vizinho quebre a perna, achando que assim eu posso andar melhor.

Dito isso, não deixa de ser curioso notar a discrepância entre os fins de maior igualdade material da esquerda, e os meios por ela pregados. A concentração de poder no governo sempre foi um convite à desigualdade material, e pelas formas mais injustas possíveis: as trocas de favores políticos, e não produtos demandados pelos consumidores. Normalmente, quanto mais cresce o governo, mais renda é concentrada. Vide Brasília, com a maior renda per capita do País, de longe. E eis que agora a OCDE divulga um relatório mostrando que a disparidade entre ricos e pobres cresceu significativamente desde 2000, principalmente em países como Canadá, Alemanha, Noruega e Finlândia, tidos como ícones do modelo de bem-estar social, onde o governo tem a função de combater a desigualdade material. Até quando a esquerda vai abraçar os fins e os meios errados?

por Rodrigo Constantino

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O Fim do Liberalismo

A severa crise financeira que se abateu sobre o mundo capitalista leva o observador a pensar os acontecimentos em perspectiva histórica. Estaríamos vivendo o equivalente ao que aconteceu em 1929? Se a resposta for positiva – e temo que seja verdadeira – é de se esperar todos os desdobramentos já vistos àquele tempo, inclusive no circuito de poder mundial. É bom lembrar que a crise de 1929 é uma das causas mais remotas da II Guerra Mundial. Foi o fim do Império Britânico.

Ou haverá algum paralelo com o fim do comunismo stalinista, com a queda do Muro de Berlim e o fracionamento do império soviético, no começo dos anos 90? Será que o modo de vida do Ocidente está entrando em colapso? Estamos vendo o fim último do liberalismo? Aqui as respostas não podem ser diretas. É claro que o epicentro da crise será nos EUA, secundado pela Europa. Daí concluir pelo fim do liberalismo há um salto espúrio.

Em primeiro lugar, a crise não é das instituições liberais, muito ao contrário. Uma das qualidades superlativas da ordem liberal é a sua capacidade de auto-regulação, seja no plano econômico, com sua mobilidade de preços, de capital e de mão-de-obra, seja no plano político, com a alternância de partidos no poder. Essa forma auto-regulada de existência tem sido o antídoto contra todas as crises e todos os surtos totalitários que ciclicamente assolam o Ocidente.

Em segundo lugar, é bom lembrar que a crise ora vivida tem origem precisamente na fuga da receita liberal. Os críticos mais competentes e isentos do que tem sido a política econômica dos EUA e da União Européia têm mostrado que esses países têm vivido além de suas possibilidades. Fizeram da capacidade de emissão de moeda fiduciária um modo de vida. As instituições bancárias “podres” só puderam persistir em face da abundância de dinheiro barato. É claro que isso levou a desindustrialização, tornando países como China e mesmo o Brasil plataformas de exportação e detentores de enormes superávits comerciais, contrapartida dos déficits gerados pelos países ditos ricos. Esses déficits espelham precisamente que os países passaram a viver além das suas posses. Claro que um desequilíbrio desses um dia cobraria sua conta. É chegada a hora.

Então a crise tem origem na traição do ideal liberal e não na sua prática. Emissão descontrolada de dinheiro, excesso de governo e de impostos, gastos descontrolados, tudo isso é sinônimo de socialismo e não de liberalismo. Há muito que o socialismo tomou conta dos países que agora estão em crise.

Aí que está a ironia da coisa: os inimigos do liberalismo acusam a este último de ser o causador daquilo que ele não poderia causar. Pior, para enfrentar a crise vêm com suas velhas receitas estatizantes e regulatórias, quando um liberal simplesmente daria de ombros e diria: “-Quem quebrou, quebrou”, fórmula que em um ano traria a economia de volta à prosperidade. Mas os inimigos do livre mercado não descansam e jogam nos ombros daqueles que lutam pela liberdade uma responsabilidade que é só deles mesmos.

A solução é uma só: reduzir o Estado, pelo lado da receita, da despesa e da regulação. É fazer retornar a velha ética liberal, que está na Bíblia: que cada um coma o suor de seu próprio rosto e que essa cambada de parasitas que vive dos impostos volte a trabalhar. Que se restaure o princípio da poupança individual para bancar o bem-estar das famílias e a aposentadoria dos velhos. Que cada um arque com as conseqüências de seus erros e incúrias. E de suas falências. O Estado não tem o direito de tomar dinheiro dos que trabalham e têm tirocínio para dar a vagabundos e parasitas. É simples assim.

A ética liberal é imorredoura porque é a única capaz de prover a humanidade de um instrumento racional para o exercício da liberdade. É a condição também da prosperidade. A crise atual é um aviso para que os homens voltem a viver dentro da realidade e não no delírio alucinado que tem por nome socialismo.

por José Nivaldo Cordeiro, no Mídia Sem Máscara

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Vamos Falar de Riqueza

Adam Smith, considerado o Pai da moderna economia, deu à sua mais famosa obra, ainda em pleno século XVIII, o nome de "Uma investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações" [mais tarde conhecido somente por "A Riqueza das Nações"].

Evidentemente, ele não perdeu seu precioso tempo investigando as causas da pobreza das nações, pois sabia que a mesma não tem causas, já que é o estado natural do ser humano e, conseqüentemente, das nações. A pobreza, portanto, é o resultado da inércia. Se você é daquele tipo meio alucinado, que deseja experimentar o sabor da penúria, simplesmente não faça nada; livre-se dos seus bens, deite-se "eternamente em berço esplêndido", como diz a anedota – digo, o hino – e eu garanto que a miséria virá fazer-lhe companhia.

Não por acaso, durante a maior parte da história humana, a pobreza foi a norma, a condição natural de nossos antepassados. Extraordinária mesmo é a riqueza. Adam Smith sabia perfeitamente disso, desde o século XVIII, mas, infelizmente, ainda hoje, há muita gente que não compreendeu esta singela questão, e continua perguntando, equivocadamente, o que causa a pobreza.

A resposta mais freqüente para esta falsa questão costuma ser uma completa falácia: Fulano é pobre porque Beltrano é rico ou a nação X é rica porque explora a nação Y. O raciocínio – se é que há algum – por trás desta enormidade é que existe uma quantidade fixa de riqueza na natureza, da qual os ricos ficam com a maior parte.

Isso é um completo e acabado despautério. De fato, a riqueza é criada pelo homem, através da produção, do empreendedorismo, da especialização e da divisão do trabalho, e, acima de tudo, pelo mecanismo de trocas no mercado. Por isso, no lugar de tentar tomar a riqueza dos ricos e redistribuí-la aos pobres, deveríamos tentar implementar as condições necessárias para que o maior número possível de indivíduos pudesse juntar-se ao mundo dos criadores de riqueza.

As nações pobres da África não vão tornar-se ricas porque os países ocidentais lhes dão esmolas. Pelo contrário, elas só sairão da pobreza produzindo e trocando bens e serviços. A verdadeira batalha é criar o ambiente propício para o enriquecimento das sociedades como um todo e, dessa forma, melhorar as condições de vida de todos os que nelas vivem. Boa parte das nações do chamado mundo ocidental já venceu esta batalha e hoje encontra-se sob o modelo de organização social que se convencionou chamar de capitalismo democrático liberal.

Tal modelo prevê um ambiente com poucas restrições à atividade econômica privada e desenvolve-se dentro de um sistema formal que defende de maneira intransigente o direito à propriedade e o respeito aos contratos. Nesse ambiente, florescerá a competição, o esforço de empresas e indivíduos para conseguir os favores dos demais (consumidores). Esses esforços, afora serem dirigidos no sentido de satisfazer os desejos dos outros, trazem como resultado menores preços e melhor qualidade de produtos e serviços, além de estimular o progresso tecnológico ao fomentar enfoques científicos alternativos para os problemas industriais.

No Brasil, infelizmente, estamos ainda muito longe disso. Reféns de uma mentalidade francamente avessa ao lucro e majoritariamente assistencialista, nutrimos grande admiração pelo intervencionismo estatal na economia. São centenas de milhares de regulamentações, exceções, reservas de mercado, tarifas aduaneiras protecionistas, impostos e taxas às pencas, sem falar das legislações trabalhista e sindical, que transformam a contratação de mão de obra num ônus pesadíssimo e num risco incomensurável.

Junte-se a isso um sistema tributário boçal, que, além de pesado e ineficiente, transforma o contribuinte em empregado do fisco, tal é a quantidade de obrigações acessórias que carrega. Enfim, tudo que o Estado brasileiro pode fazer para atrapalhar e obstaculizar a livre iniciativa, ele faz com grande presteza.
Já o direito de propriedade começa achincalhado desde a Constituição Federal, que o coloca subordinado à tal "função social", tornando implícita a idéia de que qualquer coisa que você porventura possua, inclusive a força do próprio trabalho, na verdade pertence ao Estado, e é "sua" somente no sentido de que os "príncipes eleitos" delegam a você certos privilégios temporários em relação a ela.

Como o respeito aos contratos e o Estado de Direito não estão plenamente assentados, nem em termos das instituições formais (leis) nem das informais (ética), a falsificação e a pirataria correm soltas, sem que as autoridades, os prejudicados e a população em geral tomem qualquer atitude. Basta percorrer as ruas das principais capitais do país para verificar a total impunidade com que os camelôs vendem mercadorias pirateadas, quando não contrabandeadas ou roubadas.

Como se vê, ainda temos um longo caminho a percorrer até que consigamos estabelecer em Pindorama os requisitos básicos para o nosso progresso. Para início de conversa, será necessário reverter a mentalidade tacanha que impera por essas bandas, cujo mote é a demonização da riqueza e a apologia da pobreza como valor moral. Sem isso, nunca chegaremos a parte alguma.




por João Luiz Mauad, empresário e formado em administração de empresas pela FGV/RJ., no Mídia Sem Máscara

sexta-feira, 2 de maio de 2008

O Poder das Idéias

Atualmente, quando escutamos que alguém é pragmático, isto soa como um elogio. Mas desde quando ser pragmático é uma virtude? O pragmatismo, não custa lembrar, defende que o sentido de tudo está na utilidade, no resultado. O efeito prático das ações é o que importa. Os fins justificam os meios. Os princípios morais cedem lugar ao relativismo moral. O pragmatismo é amoral. Pragmatismo nos remete a algo maquiavélico, lembrando que o filósofo Maquiavel escreveu praticamente um guia de sobrevivência e manutenção do poder para o príncipe. Ele afirmou que “um homem que queira fazer em todas as coisas profissão de bondade deve arruinar-se entre tantos que não são bons”. Além disso, deu recomendações bem pragmáticas ao poderoso, lembrando que o conquistador deve executar as ofensas necessárias de uma só vez, e ganhar a confiança dos súditos através de benefícios feitos pouco a pouco depois. É curioso notar que o adjetivo “maquiavélico” adquiriu conotação negativa, enquanto “pragmatismo” é visto como algo bom.

Esta postura pragmática é contrária àquilo que John Stuart Mill defendeu: “A verdade de uma opinião faz parte de sua utilidade. Se quiséssemos saber se é ou não desejável crer numa proposição, seria possível excluir a consideração sobre ser ou não verdadeira? Na opinião, não dos maus, mas dos melhores, nenhuma crença contrária à verdade pode ser realmente útil”. Ou seja, falar em utilidade dissociada da verdade é oferecer um falso remédio, e quem oferece falso remédio é um falso amigo. O verdadeiro defensor da utilidade é aquele que prega o que entende como verdadeiro, e não o que se encaixa no pragmatismo do momento.

Em O Homem Medíocre, José Ingenieros afirma, logo no começo: “Quando colocamos a proa visionária na direção de uma estrela qualquer e nos voltamos às magnitudes inalcançáveis, no afã de perfeição e rebeldes à mediocridade, levamos dentro de nós, nesta viagem, a força misteriosa de um ideal”. Quem deixa essa força se apagar, ficando simplesmente inerte, não passa “da mais gelada bazófia humana”. Para ele, “o ideal é um gesto do espírito em direção a alguma perfeição”.

Isso não quer dizer, em minha opinião, que seja louvável alguém sonhar qualquer sonho sem os pés no chão. Existem ideais e ideais. O socialismo é uma utopia, e como tal é inexeqüível. Mas, não obstante seus fins serem um pesadelo para todos aqueles que não se vêem como insetos gregários, sua grande falha está também no fato de suas crenças baterem de frente com a natureza humana. Ou seja, os meios pregados pelos socialistas levam inexoravelmente ao terror, miséria e escravidão. O socialismo é um ideal errado e que, além disso, ignora totalmente a realidade. Isso não quer dizer que devemos repudiar qualquer ideal. O liberalismo pode ser visto como um ideal também, no sentido de que defende uma ampla liberdade individual que ainda não existe. No entanto, além de ser um ideal desejável, ele pode ser também factível, pois não entra em confronto com nossa natureza. Pode até ser que em sua forma mais pura, o liberalismo seja um ideal inalcançável, mas pelo menos ele serve como a tal estrela que mostra o caminho a ser seguido. É fundamental não perder isso de vista, em troca das concessões pragmáticas do momento.

Uma vez identificado o ideal a ser seguido, resta questionar por que seria condenável ser “radical” na defesa deste ideal. Uma pensadora que sempre condenou este relativismo foi Ayn Rand, logicamente tachada de “extremista” por seus inimigos. O termo “extremismo”, para começo de conversa, é um termo que não tem significado algum se estiver isolado. O conceito de “extremo” denota uma relação, uma medida, um grau. Logo, parece óbvio que a primeira pergunta a ser feita é: Extremo em relação a que? Responder que é ruim um extremo em relação a qualquer coisa é absurdo, pois extrema saúde e extrema doença seriam então igualmente indesejáveis, extrema inteligência seria tão ruim quanto extrema burrice, e extrema integridade seria tão condenável quanto extrema perfídia. Seria o caso de se perguntar aos ditos “moderados” então: É igualmente indesejável ser extremamente honesto e extremamente desonesto? O “caminho do meio” faz sentido quando se trata da integridade? Quem responde que sim não pode estar do lado dos íntegros.

Outro grande pensador que não aceitou contemporizar com o inimigo foi Ludwig von Mises. Sua vida é a prova disso. Mesmo diante de todas as dificuldades imagináveis, fugindo do regime nazista, da guerra, sem conforto financeiro, Mises jamais aceitou jogar o jogo sujo da política, ceder ao que considerava falso apenas para alívio imediato. Mises acreditava muito no poder das idéias, pois entendia que os governos são sempre frágeis, já que dominados por uma minoria. Mudando as idéias abraçadas pelo povo, governos podem desabar rapidamente. Com esta crença inabalável no poder das idéias, Mises sabia que não poderia compactuar com aquilo que considerava falso. Ele poderia facilmente ter sido mais “flexível”, aceitando algumas concessões à mentalidade dominante da época, e teria tido uma carreira mais tranqüila. Mas não conseguiria dormir com sua consciência limpa dessa maneira, pois saberia que estaria dormindo com o inimigo. Mises não aceitou trocar a dignidade pela reputação, lembrando que dignidade é aquilo que pensamos de nós mesmos, enquanto reputação é o que os outros pensam de nós. Mises não estava em busca de aplausos da platéia, da bajulação dos colegas, do poder político, mas sim da verdade. Contemporizar com o mal apenas para obter mais adeptos é atitude de imorais em busca de rebanho de seguidores. É preciso integridade para enfrentar as adversidades que surgem quando alguém resolve contrariar os poderosos e o consenso do momento. E Mises tinha esta integridade, tanto que no auge de sua crise, disse se arrepender apenas dos momentos em que contemporizou demais, nunca quando foi intransigente.

Ainda dentro da Escola Austríaca, outro que compreendeu a importância da pureza das idéias foi Hayek. Para ele, os liberais devem ser capazes de apelar à imaginação, fazendo a construção de uma sociedade livre ser uma aventura intelectual, uma conquista da coragem. Hayek achava que os intelectuais liberais não deveriam ser demasiadamente práticos e também não deveriam confinar suas idéias àquilo que parecesse politicamente viável no momento. Deveriam, ao contrário, ser homens dispostos a se agarrar aos princípios e lutar por sua total realização, ainda que remota. As concessões práticas devem ser deixadas para os políticos. A batalha pela liberdade não estaria perdida, segundo Hayek, se fosse possível resgatar a crença no poder das idéias. Esta opinião de Hayek influenciou de forma crucial Antony Fisher, que desejava fundar um novo partido político depois de ler O Caminho da Servidão, excelente obra onde Hayek mostra que o aumento do poder político destrói a liberdade. Fisher foi convencido por Hayek a criar um “think tank” em vez de um partido, e assim nasceu o Institute of Economic Affairs, em 1955. As idéias divulgadas pelo instituto foram fundamentais para criar um ambiente favorável às reformas liberais da era Thatcher, anos depois. Sem uma mudança da mentalidade, essas reformas ou não seriam possíveis, ou não seriam sustentáveis.

O poder político é mais frágil do que muitos acreditam. Creio que os próprios governantes sabem disso, e por isso buscam sempre toda forma de controle sobre nossas vidas. Mas no final do dia, eles conseguem se manter no poder somente com o respaldo de boa parte da população, mesmo usando aparatos de coerção. Afinal, os governados são sempre maioria. A manutenção do poder, portanto, depende das idéias disseminadas entre esta maioria. Isto foi verdade até mesmo para os regimes nazista e comunista. Maquiavel também tinha compreendido bem isso. O que precisa mudar são as idéias do povo. Os governantes sabem disso, e costumam encarar a liberdade de expressão com hostilidade. Aquele que ataca o governo deve ser visto como inimigo da pátria, do próprio povo. Há uma propaganda intensa para o culto à presidência, onde o governo é visto como uma espécie de deus. A própria pergunta que me fazem com freqüência, de quando pretendo me candidatar a algum cargo político, denota esta crença. A maioria, atualmente, acredita que o meio da nossa salvação é o meio político. Estão à espera de um messias salvador. Ainda não compreenderam de forma correta o poder das idéias. “Não há nada mais forte que uma idéia cuja hora é chegada”, disse Victor Hugo.



excertos do artigo de Rodrigo Constantino, em 01/05/2008