segunda-feira, 8 de setembro de 2008
40 anos de AI-5
O Jornal da Câmara apresentou a opinião de outros palestrantes, além de Passarinho, que participaram do seminário “Brasil: 1968-2008”, ocorrido no Interlegis/Senado Federal, no dia 26 de agosto, com os historiadores Carlos Fico, da UFRJ e Estevão de Rezende Martins, da UnB. (Participaram do seminário, ainda, os cientistas políticos Paulo Kramer e David Fleischer, da UnB, e o jornalista José Nêumanne Pinto, do Estadão; o cineasta Wladimir de Carvalho não pôde comparecer ao evento, por estar sofrendo de forte dor de coluna.) Invertendo fatos históricos, Carlos Fico afirmou em sua palestra (a qual eu assisti) que a ditadura militar foi quem promoveu a violência em 1968, não os terroristas, ao invadir a UnB e censurar a peça “Roda Viva” de Chico Buarque, e que a fala de Moreira Alves foi apenas uma deixa para fechar ainda mais o regime. Como se pode deduzir, Carlos Fico, à moda de Habsbawm, analisa a História apenas sob a ótica marxista, pinçando fatos a seu favor:
28 de março - O estudante Edson Luís de Lima Souto, de 17 anos, é assassinado pela polícia durante protesto no restaurante universitário Calabouço, no Rio;
26 de junho - Cerca de cem mil pessoas ocupam as ruas do centro do Rio de Janeiro e realizam o mais importante protesto contra a ditadura militar até então. Dela participam intelectuais, artistas, religiosos e grande número de mães de estudantes;
29 de agosto - Invasão da UnB;
2 de setembro - Discurso de Márcio Moreira Alves contra a invasão da UnB;
3 de setembro - Novo discurso de Márcio Moreira Alves conclamando as famílias a não comparecer aos desfiles da Semana da Pátria;
12 de dezembro - Por 216 votos contrários, 141 a favor e 13 em branco, a Câmara dos Deputados nega o pedido para cassação de Márcio Moreira Alves;
13 de dezembro - O governo baixa o AI-5, que autorizava o presidente da República, em caráter excepcional e sem apreciação judicial a: decretar o recesso do Congresso Nacional; intervir nos estados e municípios; cassar mandatos parlamentares; suspender, por dez anos, os direitos políticos de qualquer cidadão, entre outros. Os deputados Márcio Moreira Alves e Hermano Alves, que escreveu uma série de artigos contra o regime no jornal Correio da Manhã, encabeçam a lista das 11 cassações.
O ano de 1968 contém uma agenda muito mais ampla e macabra do que a apresentada pelo Jornal da Câmara, que lista apenas as 7 datas acima (a conta do mentiroso...), muito bem escolhidas ideologicamente falando, pois foi nesse ano que começaram a proliferar muitos grupos terroristas, especialmente no Rio e em São Paulo, sob as ordens de Cuba, de acordo com o que foi deliberado pela OLAS, em 1966, fundada sob inspiração de Salvador Allende, para “criar vários Vietnãs na América Latina”, segundo afirmou Fidel Castro na ocasião. Com a morte de Che Guevara na Bolívia, em 1967, muitos estudantes latino-americanos queriam ser iguais ao guapo jovem de boina vermelha que havia se tornado um mito entre a estudantada.
Carlos Fico afirmou, ainda, que não havia necessidade de implantar uma ditadura para combater os grupos terroristas. Que isso poderia ter sido feito dentro do regime democrático. Jarbas Passarinho rebateu o historiador relativista no seminário aludido, afirmando que o habeas corpus, p. ex., mandava soltar terroristas sanguinários, como Carlos Marighela, e que havia, sim, necessidade de endurecimento do governo, com leis especiais, afirmando que a Colômbia “nunca editou seu AI-5” e o resultado aí está: as FARC já aterrorizam toda a nação há 44 anos.
Vejamos quais foram os principais acontecimentos de 1968, que justificaram a criação do AI-5:
1º de maio - em um comício na Praça da Sé, em São Paulo, o Governador Abreu Sodré e sua comitiva foram expulsos da tribuna, a qual foi utilizada por agitadores para ataques violentos ao Governo militar;
26 de junho - o soldado do Exército, Mário Kosel Filho, foi explodido pela VPR de Carlos Lamarca em uma guarita do QG do então II Exército, onde tirava serviço de sentinela. Nesse mesmo dia (mera coincidência?), realizava-se no Rio a “passeata dos 100 mil”, reunindo estudantes, padres, artistas, “intelectuais” e outros;
22 de julho - a VPR rouba 9 FAL do Hospital Militar do Cambuci, em São Paulo;
10 de agosto - a ALN de Carlos Marighela assalta o trem-pagador Santos-Jundiaí, ação que rendeu ao grupo NCr$ 108.000.000,00 e consolidou sua entrada na luta armada. O ministro da Justiça do governo Fernando Henrique Cardoso, Aloysio Nunes Ferreira, foi um dos que participaram daquele assalto, fugindo em seguida com a mulher para Paris, com documentos falsos. Em Paris, o “Ronald Biggs” caboclo viria a participar da Frente Brasileira de Informações (FBI), criada em 1968 em Argel, Argélia, sob inspiração de Miguel Arraes, ligada a organizações de esquerda, de oposição ao governo militar do Brasil, órgão que tinha por objetivo promover a desinformatsya, tanto no Brasil, quanto no exterior. “Marcito pinga-fogo” também foi um ativo militante da FBI, junto com Fernando Gabeira e Francisco Whitaker Ferreira, Frente essa que teve o apoio ostensivo do guru marxista francês Jean-Paul Sartre e as bênçãos do bispo vermelho D. Hélder Câmara;
20 de agosto - foi morto por terroristas o soldado da Polícia Militar de São Paulo, Antônio Carlos Jeffery;
12 de outubro - a VPR assassinou o capitão do Exército dos EUA, Charles Rodney Chandler, projetando-se perante as organizações terroristas nacionais e internacionais;
7 de setembro - foi assassinado o soldado da PM de São Paulo, Eduardo Custódio de Souza; e
7 de novembro - foi assassinado o Sr. Estanislau Ignácio Correa, ocasião em que os terroristas levaram seu automóvel.
Nesse mesmo ano de 1968, houve um crescendo na agitação estudantil de todo o País, fruto da “Revolução Cultural” implementada na China por Mao Tsé-Tung, com os famigerados “livros vermelhos”, que atingiu também Paris quase derrubando o Governo Charles de Gaulle, e pela OLAS de Cuba, como já foi citado acima. Em Paris, os estudantes eram influenciados pelas idéias neomarxistas de Marcuse e pelo líder estudantil Daniel Cohn Bendit, além de movimentos mundiais contra a Guerra do Vietnã, contestada principalmente pelos negros americanos.
Muitos estudantes, brasileiros ou não, queriam ser os “novos guevaras”, após o “martírio” de Che na Bolívia, em 1967. A agitação estudantil era insuflada principalmente pela Ação Popular (AP), pela Dissidência da Guanabara (DI/GB), pelo Comando de Libertação Nacional (COLINA), pelo Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e pela Ala Marighela (posterior Ação Libertadora Nacional - ALN). Os principais líderes estudantis eram Vladimir Palmeira e Franklin Martins, da DI/GB, e José Dirceu, da ALN:
28 de março - foi morto no Rio o estudante Edson Luís de Lima Souto, em um choque de estudantes contra a polícia. Durante seu enterro, foi depredado um carro da Embaixada americana e incendiado um carro da Aeronáutica;
31 de março - uma passeata de estudantes contra a Revolução deixou 1 pessoa morta e dezenas de policiais da PM feridos no Rio;
19 de junho - liderados por Vladimir Palmeira, presidente da UNE, 800 estudantes tentaram tomar o prédio do MEC no Rio, ocasião em que 3 veículos do Exército foram incendiados;
21 de junho - no Rio, 10.000 estudantes incendiaram carros, saquearam lojas, atacaram a tiros a Embaixada Americana e as tropas da PM, resultando 10 mortos, incluindo o sargento da PM, Nélson de Barros, e centenas de feridos;
22 de junho - estudantes tentaram tomar a Universidade de Brasília (UnB);
24 de junho - estudantes depredaram a Farmácia do Exército, o City Bank e a sede do jornal O Estado de S. Paulo;
26 de junho - ocorreu a “passeata dos 100 mil”, no Rio, e o assassinato do soldado Kozel Filho, como já afirmado acima;
3 de julho - estudantes portando armas invadiram a USP, ameaçando colocar bombas e prender generais;
4 de julho - a “passeata dos 50 mil” tinha como principal bordão “só o povo armado derruba a ditadura”;
29 de agosto - houve agitação no interior da UnB, ocasião em que foi preso o militante da AP, Honestino Guimarães, presidente da Federação de Estudantes Universtários de Brasília (FEUB), o qual, desde então, foi dado como desaparecido. O deputado Mário Covas foi à UnB para lhe prestar solidariedade;
3 de outubro - choques entre estudantes da USP e do Mackenzie ocasionaram a morte de um deles, baleado na cabeça;
12 de outubro - realizou-se o XXX Congresso da UNE, em Ibiúna, SP. A polícia prendeu os participantes, entre os quais Vladimir Palmeira, José Dirceu e Franklin Martins. Nesse Woodstock tupiniquim, foram encontradas drogas, bebidas alcoólicas e uma infinidade de preservativos usados. Havia até uma “escala de serviço” de moças para atendimento sexual. Os líderes estudantis, em acordo com Marighela e com o governo de Cuba, haviam chegado à conclusão de que o estopim para a luta armada viria de uma prisão em massa de estudantes, envolvendo comunistas e inocentes úteis, e jogaria essa massa nos braços da luta armada;
15 de outubro - estudantes tentaram tomar o prédio da UNE, queimando carros oficiais. Fernando Gabeira participou do ato terrorista.
Para analisar aqueles “anos da matraca”, especialmente o quentíssimo ano de 1968, convém lembrar duas passagens de José Antonio Giusti Tavares, em seu livro "Totalitarismo Tardio - O caso do PT":
"Juízos de valor acerca de condutas do passado devem ser feitos não a partir de parâmetros éticos do presente, mas da contextualização da conduta na sua própria época, e nela, por comparação com condutas diferentes".
"Os historiadores e os cientistas sociais devem cumprir pelo menos dois requisitos básicos da epistemologia e da ética das ciências humanas:
1) evitar tanto quanto possível qualquer restrição ou seleção dos fatos brutos e,
2) ao apresentá-los, distinguir sempre, tanto quanto possível, entre fatos e interpretações".
Seria importante o Jornal da Câmara difundir todos esses fatos ocorridos ao longo de 1968, não apenas aqueles que atendam a algum propósito ideológico. No entanto, tenho que concordar com o jornal em pelo menos um aspecto: "a verdadeira história ainda não foi contada".
Por que a Câmara não começa, enfim, a contar toda essa história, de verdade, ao invés de contá-la pela metade, sonegando informações históricas importantes ao povo brasileiro?
por Félix Maier, em 06 de setembro de 2008
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
O Bem
Gradativamente, o Estado brasileiro, em suas várias esferas, está-se impondo cada vez mais em detrimento das escolhas individuais e, sobretudo, de considerações morais, que deveriam nortear a subjetividade de cada um. Trata-se da autonomia que cada um tem de decidir por si mesmo, exercendo uma discriminação racional daquilo que é melhor para si. Tem ocorrido freqüentemente uma suposta coincidência entre o que o indivíduo considera para si o bem e o que o Estado lhe apresenta enquanto tal, como se o politicamente correto fosse o caminho que permitiria essa identificação. Há aqui uma armadilha.
O Poder Executivo, em particular, interfere progressivamente na vida de cada um, seja por atos administrativos como decretos, portarias, resoluções e instruções normativas dos mais diferentes tipos, seja por medidas provisórias, seja ainda por projetos de lei que vão na mesma direção. Por exemplo, uma alteração, via administrativa, de uma alíquota do Imposto de Renda tem incidência direta nos rendimentos individuais e familiares, como se o Estado soubesse fazer melhor uso dos bens particulares. Ocorre uma transferência de bens materiais, de propriedades, que surge travestida de uma justificativa de ordem moral, ancorada na concepção de que o Estado sabe moralmente melhor do que qualquer um o que é o seu bem próprio.
O Incra, por sua vez, determina, em lugar dos assentados, o que é melhor para eles, interferindo diretamente no seu cultivo e, em última instância, em sua capacidade individual de escolha, como se um assentado fosse um tolo que deveria apenas seguir as diretrizes desse órgão estatal e dos movimentos ditos sociais. Assim, o cultivo de eucaliptos é proibido pelo Incra porque contraria as suas orientações, independentemente de que ofereça melhor rendimento aos assentados do que outros cultivos ou lavouras. Por que não poderia um assentado escolher o cultivo que lhe dê maior renda e usufruir seus resultados?
Tal "normalidade" não surge como um tsunami, mas em volumes crescentes, que vão ganhando consistência e poder. O caso da saúde é particularmente revelador. Em nome dela, há propostas de aumentos de contribuições, restrições ao fumo, mesmo em recintos que afetam somente os que usufruem o ato de fumar, à ingestão de bebidas alcoólicas ou à publicidade de medicamentos. O Estado apresenta-se como o grande patrocinador da saúde, quando está patrocinando somente a si mesmo. E o faz em nome do bem de cada um. Quem lhe confere esse poder?
Observe-se que, em nome da saúde, há projeto em curso para ressuscitar a CPMF, fortemente rechaçada por toda a população brasileira. Como os brasileiros são, hoje, contrários ao aumento de impostos, este aparece disfarçado de figura moral do bem de todos. A moral surge como justificativa de um simples acréscimo da arrecadação tributária! Da mesma maneira, por que deveria uma autoridade governamental banir o fumo em locais especialmente destinados a isso, sem afetar os não-fumantes? Não sabe cada um discernir o que é melhor para si, sem o auxílio da bengala estatal? Por que deveria o Estado determinar a "lei seca", graças a uma nova regulamentação apresentada com estardalhaço, como se fosse a salvação da saúde nacional? Por que o Estado deveria regulamentar a publicidade de medicamentos de livre compra em farmácias? Se a compra pode ser feita sem receita, onde estaria o seu dano para a saúde? Amanhã, vai o Estado legislar ainda mais no lar de cada um, como já começa a fazer? Onde reside o limite, se o solar da casa já foi transgredido? Cabe ao Estado informar sobre os efeitos nocivos de determinados hábitos para a saúde pessoal. Não lhe cabe tomar o lugar da escolha individual.
Levemos esse argumento ao seu extremo. Consideremos que a ingestão de colesterol e de gorduras saturadas fazem mal à saúde. Pesquisas científicas referendariam essa avaliação. Seguir-se-ia daí que seria função do Estado decidir o que cada pessoa deveria, por dia, tomar de sorvete ou comer de carne? Os indivíduos não poderiam tomar sorvete ou comer carne além de uma determinada quantia? Haveria punição para os transgressores? Assim apresentada, a questão parece absurda, porém ela é, em seus efeitos, terrivelmente verdadeira.
Não faltam, inclusive, pseudopesquisas que procuram justificar "cientificamente" essas medidas. Na verdade, a sua justificação reside numa determinada noção do bem de natureza propriamente política, estatal, que se reveste de científica. Séries estatísticas, por definição, podem ser feitas de quaisquer coisas, bastando relacioná-las, sem que daí siga necessariamente uma relação causal. Tomemos o caso da proibição de ingestão de bebidas alcoólicas por condutores de veículos. A redução da mortalidade nas ruas e estradas tem sido atribuída a essa lei. A correlação estabelecida se faz entre a nova lei e a redução da mortalidade. Por que não uma outra correlação, entre a fiscalização rigorosa da aplicação da lei, que poderia ser perfeitamente a anterior, e a redução da mortalidade? Se afrouxar a fiscalização, haverá provavelmente um aumento de acidentes automobilísticos, apesar da lei seca. No entanto, quando isso vier a ser comprovado, o efeito midiático buscado já terá sido atingido: o Estado sempre sabe o que é melhor para o indivíduo!
por Denis Lerrer Rosenfield, professor de Filosofia na UFRGS, em 01/09/2008, no Estado de São Paulo
Pré-Sal já Causa Seu Mal...
A FUP (Federação Única dos Petroleiros) deflagra nesta sexta-feira (5) a sua campanha salarial de 2008.O movimento já nasce impregnado de ideologia. O sindicalismo da Petrobras pede o reajuste dos contracheques enrolado na bandeira do “Pré-sal é Nosso.”
No pedaço monetário de sua pauta de reivindicações, os petroleiros exigem aumento de 12% —7% de reposição de perdas; 5% de reajuste real, acima da inflação.
No naco extra-salarial da agenda, a FUP se propõe a liderar uma “ampla mobilização nacional para garantir o controle estatal e social das reservas do pré-sal.”
Na última quarta (3), em reunião ocorrida na sede paulistana da CUT, os petroleiros ganharam a adesão da barulhenta CMS (Coordenação dos Movimentos Sociais).
É uma logomarca sob cujo guarda-chuva espremem-se entidades como MST, Via Campesina, UNE e UBES –todas simpátics ao petismo.
Nos próximos dias, vão às ruas para defender teses inspiradas na prosperidade petrolífera do pré-sal. Coisas assim:
1. Restabelecimento do monopólio estatal do petróleo;
2. Fim das concessões a empresas estrangeiras para exploração de petróleo e gás;
3. Destinação social dos recursos gerados pela prospecção do pré-sal;
4. Fortalecimento da Petrobrás como “empresa eminentemente pública.”
Com o auxílio dos “aliados sociais”, os petroleiros tentam coletar 1,3 milhão de assinaturas, para protocolar no Congresso um projeto de lei de iniciativa popular. Levou-se à rede um formulário.
Uma proposta que visa ajustar o marco legal do petróleo aos anseios nacionalistas do sindicalismo petroleiro.
A FUP foi criada em 93. É filiada à CUT. Reúne 18 sindicatos estaduais. Diz representar algo como 150 mil trabalhadores, entre ativos e aposentados.
Não dá para impor as vontades do movimento. Mas é o bastante para fazer barulho. Sobretudo se os sem-terra e os estudantes levarem a sério a promessa de apoio.
por Josias de Souza, em seu blog
Fala-se do petróleo do pré-sal como se fosse a maior moleza. Para Lula, em um ano, é possível que em um ano a exploração esteja em fase comercial, em larga escala. A ministra Dilma Roussef diz que se encontrou óleo “atrás do galinheiro”. E os fatos?Vitória da Boa Educação
Numa vitória surpresa contra as autoridades governamentais que tentaram medidas legais contra uma família que ensina seus filhos em casa e se recusa a fazer parte do sistema escolar público, David e Jonatas Nunes passaram nos testes provando um elevado nível de conhecimento numa variedade de assuntos, inclusive história, ciências naturais, artes, esportes, computação e matemática.Os testes dados aos filhos dos Nunes eram tão difíceis que os professores de escola pública confessaram que não conseguiriam passá-los. Os dois adolescentes, de 14 e 15 anos, tiveram só uma semana para estudar para vários dos testes que foram anunciados com só uma semana de antecedência.
Os exames foram feitos por ordem de um tribunal local numa tentativa de determinar se os Nunes haviam cometido o crime de "abandono intelectual", o que poderia trazer como conseqüência uma multa pesada e possivelmente cadeia para os dois pais, bem como perda da guarda de seus três filhos.
Embora os adolescentes tivessem sido avisados com antecedência que seriam testados em matemática, geografia, ciência e história, eles foram informados apenas uma semana antes da data dos testes que eles também seriam testados em português, inglês, arte e educação física, inclusive questões sobre a história do handebol, basquete, futebol e outros esportes.
Apesar do curto tempo que receberam para estudar, ambos os adolescentes passaram nos testes, David alcançando 68% e Jonatas 65%, de acordo com Cleber Nunes, o pai dos adolescentes. Embora o governo não tenha ainda dado um veredicto nas notas, a nota mínima de aprovação nas escolas brasileiras é 60%.
"Os testes foram difíceis", Nunes disse para LifeSiteNews. "Havia perguntas que são dadas nos exames de admissão das grandes universidades. Além disso, ficamos surpresos com a adição de quatro matérias, a apenas uma semana dos exames. Eles estudaram muito a fim de assimilar todo o material".
"Para mim, o processo pelo qual eles passaram foi evidência muito forte de que eles estão, de fato, aprendendo a aprender", disse Nunes."Eles estudaram a maioria das matérias sozinhos. Tivemos a ajuda de um professor de matemática. Eles estudaram o resto de suas matérias por conta própria. Eu lhes dei pouca orientação. Esse é o princípio do método que usamos".
Nunes diz que agora ele quer que os estudantes de escolas públicas façam os mesmos testes que seus filhos fizeram. Ele diz que tem certeza de que não chegariam nem perto de passar, e aponta para o fato de que em testes internacionais os estudantes do Brasil produzem notas extremamente baixas.
O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes de 2007, o qual compara o desempenho estudantil, em 57 países, deu ao Brasil notas bem baixas em matemática, leitura e ciência. Em seu próprio Índice do Desenvolvimento da Educação Básica, as escolas públicas do Brasil alcançam entre 3.5 e 4.2, dependendo do nível do grau.
"É interessante que se esses mesmos testes fossem dados para estudantes de escolas públicas, a vasta maioria não passaria", disse Nunes, que observou que se falhar em tais testes deve ser considerado como crime, "então o próprio governo seria condenado já que seus órgãos confessam o fracasso total do sistema educacional que eles estão exigindo que nossos filhos freqüentem".
A vitória dos Nunes ocorre depois de um ano e meio de lutas com as autoridades do governo brasileiro, que interpretam as leis existentes com o significado de que as pessoas não podem educar seus filhos em casa. Os Nunes dizem que tiraram seus filhos do sistema de escolas públicas por causa dos baixos padrões e imoralidade que permeiam o sistema.
Embora David e Jonatas Nunes já tivessem sido aprovados em exames de admissão para uma faculdade de direito com as idades de 13 e 14, os resultados foram insuficientes para as autoridades locais, que ameaçaram tirar de seus pais a guarda deles e tentaram cobrar deles uma multa excessiva. Os Nunes dizem que estão lutando com a ajuda de advogados voluntários.
fonte: LifeSiteNews
Justiça e Memória Seletiva
Leio hoje na imprensa: o juiz espanhol Baltazar Garzón ordenou nesta semana que se comece a reunir informações sobre os desaparecidos durante a Guerra Civil na Espanha e a subseqüente ditadura, com o objetivo de - abre aspas - "montar uma lista confiável de vítimas dos conflitos".Para quem não conhece o personagem citado acima, vou apresentá-lo: Baltazar Garzón é aquele juiz que, em 1998, causou uma onda de furor mundial ao mandar prender e tentar extraditar para a Espanha o ex-ditador do Chile Augusto Pinochet, falecido dois anos atrás. Desde então, ele, Garzón, tornou-se conhecido mundialmente como um perseguidor implacável de ex-ditadores, sobretudo generais sul-americanos, e um herói dos direitos humanos para os esquerdistas.
O que quer o meritíssimo juiz? Cito mais uma vez a imprensa, no caso o portal Terra de hoje, 4 de setembro: "Garzon emitiu um pedido para que líderes religiosos, prefeitos e outras autoridades coletem informações sobre as pessoas mortas pelos exércitos do general Franco após a ascensão dele ao poder, em 17 de julho de 1936". Aparentemente, algo muito justo. Mesmo sabendo-se que Franco morreu trinta e três anos atrás, em 1975, e que desde então a Espanha é uma democracia. Aparentemente. Porque, se o objetivo do juiz Garzón fosse mesmo fazer justiça, ele não se cingiria a um lado somente da contenda. Leiam de novo a notícia. Lá está escrito, por acaso, que Garzón mandou que se investigassem as mortes causadas pelos dois lados do conflito, ou simplesmente os mortos da Guerra Civil Espanhola? Nada disso. O que ele quer são informações sobre as pessoas mortas - vou repetir, mais uma vez entre aspas - "PELOS EXÉRCITOS DO GENERAL FRANCO após a ascensão dele ao poder" etc.
Perceberam a manobra? Entenderam a impostura? Captaram a tapeação, a empulhação, a mentira?
A iniciativa do juiz Garzón não tem por objetivo fazer justiça coisa nenhuma. É mais uma malandragem retórica, uma tentativa espertalhona de distorcer a História travestida de humanitarismo jurídico. No caso, a História da Guerra Civil Espanhola, um conflito que resultou em cerca de meio milhão de mortos entre 1936 e 1939. Aqui, repete-se com esse episódio o mesmo que se tornou lugar-comum para outros fatos históricos do século XX, como a Guerra do Vietnã e as ditaduras militares sul-americanas: as vítimas foram de um lado apenas. Até hoje, quando se fala na Guerra Civil Espanhola, a primeira coisa que vem à mente é o bombardeio da cidade de Guernica pela Legião Condor de Hitler a serviço dos franquistas - fato imortalizado no célebre quadro de Pablo Picasso, que pintava coisas a soldo do Partido Comunista -, e não o que os dois lados fizeram. É preciso lembrar.
O meio milhão de mortes no conflito que ensanguentou a Espanha que o juiz Garzón deseja ver investigadas não se deveram unicamente aos "exércitos de Franco", como ele diz (ou seja, à frente de setores nacionalistas, conservadores e monarquistas que se rebelaram contra a Segunda República espanhola, proclamada em 1931), mas também - e isso não convém lembrar -, às forças republicanas, integradas por liberais, socialistas e, principalmente, comunistas. Estes últimos, na luta contra os franquistas, cometeram igualmente inúmeras atrocidades, chegando ao ponto de fuzilar centenas de padres católicos e incendiar igrejas. Além disso, grande parte das vítimas do lado republicano caíram sob as balas não dos exércitos nacionalistas de Franco, mas dos agentes da NKVD (a polícia política soviética, antecessora do KGB) do ditador Josef Stálin, que foram despachados para a Espanha não para combater os fascistas e defender a democracia, mas para liquidar os adversários da URSS nas fileiras republicanas, como os trotskistas e os anarquistas. E cumpriram essa missão, vale dizer, com métodos científicos, como um bala na nuca. Para quem quiser saber mais como ocorreu esse banho de sangue, um dos massacres auto-infligidos menos conhecidos do século XX, recomendo a leitura de "Lutando na Espanha", de George Orwell, e de "A Batalha da Espanha", de Antony Beevor. Será que o juiz Garzón vai pedir que se investiguem essas mortes também?
De fato, o senso de justiça do sr. Garzón parece ser bem seletivo. Implacável para com generais de pijama sul-americanos, a ponto de compará-los aos agentes nazistas e de reivindicar, para si, jurisdição universal para caçá-los onde quer que estejam, Garzón costuma ser bem tolerante, para dizer o mínimo, quando se trata de outras ditaduras. A de Fidel Castro em Cuba, por exemplo. Certa vez, perguntado por que não se mostrava tão implacável e inquiridor com o tiranossauro do Caribe, ele disse que não podia fazer nada contra chefes de Estado ainda no exercício de suas funções. Ou seja: era preciso esperar o ditador aposentar-se, ou morrer, para pensar em fazer alguma coisa. Pois bem. No começo deste ano, após 49 anos de ditadura ininterrupta, Fidel renunciou - pelo menos foi o que se disse na imprensa - aos cargos que ocupava no Estado cubano. Tecnicamente, portanto, o barbudo não é mais um chefe de Estado, e, segundo o argumento do juiz Garzón, pode ser processado por seus crimes. Até o momento em que escrevo estas linhas, porém, o excelentíssimo juiz ainda não tinha iniciado o processo do ditador cubano, responsável, entre outras coisas, por 17 mil fuzilamentos e mais 78 mil afogados tentando fugir da ilha-prisão de Cuba desde 1959. Como diria o Capitão Nascimento: um verdadeiro fanfarrão, esse juiz Garzón.
Alguns dias atrás, Garzón esteve no Brasil, em plena polêmica da revisão, ou não, da Lei de Anistia. Na ocasião, em entrevista para a Carta Capital, Garzón endossou a tese de Tarso Genro e defendeu a punição para os torturadores da época do regime militar. Afirmou que tortura é crime imprescritível. Estranhamente - ou não -, não disse nada sobre o terrorismo das organizações armadas de esquerda que mataram várias pessoas inocentes no mesmo período. Será que o terrorismo deixou de ser, também, um crime imprescritível? Ou será que - o mais provável - os mortos, nesse caso, estavam do lado errado?
"Ah mas então você não quer que se investiguem as mortes". Não, nada disso. Não estou dizendo que não se deve investigar, nem que o melhor é esquecer. Mais uma vez: Não! É justamente o contrário: quero que se investigue sim, o destino dos mortos e desaparecidos, e que a História - TODA a História, e não parte dela - seja lembrada e esclarecida. Quero, inclusive, que os torturadores paguem por seus crimes, e que, se for para revisar a Lei de Anistia de 1979, que assim seja. Mas quero que os que mataram, feriram e torturaram - sim, torturaram! ou vai dizer que seqüestro não é uma forma de tortura? - do "outro lado", ou seja, do lado que hoje pede "justiça" e a revisão da Lei, paguem também. É isso, aliás, o que me distingue do sr. Baltazar Garzón, assim como de seus amigos esquerdistas: eu quero que a História seja desvendada por inteiro; eles querem que seja pela metade - a metade que lhes convém, claro.
A manipulação da História pelas esquerdas não é um fato novo. É uma tática sistematicamente empregada, há décadas, para fazer todos acreditarem que ela é sempre vítima, jamais o lado agressor. Fazem isso para incutir nos espiritos ingênuos ou mal-informados (ou seja: na maioria das pessoas) a idéia de que seus crimes são virtuosos e que qualquer um que os denuncie é um salafrário e um bandido, um "reacionário", até mesmo um "fascista".
Para atingir esse objetivo, os esquerdistas não hesitam em esconder uma parte da verdade, ou em se basear nela para propagar mentiras, ou em recorrer à mentira pura e simples. Um exemplo histórico é a falsa acusação feita pela URSS no Tribunal de Nuremberg, em 1946, segundo a qual os nazistas teriam sido os responsáveis pelo massacre de milhares de oficiais militares poloneses na floresta de Katyn, em 1940. Sabendo que os nazistas estavam na berlinda, universalmente execrados como autores de crimes horrendos contra a humanidade, e que qualquer delito que lhes fosse imputado teria uma boa probabilidade de ser considerado, os comunistas tentaram atribuir aos nazistas mais esse crime. Com esse ardil, buscaram encobrir sua própria participação no episódio - foram os comunistas, e não os nazistas, os autores da chacina, revelou-se depois - e, de quebra, fazer todos esquecerem sua aliança com os próprios nazistas - quando ocorreu o massacre, Stálin e Hitler tinham acabado de dividir entre si a Polônia, após a assinatura do infame Pacto de "não-agressão" entre os dois ditadores, em agosto de 1939. Esse é apenas um exemplo, entre tantos, de como as esquerdas se habituaram a distorcer a História para atender a seus próprios interesses.
Algum tempo atrás escrevi aqui que o clube mais numeroso que existe é o dos inimigos das ditaduras passadas e amigos das ditaduras presentes. Se essas são de esquerda, então, viram não amigos, mais militantes das mesmas. Este é exatamente o caso do juiz Baltazar Garzón.
por Gustavo Bezerra, no Blog do Contra
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
Plenarinho Comunista
Muito bem. Se você clicar aqui, terá acesso á homepage do que candidamente eles chamam de “plenarinho” — a falta de imaginação dos adultos faz com que tudo o que diga respeito a crianças esteja sempre no diminutivo. Sigamos.
Logo de cara, temos acesso a um link com o sugestivo nome de “Capitalismo, um sistema racional”. A imagem sobre a qual há tal inscrição não anima muito: maços de dinheiro. Se você clicar aqui, chegará lá.
E damos de cara, então, com essa pérola, redigida, segundo eles, com informações do Portal Terra e da USP — que USP? De todo modo, combina... Mas vamos lá: “Você já teve aquela figurinha mais difícil de conseguir e trocou por várias? Se já fez isso alguma vez, então você é um capitalista nato! Você foi atrás de um lucro. A essência do Capitalismo é conseguir o máximo com o mínimo, explica o historiador Erivan Raposo".
Erivan Raposo? Quem é esse? Nunca ouvi falar. Depois de um apanhado monumental de bobagens sobre o capitalismo, lemos então: “O filósofo Karl Marx, o criador do comunismo, foi o mais duro crítico do capitalismo. Ele defendia que toda a produção deveria ser feita por e para todos. Ele não gostava nada da idéia de a classe burguesa, por ser dona das fábricas e equipamentos, ter o direito de explorar os trabalhadores, pagando pouco dinheiro a eles.”
Mas ainda é pouco, leitor. Exagerou ontem no Blue Label, no Romanée-Conti, mesmo não sendo um petista? Se o fez, cuidado com o que vem agora. O “Plenarinho” resolveu explicar para as crianças o que é o Comunismo. A imagem acima, da feliz família comunista, está no site. Destaco os trechos mais relevantes, que o site diz terem sido redigidos com informações do comunismo.br, do UOL e do Terra. Atenção:- Já pensou em viver num país onde todos tenham tudo de forma igual? Esse é o objetivo do comunismo, um sistema de organização política e econômica que surgiu como oposição ao capitalismo.
- No comunismo, o objetivo não é o lucro, e sim o bem-estar geral. Cada pessoa só vai possuir o necessário para viver bem. E se, por acaso, uma fábrica produzir muito e gerar lucro, o dinheiro deve ser dividido para a população de acordo com a necessidade de cada um.
- O comunismo acredita que nenhum homem deve servir a outro homem. Por isso, eles pregam o fim do estado. A sociedade funcionaria baseada na solidariedade e na igualdade, sem divisão entre ricos ou pobres. As pessoas seriam mais conscientes e não precisariam de alguém para dizer o que fazer.
- De acordo com o cientista político Octaciano Nogueira, da Universidade de Brasília (UnB), atualmente, existem no mundo quatro países comunistas: Coréia do Norte, Vietnã, China e Cuba. Esse último é o único país fora da Ásia que mantém um regime comunista.
Logo, seguindo a lógica no texto, Coréia do Norte, Vietnã, Cuba e China atingiram o estado nirvânico do bem-estar geral, onde nenhum homem é servil a outro homem (na verdade, no comunismo, o homem não explora o homem: acontece o contrário...). A Coréia comunista já praticou canibalismo por causa da fome. Canibalismo comunitário, é claro.
Não, nem vou aqui comentar o que foi o comunismo real ao longo da história. Ninguém visita essa porcaria, é claro. Imaginem se as crianças vão utilizar este site como fonte de pesquisa. O que me causa uma espécie de ácida melancolia é ver como as esquerdas aparelham tudo: até site infantil da Câmara dos Deputados. Fosse só isso... Já chegou em casa meio de porre, leitor, e, indeciso entre a cama e a humilhação diante do vaso, ficou vendo Telecurso 2º Grau ou Tecendo o Saber, programas financiados por empresas privadas? Sim, os comunas estão sempre presentes, com suas sugestões oblíquas anticapitalistas...
Pra quê? Pra nada! Acontece que a contaminação esquerdopata até dessas áreas que pouca influência têm na formação das pessoas revela, aí, sim, um grave problema: a doutrinação vigente nas escolas, sejam as públicas, sejam as particulares. VEJA já fez reportagem a respeito. Os pais pouco podem fazer porque o "mestre" esquerdofrênico logo diria que está tendo tolhida a sua “liberdade”. Ele exige a liberdade de mentir, de distorcer, de molestar intelectualmente as crianças. Alguns pais e professores corajosos resolveram se organizar numa entidade chamada Escola Sem Partido.
Alguns indagarão: “Reinaldo, que importância tem isso?” Em si, bem pouca. Ocorre que, reitero, é só a evidência da doença chegando mesmo aos arrabaldes da informação. O centro, que é a escola, já foi tomado.
Em nome das 70 milhões de pessoas assassinadas por Mao Tse-Tung, das 35 milhões de vítimas de Stálin e dos 3 milhões de massacrados por Pol Pot, entre milhões de outros, a direção da Câmara deveria ter vergonha na cara e tirar essa infâmia do ar. O site não precisa nem mesmo defender a democracia, que é o regime que garante a sua existência. Basta não mentir.
por Reinaldo Azevedo, na Veja On-Line
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Índio Não Quer Mais Apito
É isso mesmo: há um novo conflito à vista entre índios e arrozeiros nos confins do Estado de Roraima.Não há nada mais tedioso do que esses recorrentes confrontos.
Primeiro, porque Roraima continua um território economicamente irrelevante.
Segundo, porque o Estado em questão dista alguns milhares de quilômetros de qualquer centro urbano que nutra a pretensão de vir a ser importante - alô, presidente Lula, o onipresente Bolsa-Família já chegou àquelas plagas?
Terceiro, porque a população indígena, no Brasil, é rarefeita - quase inexistente -, ao contrário dos indigenistas (destes existe um a cada esquina, todos falando um inglês impecável).
E, finalmente, quarto, porque ninguém sabe ao certo a quem cabe a razão nessas desinteligências.
O que deu para se apurar, de certo, até o presente momento, é o seguinte: existe, em matéria de índios, duas tendências mais ou menos claras.
Uma, a daqueles que defendem a volta pura e simples dos "selvagens" à natureza. (Conjugam-se os verbos aqui no futuro do pretérito: ninguém é autoridade inconteste para ditar regras sobre como se daria essa "volta ao campo", da mesma forma que ninguém minimamente sério ousaria garantir que essa gente toda, uma vez de volta à vida campestre, teria um comportamento toleravelmente harmonioso, que é o que se espera de silvícolas de índole rousseauniana.)
Na outra margem do rio - tão belicosos quanto os primeiros - existem aqueles que acreditam que jamais um índio que tenha tomado contato com os "civilizados" reúna condições mínimas para estabelecer um pacto indígena satisfatório.
Em comum, as duas tendências só comungam em duas convicções: a de que os "ex-selvagens" deveriam ser intransigentemente protegidos pelo governo da União e a de que essa "proteção" deveria consumar-se da velha e eficiente forma criada pelos fenícios - ou seja, por meio do vil metal.
Argumentos não faltam a essa briosa gente: o principal deles gira em torno da forma perversa como os indígenas foram apartados da mãe natureza: eles, ao que se sabe, não tiveram escolha. Devem, por conseqüência, ser, agora, devidamente reparados. E não será com um ridículo "bolsa-esmola", não, porque esses passivos seriam milhares de vezes maiores.
Entre essas duas correntes, vem ganhando cada vez mais força uma terceira, aparentemente mais conciliadora, que nasceu, ao que se sabe, da própria cabeça dos silvícolas. Tanto faz quem espoliou quem. O que importa é o aqui e agora. O índio brasileiro é perfeitamente capaz de arrancar rumo ao desenvolvimento, desde que lhe sejam garantidas algumas modestas prerrogativas, dentre as quais pontifica o legítimo direito de explorar as suas terras da forma que bem entenderem. Entenda-se, aqui, o monopólio da lavra dos recursos minerais, a livre exploração da floresta, bem como a dos seus frutos. Caso se mostre inviável este aproveitamento, os índios seriam figuras jurídicas aptas a subcontratar empresas que o façam.
Esta fórmula claudica pelo fato de que as terras ditas indígenas representam nada menos do que 15% do território nacional, o que, na prática, inverte a equação: pobres e desvalidos passariam a ser os chamados "brancos", que nem sonham em gozar de tais prerrogativas. Os "brancos", na prática, são a gata borralheira da história. Não possuindo tais privilégios extrativistas e contando apenas com a sua disposição para o trabalho, tudo o que mais desejam é a garantia de terras para trabalhar. Ser índio, no Brasil, revela-se, assim, um bom negócio.
Embora correndo o risco de parecer "politicamente incorreto", não me poderia omitir quanto às minhas simpatias pelos pleitos e aspirações das causas dos "brancos".
Só não vê quem não quer: os indígenas, na prática, já usufruem as prerrogativas que pleiteiam no papel. Com a vantagem adicional de estarem permanentemente em foco na imprensa internacional e contarem com a incondicional simpatia desta.
Todos os dias, na mídia, encontram-se notícias de extravagâncias realizadas pelos herdeiros de Peri, tais como fretamento de jatos executivos, aluguel de andares inteiros nos hotéis das maiores cidades e dispêndio de fortunas com a contratação dos serviços profissionais de competentes rameiras (índio também gosta disso). Por outro lado, não se ouve falar de gastos nababescos realizados pelos espartanos "brancos". Parece que o dinheiro é curto na seara dos "caras-pálidas". E parece que nascer índio é realmente um excelente negócio no Brasil, somente suplantado pela condição de viver como índio. Consta que os "brancos", quando morrem, não sonham com paraísos. Tudo o que almejam é, nas próximas encarnações, voltar para o mundo como legítimos indígenas.
Não sou adepto da escola dos "politicamente corretos" e tampouco rezo pelo catecismo do clero progressista. Não tenho, portanto, obrigações com corrente ideológica alguma. É por essas razões que não tenho nenhum constrangimento em manifestar a minha simpatia irrestrita pela causa dos "brancos". Eles só querem trabalhar. Meu Deus, será que, em tempos petistas, até isso virou pecado?
João Mellão Neto, jornalista, deputado estadual, foi deputado federal, secretário e ministro de Estado
terça-feira, 2 de setembro de 2008
O Projeto Orvil - Iniciando a Difusão
Com a chegada ao Brasil dos primeiros banidos e auto-exilados, à época da Anistia, a História começou a ser reescrita. Com os direitos políticos readquiridos, muitos voltaram a seus cargos, outros foram acolhidos por governos simpatizantes e outros ingressaram em partidos políticos recém fundados.
Aos poucos, a maioria dos “perseguidos políticos” ocupava cargos públicos, setores da mídia e universidades. Bons formadores de opinião, passaram a usar novas técnicas na batalha pela tomada do poder e pela tentativa de desmoralização das Forças Armadas.
A esquerda revanchista passou a descrever e a mostrar, da forma que lhe convinha, a luta armada no Brasil.
E o fez de maneira capciosa, invertendo, criando e deturpando fatos, enaltecendo terroristas, falseando a história, achincalhando as Forças Armadas e expondo à execração pública aqueles que, cumprindo com o dever, lutaram contra a subversão e o terrorismo em defesa da Nação e do Estado.
Passou a predominar no País a versão dos derrotados, que agiam livremente, sem qualquer contestação. As Forças Armadas, disciplinadas, se mantiveram mudas.
Aos poucos, a farsa dos revanchistas começou a ser aceita como “verdade” pelos que não viveram a época da luta armada e do terrorismo e que passaram a acreditar na versão que lhes era imposta pelos meios de comunicação social.
No segundo semestre de 1985, em razão das acusações formuladas no livro Brasil: Nunca Mais e pelas suas repercussões na mídia, a Seção de Informações do Centro de Informações do Exército (CIE) - atual Divisão de Inteligência do Centro de Inteligência do Exército - recebeu a missão de empregar os seus analistas - além de suas funções e encargos normais -, na realização de uma pesquisa histórica, considerando o período que abarcasse os antecedentes imediatos da Contra-Revolução de 31 de março de 1964, até a derrota e o desmantelamento das organizações e partidos que utilizaram a luta armada como instrumento de tomada do poder.
As pesquisas iniciais, realizadas ainda em 1985, mostraram, com clareza, que o trabalho ficaria incompleto e, até mesmo, impreciso historicamente, se fosse cumprido o planejamento inicialmente estabelecido. Assim, ampliou-se, no tempo e no espaço os limites físicos e cronológicos da pesquisa, retroagindo-se a Marx e Engels, passando pelos pólos irradiadores do Movimento Comunista Internacional e pela história do PCdoB – desde a sua criação em 1922 com a denominação de Partido Comunista do Brasil/Seção Brasileira da Internacional Comunista -, prolongando-se até a primeira metade da década de 1980.
Foi um trabalho minucioso, realizado em equipe, em que, inicialmente, os documentos existentes àquela época no CIE foram estudados, analisados e debatidos, conduzindo a novas indagações e a novos interesses. Com isso, as pesquisas foram ampliadas significativamente, incluindo processos, inquéritos, depoimentos de próprio punho de presos, jornais, revistas, gravações de programas de televisão, entrevistas, uma extensa bibliografia nacional e estrangeira e, até, alguns livros de ex-militantes da luta armada, que contribuíram para a elaboração desse livro, diferentemente do trabalho da equipe de D. Paulo Evaristo Arns que, para o livro “Brasil Nunca Mais”, pesquisou os processos e os inquéritos disponíveis na Justiça Militar, de onde extraiu, apenas, o que interessava, desde que fossem acusações e críticas aos militares e civis que os combateram e os derrotaram.
Visando a resguardar o caráter confidencial da pesquisa e a elaboração da obra, foi designada uma palavra-código para se referir ao projeto - Orvil -, livro escrito de forma invertida.
Em fins de 1987, o texto, de aproximadamente mil páginas, estava pronto.
A obra recebeu a denominação de “Tentativas de Tomada do Poder” e foi classificada como “Reservado”, grau de sigilo válido até que o livro fosse publicado oficialmente ou que ultrapassasse o período previsto na lei para torná-lo ostensivo.
Concluída e apresentada ao ministro do Exército, General Ex Leônidas Pires Gonçalves, este não autorizou a sua publicação - que seria a palavra oficial do Exército -, sob a alegação de que a conjuntura política não era oportuna, que o momento era de concórdia, conciliação, harmonia e desarmamento de espíritos e não de confronto, de acusações e de desunião.
Assim, a instituição permaneceu muda e a farsa dos revanchistas continuou, livre e solta, a inundar o País.
Muitos militares, considerando que a classificação sigilosa “Reservado” já ultrapassara o sigilo imposto pela lei e dispostos a divulgar o livro, resolveram copiá-lo e difundi-lo nos últimos 12 anos, na expectativa de que um número cada vez maior de leitores tomasse conhecimento de seu conteúdo.
Milhares de exemplares foram distribuídos a amigos, em corrente, e alguns exemplares foram entregues a jornalistas. Nós também recebemos um e nossos visitantes têm nos cobrado, permanentemente, a difusão do mesmo. Hoje, até órgãos do governo o possuem. Não o difundem porque a eles não interessa a divulgação do que ele contém.
Em abril de 2007, o Diário de Minas e o Correio Braziliense publicaram, por vários dias, extensa matéria sob o título “Livro Secreto do Exército é revelado”, em que abordaram, de forma irresponsável e panfletária, alguns aspectos que mais lhes interessavam sobre o livro. Logo em seguida, os telejornais fizeram coro à campanha.
Um procurador, mais afoito e atirado, afirmou que os militares sonegam dados sobre os desaparecidos. E de repente, não mais que de repente, o assunto bombástico desapareceu da mídia, como sempre. Os críticos do livro se recolheram, deixando no ar algumas meias verdades e muitas mentiras.
Assediado pela imprensa, o General Leônidas confirmou a missão atribuída ao CIE de elaborar o livro em 1985 e a decisão de não publicá-lo em 1988, em nome da concórdia, do desarmamento de espírito e da pacificação nacional, como o fora em 1979 a “Lei da Anistia”.
Em 29/08/2007, a Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República lançou, no Palácio do Planalto, em badalada cerimônia, que contou com a presença do presidente Lula, o livro “Direito à Memória e à Verdade”, praticamente uma cópia do livro “Os Filhos Deste Solo” de Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio. Para os autores desses dois livros, os crimes praticados pelos militantes da luta armada, simplesmente, não existiram. São ”heróis” que precisam ser permanentemente homenageados.
No texto de uma matéria publicada no Correio Braziliense de 31/08/07, o articulista Lucas Figueiredo estabeleceu um ponto de contato, um elo de integração entre o livro “Direito à Memória e a Verdade” e o livro do CIE “As Tentativas de Tomada do Poder”, quando afirmou: “a versão oficial do Exército sobre a morte de desaparecidos políticos é incorporada à história formal do período militar – Livro secreto agora é oficial”, como se o Orvil desse credibilidade às versões publicadas no livro” Direito à Memória e a Verdade”.
E em 31/08/2008, o mesmo Paulo Vanucchi e o Sinistro da Justiça, Falso Gênero, num evento no Ministério chamado "Limites e Possibilidades para Responsabilização Jurídica dos Agentes Violadores de Direitos Humanos durante o Estado de Exceção no Brasil", defenderam a reavaliação da Lei da Anistia para que se punissem os torturadores da época da ditadura.
Em razão de uma afirmação descabida, desonesta e mal intencionada e para que os leitores possam comparar, avaliar e concluir, resolvi divulgar o “Projeto Orvil” no blog, para consulta livre e gratuita, a fim de mostrar aos leitores que o livro não é secreto e nada tem a esconder, pelo contrário, ele mostra tudo aquilo que a esquerda não quer que o Brasil conheça.
Lula: o Boca do Inferno
No último de quatro comícios dos quais participou no final de semana em São Paulo e no ABC paulista, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou o palanque para comemorar a popularidade de seu governo. Três anos depois da eclosão do escândalo do mensalão, Lula lembrou a maior crise política vivida desde que chegou ao Palácio do Planalto e rebateu ataques recebidos em 2005 de partidos que hoje concorrem com o PT na disputa municipal.Num discurso de aproximadamente 40 minutos em Santo André, onde o PT disputa a prefeitura com o deputado estadual Vanderlei Siraque, o presidente centrou fogo no PSDB e no PFL. De acordo com ele, as duas legendas estavam por trás das "bravatas" feitas durante a crise do mensalão.
"Em 2005, veio a guerra contra o PT. Vocês sabem o que nós passamos, vocês sabem as infâmias, as leviandades", disse Lula, para uma platéia de aproximadamente 4 mil pessoas, segundo estimativa da Polícia Militar. "Vocês sabem quantos companheiros nossos foram crucificados antecipadamente", completou. Além disso, disse o presidente, seu partido chegou a ser "acusado de ter matado" o prefeito Celso Daniel, morto em 2002.
Lula contrapôs as críticas recebidas em 2005 à atual popularidade de seu governo. A última pesquisa Ibope, encomendada pelo Estado e pela TV Globo, apontou que 31% dos paulistanos votariam no candidato indicado pelo presidente nas eleições municipais deste ano. "Hoje eu estou prazerosamente feliz. Porque, depois de apanhar por cinco anos, eu vejo na própria imprensa que me bate o sucesso da credibilidade do governo na opinião pública do País", disse o presidente.
Ainda em uma referência à crise atravessada em 2005, Lula disse ter pensado na época que lhe restava apenas ter "paciência". "Eu olhava do lado de lá e quem é que estava nos acusando? Quem é que estava nos denunciando? Não era ninguém melhor do que nós, não era o povo. Era a oligarquia política que governava este País há 500 anos", disse o presidente.
Ele contou que, então, disse à primeira dama Marisa Letícia: "Não vou ficar dentro de casa ouvindo eles me xingarem. Não vou ficar ouvindo as bravatas do PFL e do PSDB"(...).
por Clarissa Oliveira, em 01/09/2008, no Estadão
Vamos de Gregório de Matos, o Boca do Inferno, de que todos vocês tiveram notícia no primeiro ano do secundário ou no cursinho:
O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo.
No domingo, em Santo André, Luiz Inácio Lula da Silva negou que o mensalão tenha existido e atribuiu tudo a uma conspiração das oposições contra o seu governo. Assim, esqueçam todas aquelas calúnias levantadas contra moralistas como Delúbio Soares, Marcos Valério, José Genoino e até aquele rapaz da cueca que funcionava como casa de câmbio, vocês se lembram, recheada de dólares. Nada daquilo existiu. Se a oposição conspirou, como todos sabem, foi para mantê-lo no cargo... Um pouco mais de psicologia e menos de sociologia no processo, e se saberia que um Lula que permanecesse no cargo voltaria à tona abraçado a seu rancor. Bingo! Mas isso não importa agora.
Quero me fixar no presidente que tem a coragem de negar a existência do mensalão em plena Santo André, a cidade que criou o software do jeito petista de governar. Foi ali que a serpente começou a desenvolver o seu ovo. Pesquisem na Internet as investigações conduzidas pelo Ministério Público na cidade e a indústria de extorsão ali instalada para cobrar comissão de empresários de ônibus. Curiosamente, Lula atribuiu à oposição a acusação de que o PT matou Celso Daniel. Errado! A polícia civil, com um tucano à frente do governo, concluiu que não foi crime político e atribuiu a coincidências o fato de que Celso foi apenas um entre oito cadáveres ligados diretamente ao caso. A oposição, se atuou, ajudou Lula. Mais uma vez!!! Quem sustenta que o prefeito foi vítima de um acerto de contas partidário são dois de seus irmãos — um deles é ex-militante do PT, casado com Marilena Nakano, que foi secretária de Educaçao da primeira gestão petista na cidade e de sólidas credenciais esquerdistas. Irmãos e familiares têm hoje de viver escondidos. Mas sigamos.
Adapto só o primeiro verso da segunda estrofe do poema de Gregório:
Em todo o lulismo está o PT todo
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica o todo.
O Lula que nega em palanque, com um discurso rancoroso, de revanche — contra quem? —, até a existência do mensalão é o chefe do governo em que Polícia Federal e Abin conspiram abertamente contra as garantias constitucionais. Órgãos de segurança do estado completamente fora de controle e da agenda democrática são compatíveis com um chefe de governo e de estado que reescreve a história de forma tão desavergonhada. Não, não esperava de Lula que, sobre o palanque, fizesse um mea-culpa, admitindo que seu partido deu-se à mais desbragada lambança. Mas que, ao menos, tivesse o decoro de silenciar a respeito e de tratar de outros assuntos.
Lula não dá a menor pelota para as instituições. Nunca deu. Outro qualquer, sabendo que há no Supremo 39 processados por aquele escândalo, a maioria gente que pertenceu ao primeiro escalâo do governo e do PT, preferiria silenciar a respeito. Mas não ele. Acredita que sua popularidade lhe dá licença para fazer essas lambanças.
Assim, não há qualquer surpresa na fala do presidente ou no destrambelhamento do aparelho policial do estado. Eles são absolutamente compatíveis. Sigo com minha adaptação:
O braço do PT não seja parte,
Pois que feito o PT em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.
Não se sabendo parte deste todo,
Um grampo, que lhe acharam, sendo parte,
Nos disse as partes todas deste todo.
por Reinaldo Azevedo, em seu blog
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Melindres Inócuos
Segundo a revista, o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, deve apresentar no próximo mês ao Supremo Tribunal Federal (STF) o resultado de ampla investigação feita pela Polícia Federal na Operação João-de-Barro. Nas quase dez mil páginas do documento acusatório, dinamite em estado puro, são incriminados, além de Romênio Pereira, o lobista mineiro João Carlos Carvalho, empreiteiros, funcionários públicos ocupantes de cargos estratégicos e dezenas de prefeitos e deputados federais, entre eles João Magalhães (PMDB-MG), todos envolvidos num esquema de manipulação de verbas bilionárias destinadas aos municípios para o financiamento de obras públicas.
O secretário nacional do PT, conhecido no submundo da política como o “Rei dos Grotões” devido ao livre trânsito nas prefeituras petistas do interior, é apontado no documento como o elo entre lobistas, prefeitos, parlamentares e burocratas ministeriais do governo Lula. Já o deputado João Guimarães, que está sendo investigado pela Corregedoria da Câmara, é expressamente apontado como um dos líderes da quadrilha. Embora a revista associe o esquema fraudulento em pauta ao dos Anões do Orçamento, ocorrido durante a vigência do governo Itamar Franco, o modus operandi do desvio de verbas não deixa de imitar, estruturalmente, o já posto em prática em tantos outros golpes pelo bando “transformador”: “Primeiro, o deputado indicava os municípios e os valores para liberação de verbas, utilizando emendas do orçamento de sua autoria ou de terceiros. Feito isso, a quadrilha passava para uma segunda etapa do crime, que era a da assinatura dos convênios. Nesse momento, a elaboração do projeto ficava a cargo de João Carlos Carvalho, que também se encarregava de acompanhar sua aprovação. Quando o empenho (das licitações aprovadas) era assinado, o prefeito pagava um percentual (entre 10% e 12%) para o lobista” e sequazes.
Nesta armação, o papel desempenhado pelo secretário geral do PT seria, nas palavras do procurador-geral, o de “viabilizar politicamente, perante os Ministérios e outros órgãos federais, a rápida assinatura dos convênios e a destinação dos recursos aos municípios”.
Quase que reproduzindo a denúncia passada do escândalo do Mensalão, que tinha o deputado José Genoino, o ex-tesoureiro petista Delúbio Soares e o mineiro Marcos Valério como astros principais, o Ministério Público assim sintetiza as evidências das provas levantadas pela Polícia Federal: “O esquema, inicialmente montado com a participação de um número limitado de pessoas e empresas, cresceu em complexidade e organização”. Nele, “a execução do delituoso passou a ser feita por grupos organizados, nos moldes de verdadeiras organizações criminosas, unidos para a consecução do objetivo comum de promover o desvio de recursos federais destinados aos municípios para o financiamento de obras públicas”.
Parte do ervanário do novo propinoduto, suspeita-se, foi para o malote de João Carlos Carvalho que, segundo IstoÉ, ficou milionário com o esquema criminoso que funcionava na Esplanada dos Ministérios, a ponto do lobista adquirir em Belo Horizonte apartamento de R$ 2 milhões onde se mantinham, em almoços supimpas, os “encontros negociais”. A outra parte, a maior, presume-se, tal como caso do propinoduto operado por Marcos Valério e Delúbio Soares, teria avolumado o saco sem fundo da corrupção eleitoral, uma prática comprovada do modo como os antigos dirigentes do PT travavam suas porfias políticas e parlamentares.
Diante da acusação do MP de que faria parte de uma organização criminosa cujo objetivo principal seria o de desviar dinheiro dos cofres públicos, o secretário de Assuntos Institucionais do PT se licenciou do cargo. Em nota, ele se explicou assim: “Para melhor conhecer o teor daquilo que me acusam e poder exercer com tranqüilidade meu pleno direito de defesa, estou requisitando uma licença de 60 dias de minhas funções na Executiva Nacional do PT, na expectativa de que as investigações se concluam rapidamente e demonstrem a absoluta falta de procedência das acusações”.
Na sua nota justificativa, 100% maneirosa, o companheiro Romênio Pereira não precisava exagerar. Por tradição, no governo petista, nenhum inquérito dura menos de cinco anos, sobrelevado o fato de que, mesmo concluídos - se concluídos –, ninguém chega a encarar efetivamente às barras da prisão. Neste sentido, o próprio Ricardo Berzoíni, presidente do PT, reportando-se à questionada acusação de desvio de verbas pelo secretário nacional, assegurou com todas as letras que “o partido não tem condições de fazer nenhuma investigação interna”. O leitor quer resposta mais explícita?
É que na moral comunista o roubo é apenas um instrumento para se chegar ou manter o poder revolucionário. O próprio Lenin, nunca é demais assinalar, com tal finalidade, incentivava não apenas “as apropriações públicas e privadas”, como a prática sistemática de fraudes, atentados, chantagens, suborno, falsificações de documentos e, sobretudo, assassinatos em profusão. Não há, portanto, motivo para melindres inócuos.
por Ipojuca Pontes, em 01 de setembro de 2008, no Mídia Sem Máscara
Fragmentos de Socialismo
“Cubanos comuns”, ou “cubanos a pé”, são expressões que se ouvem vezes sem conta nas ruas de Havana. É assim que as pessoas destituídas de privilégios descrevem a si próprias. Os demais são os “hijos de papá”, uma categoria que abrange todos os que, em virtude de relações especiais próximas ou distantes com o partido único, têm acesso regular e legal ao CUC. Peso cubano convertible, CUC, é o pote de ouro no fim do arco-íris. A caça ao CUC converteu-se no esporte nacional cubano. Tê-los significa um pouco de cidadania, expressa sob as formas de sabonete, desodorante, perfume, tênis, carne de vaca, gasolina, um celular “pai-de-santo”, a oportunidade fugaz de navegar na internet. Não tê-los significa vegetar no limbo do peso cubano, a moeda oficial regular, que é a moeda de mentira.
Juan e Clara, como os batizo agora, abordaram-me numa rua da zona limítrofe entre Havana Velha e Havana Central. Conversamos, caminhando rápido, transgredindo a regra que proíbe “cubanos comuns” de interagir com estrangeiros. Minutos depois, dois rapazes de azul, policiais adolescentes com salários bem superiores aos de médicos, restabeleceram a ordem. O casal de cubanos teve que apresentar documentos e Juan foi convidado a acompanhá-los à delegacia próxima. Fui junto, apresentei-me como um amigo de anos, inscreveram nossos nomes num livro velho de ocorrências. Democracias administram as coisas. Ditaduras totalitárias só administram os espíritos. Havana Central verga sob a sujeira e um odor entranhado de urina.
Solís é professora primária e dá aulas particulares - ilegalmente. É essa sua forma de acesso precário ao CUC. O CUC vale cerca de 20% mais que o dólar e funciona como ponte entre Cuba e a economia internacional. A presença da moeda almejada aumenta com o crescimento do turismo e das remessas de cubano-americanos para seus familiares na ilha. Um CUC vale 24 pesos cubanos, a moeda interna, desprezada. Um professor primário ganha algo em torno de 15 CUCs mensais. Um médico, cerca de 20. Tudo que ultrapassa o limite estrito da sobrevivência é vendido apenas em pesos convertibles. Na África do Sul da minoria branca, o sistema do apartheid separava as pessoas segundo a “raça”. Na Cuba do desmantelamento do socialismo real, estabeleceu-se um apartheid monetário.
A palavra apartheid chegou às ruas de Havana. Talvez tenha sido difundida pelos corajosos blogueiros que desenham pátios virtuais de debates num país acostumado há meio século a ouvir apenas as vozes de Fidel Castro e seus bonecos de ventríloquo do partido comunista. O portal desdecuba.com abriga a revista web Contodos e uma série de blogs pessoais, dos editores da revista, que residem na ilha e se apresentam com seus nomes próprios. Entre eles, a blogueira célebre é Yoani Sánchez, que ganhou o prêmio espanhol Ortega y Gasset de jornalismo digital mas foi impedida de viajar para recebê-lo.Fidel Castro, pela primeira vez na história, referiu-se a um dissidente ao acusar Yoani, no prefácio de um livro, de “jogar água no moinho do imperialismo”. Uma resposta desmoralizante saiu no blog do jornalista Reinaldo Escobar, da equipe da Contodos. Ele escreveu: “A responsabilidade que implica receber um prêmio nunca será comparável à de outorgá-lo e Yoani, ao menos, nunca colocou uma condecoração no peito de nenhum corrupto, traidor, ditador ou assassino”. E concluiu: “Faço esse esclarecimento porque recordo perfeitamente que foi o autor dessas reprimendas quem colocou (ou mandou colocar) a Ordem de José Martí nas mais nefastas e imerecedoras figuras possíveis: Leonid Ilich Brejnev, Nicolae Ceausescu, Todor Jukov, Gustav Husak, Janos Kadar, Mengistu Haile Mariam, Robert Mugabe, Heng Samrin, Erich Honecker e outros que esqueci”.
A crítica não está apenas nos novos blogs, mas nas ruas, nas conversas cotidianas, e naquilo que dizem os cubanos que, por força da função, estão autorizados a falar com estrangeiros. A reforma da previdência, anunciada numa primeira página de uma edição de julho do Granma, o jornal do partido único, elevará a idade de aposentadoria. Na justificativa oficial, Cuba acompanha as tendências mundiais, que decorrem da dinâmica de envelhecimento da população. “Passamos décadas dizendo que não reproduziríamos as reformas previdenciárias dos outros países. Agora, fazemos exatamente isso. É como tudo mais: perdemos meio século falando mal dos outros e ficamos para trás. Aqui não se produz nada, só se fala.” O motorista de táxi, que batizo Pérez, opera nos circuitos de hotéis e tem algum acesso ao CUC. Não é, nem de longe, um dissidente. Mas ele aponta os campos abandonados do interior, onde se cultivava cana antes do colapso da indústria açucareira cubana, e ironiza a “reforma agrária” anunciada junto com as mudanças na previdência. “As pessoas se mudaram para as cidades. Raúl Castro imagina que alguém voltará para o campo para cultivar as terras ociosas, onde não há nem luz elétrica?”
“Cuba é o país da propina.” A definição, do guia Rodolfo, outro nome fictício, não tem nenhuma intenção crítica. Rodolfo conduz passeios de jet-ski na laguna de Varadero e tudo que quer é a gorjeta do grupo de turistas ao final do passeio, na hora em que, literalmente, ele passa o boné. A “propina” é a renda verdadeira, em pesos convertibles, de todos os que trabalham num setor turístico em plena expansão. Engenheiros, historiadores, enfermeiras, psicólogas, professores - todos que podem trocam suas profissões por um lugar qualquer, de motorista, guia ou camareira, no almejado setor turístico. Mas não basta querer: é preciso ter contatos. A conquista de um emprego na esfera do CUC depende de indicações políticas diretas ou indiretas, não de qualificações. O preço real de todos os serviços nessa esfera abrange a onipresente e quase inevitável propina.
Os cubanos ganham a vida depois do trabalho ou nos interstícios do trabalho. É a hora da propina, do bico ilegal em pesos convertibles, do desvio de charutos para o mercado clandestino das ruas. O trabalho não tem valor. Estudar não alarga horizontes. São essas as lições ensinadas todos os dias pela economia política da crise do socialismo.
Rodolfo, como tantos guias, ecoa ritualmente, por costume e inércia, fragmentos de uma cínica propaganda oficial. “Vocês não verão crianças descalças em Cuba.” Não as há, de fato, mas o subsídio governamental ao calçado infantil acabou para sempre há 18 anos. As crianças não andam descalças pois seus pais gastam o que não têm para calçá-las. Tênis e sapatos custam parcela maior dos salários do “cubano comum” que de um brasileiro pobre. “Aqui em Cuba, a escola é obrigatória. Nenhum pai pode deixar seu filho fora da escola.” No Brasil é igual, retruco, para espanto genuíno de Rodolfo, que “aprendeu” na cartilha midiática do regime que fora de Cuba imperam o analfabetismo, a miséria e a fome. “Todos têm acesso a hospitais e médicos gratuitos em Cuba.” Depois da declamação habitual, vêm os detalhes. Os serviços de excelência não são para “cubanos comuns”, mas para estrangeiros e para os círculos da burocracia comunista. A saúde popular cubana é um SUS em miniatura, com sua litania de equipamentos obsoletos, carência de leitos e filas intermináveis para consultas e operações. O agravante recente é a carência de médicos, que saem em missões de política externa na Venezuela e na Nicarágua. “Mas não podemos reclamar, pois é tudo de graça...” No Brasil, reclamamos.
Num país que criminaliza o intercâmbio de informação, proliferam os mitos conspiratórios. Camilo Cienfuegos, camarada de Fidel na Sierra Maestra, morreu num misterioso acidente aéreo em outubro de 1959, quando retornava de Camaguey, onde cumpriu a dolorosa missão de prender seu amigo revolucionário Hubert Matos, o comandante rebelde acusado de traição. Os destroços do avião jamais foram encontrados. A versão de que Fidel tramou a morte de Camilo, apenas uma hipótese histórica, circula como verdade indiscutível entre os “cubanos comuns”. Camilo é como quer ser chamado um estudante da Universidade de Havana que me convidou a pagar-lhe um “trago do Che” e, prudentemente, indicou o caminho do bar caminhando meia quadra à frente. Diante da curiosa mistura de cuba libre, mel e hortelã que serviria para amenizar a asma, ele identificou no episódio o início da degeneração dos castristas. “Aqui, todos trabalhamos compulsoriamente para Fidel.”
Nem tudo é ingenuidade. Encontra-se, entre os “cubanos comuns’, uma intuição política aguçada, que se manifesta especialmente quando se abordam as relações com os EUA. O bloqueio econômico americano funciona como álibi ideal para a ditadura dos Castros, explicam-me em encontros separados Camilo, Juan e Clara. O levantamento do bloqueio cancelaria o núcleo da argumentação governamental. Barack Obama fará isso? - indaga-me Camilo.
Internet, em Cuba, só em hotéis e lan houses. Uma hora custa seis CUCs. A imensa maioria dos cubanos nunca navegou na rede e poucos sabem da existência dos blogueiros independentes. Todos sabem da história de Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, narrada de acordo com a versão do regime, pelo Granma, junto com uma profusão de elogios ao governo brasileiro, que os capturou e deportou. “Lula é amigo de Fidel”, explicam os “cubanos comuns”, que continuam a enxergar os boxeadores como heróis nacionais e não escondem o desprezo pelo ato de covardia de Tarso Genro e Lula. O que eles não sabem, pois o Granma não informou, é que Lara fugiu de Cuba há semanas, numa lancha rápida contratada por promotores esportivos alemães.
Sair de Cuba pode ser uma aventura mesmo para turistas. Há um novo golpe na praça, aplicado pelos oficiais de imigração, preferencialmente contra idosos, no aeroporto José Martí. Um funcionário que verifica documentos subtrai o visto de entrada. O funcionário seguinte requisita o visto, constata o seu “extravio” e anuncia que, nessas condições, “é impossível sair de Cuba”. Seguem-se visitas estéreis a oficiais fardados e sugestões para que a vítima “procure melhor” o papelucho amarelo na carteira, onde repousa um tesouro em euros ou dólares. A tensão é mantida até depois da última chamada para embarque. Se o turista não entender a mensagem, o visto sumido acaba reaparecendo. Ninguém quer provocar incidentes diplomáticos. Cuba é só o país da “propina”.
por Demétrio Magnoli, sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP.
Entre a Liberdade e o Cabresto
Semana passada, o Banco Central divulgou a notícia de que o volume de crédito no país chegara a 37% do PIB, contra 22%, há seis anos. Tal notícia deveria ser comemorada, já que é notório o histórico baixo volume de crédito no país. Só para se ter uma idéia, nos EUA a relação entre o total de créditos e o PIB é de quase duas vezes, enquanto no Chile ele chega a 60%.
Mas, no lugar de comemorar, os urubus de plantão desandaram a vomitar idéias para frear o acesso do povão aos crediários. Sempre sob a surrada – e não menos arrogante – alegação de que a plebe ignara não tem capacidade e juízo para cuidar dos próprios interesses e administrar seus desejos e necessidades, não tardaram a aparecer inúmeras sugestões no sentido de que o governo deveria impor limites ao número de prestações postas à disposição dos consumidores (esses humanistas altruístas esquecem-se, é claro, de que quanto maior o número de parcelas, maior a possibilidade de o pobre adquirir alguns tipos de bens).
A síntese desse pensamento é a seguinte: as pessoas são incapazes de saber o que é melhor para elas e o governo deveria, portanto, protegê-las de seus próprios desejos, necessidades e ignorâncias, bem como da ganância e da esperteza de banqueiros e comerciantes. Somente o governo é sábio e os cidadãos são seres fracos, burros e sem juízo, que devem ser eternamente guiados pela mão para que não se machuquem.
Vejam, por exemplo, esta pérola, que encontrei no espaço de comentários de um blog freqüentado majoritariamente por gente de esquerda:
“Concordo que o nosso [sistema de] crédito é estúpido, mas muitas vezes me pego imaginando como é que as pessoas que podem não recorrer a esse expediente, continuam alimentando esse câncer. Não, não acho que isso seja ‘doença de brasileiro’. Basta olhar os EUA… Na verdade, a legislação precisa proteger as pessoas da sua própria cobiça e da esperteza alheia. Provavelmente é o que ocorre na Europa, que precisou de alguns séculos, guerras e alguns grandes pensadores e escritores. Poderíamos aprender a fazer isso mais cedo.”
Confesso que responder a esse tipo de bobagem me dá uma preguiça danada. Parece sempre que estou enxugando gelo. Mas, fazer o quê? Mãos à obra.
Como ensinou Milton Friedman, em seu fenomenal “Capitalism & Freedom”, o principal defeito dessas propostas é que, a pretexto de promover um suposto interesse geral, forçam os indivíduos a agir contra os próprios interesses. São medidas legais tão autoritárias quanto absurdas, pois pretendem proteger as pessoas de si mesmas – ou resolver supostos conflitos de interesse – não pelo estabelecimento de mecanismos para persuadir os homens a fazer opções diversas das originais, mas simplesmente forçando-os a agir contra o que seriam as suas escolhas se livremente pudessem optar. Em outras palavras, tais medidas simplesmente substituem os valores e desejos dos interessados pelos dos sábios e puros agentes públicos.
Além de essencialmente tirânico, essa visão está em frontal oposição com aquela que Adam Smith identificou como uma das mais fortes e criativas forças geradoras de prosperidade – a busca contínua e incessante de milhões de indivíduos em promover os respectivos interesses, vivendo suas vidas de acordo com os próprios valores e desejos. Não é outra a razão, também, porque esse tipo de política, ainda que muito bem intencionada, acaba surtindo efeitos opostos àqueles inicialmente desejados.
Malgrado toda a longa história das tiranias ao redor do mundo, a verdade é que os proponentes da liberdade e do livre mercado sempre estiveram na defensiva, especialmente em função da indefectível comparação entre o mundo real dos mercados – com todas as suas vicissitudes, injustiças e imperfeições – e o mundinho ideal que povoa os corações e as mentes de muita gente.
Em função desse ideal utópico, existe uma fortíssima tendência sociológica no sentido de se considerar quaisquer intervenções governamentais como boas e desejáveis, especialmente quando pretendem corrigir as famigeradas “falhas do mercado”. Tal inclinação para o intervencionismo, no entanto, desconsidera o fato de que, a exemplo do que ocorre com o mercado, o Estado é uma instituição humana e não um ser sobre-humano. Todas as ações e decisões oriundas dos governos são realizadas e determinadas também por indivíduos, os quais não necessariamente serão honestos, aptos, eficientes, desinteressados e livres de pressões externas.
O problema principal, portanto, não reside na nossa própria cobiça e na esperteza dos outros, como alega o comentarista acima mencionado. A questão está em como nos proteger da cobiça, da esperteza e dos demais vícios morais daqueles que fazem e executam as leis, monopolistas que são do uso da força.
Ademais, recorrendo à lição do grande F. V. Hayek, burocratas e políticos jamais poderão reproduzir toda a variedade e diversidade das ações individuais, mesmo porque não conhecem todas as informações, dispersas entre milhões e milhões de cabeças. Logo, ao estabelecer padrões uniformes e restringir o sistema de crédito ao consumidor, por exemplo, o governo irá, indubitavelmente, melhorar o padrão de vida de alguns poucos. No geral, porém, ele estará freando o progresso, pois substituirá a diversidade criativa pela uniformidade medíocre.
por João Luiz Mauad em 29 de agosto de 2008, no Mídia Sem MáscaraA Nova Era do Fürhurtum
Certamente, pois, uma pessoa tal como a acima descrita necessita de um acompanhamento especial. Não lhe serve uma escola comum. Escolas, por natureza, são assembléias da mediocridade: sempre se pautam pelas necessidades e possibilidades de uma maioria, isto é, da média, daí porque “medíocres”. A única forma de ensinar que pode desprezar a média é o ensino individualizado, razão pela qual poderíamos qualificá-lo como o melhor possível, sendo, porém, demasiado custoso.
Então, a forma economicamente viável de podermos oferecer um ensino especializado é permitir às instituições de ensino que tenham a liberdade de perseguir seus objetivos e desenvolverem seus métodos de ensino. Em uma escola livre de amarras pedagógicas estabelecidas desde fora, mas ao invés, desenvolvidas segundo a evolução de suas próprias experiências, a pessoa sobre a qual me referi acima encontrar-se-ia à vontade, em sintonia com educadores que perceberiam o seu ritmo e atenderiam a ele. Da mesmíssima forma, pessoas que possuem uma capacidade de aprender mais lenta ou de algum modo restrita, tal como ocorre com os portadores da síndrome de Down, ou os surdos e os cegos, também demandam um atendimento especializado.
Na verdade, absolutamente todas as pessoas demandam um atendimento que atenda mais especificamente às suas necessidades. Aliás, isto não ocorre somente com a educação, mas simplesmente com tudo à nossa volta. Preferimos um tipo de calçado porque ele é mais macio ou tem um desenho mais na moda; preferimos uma determinada pizzaria porque a pizza lá é feita daquele jeito especial que consideramos como sendo o melhor; escolhemos assim também o nosso carro ou a oficina que irá consertá-lo, segundo diferentes valores que priorizamos: qualidade do atendimento, variedade, preço, qualidade do produto, etc.
O que faz pensarmos que sub-dotados ou superdotados demandem um atendimento diferenciado é, pois, tão somente o fato de que eles se encontram nos extremos de uma amplitude que beira o infinito. De outra forma, nós os pais, estaríamos sempre contentes com o ensino que é ministrado nas escolas em que nossos filhos estudam, ou estaríamos sempre satisfeitos com o nosso médico, o nosso cabeleleiro ou o nosso mecânico. Porém, antes o contrário é verdadeiro: estamos sempre os avaliando e trocando nossas impressões com nossos parentes e amigos, sobre tal e qual médico ou professor, salão ou oficina, para sabermos se o que lhes pagamos está valendo a pena. Isto porque todos procuramos, dentro de nossas possibilidades, o melhor, frize-se, segundo o nosso julgamento.
Tais possibilidades de escolhas advém da liberdade que usufruímos em uma democracia, escolhas estas que incluem nos associarmos a este ou aquele grupo de pessoas para a finalidade de perseguirmos objetivos lícitos comuns.
Este, porém, não é o entendimento do Ministério da Educação. Sob um discurso ideologicamente fundado no marxismo, defende o igualitarismo irrestrito, e estipula as suas diretrizes segundo as quais, dentro em breve, instituições como as escolas mantidas pelas APAE perderão o status de escolas formais, e serão rebaixadas a escolas de ensino livre. Isto, na prática, significa que as crianças que hoje são atendidas por tais instituições serão forçadas a ingressarem nas escolas comuns. É a nova era do “Führurtum”, ou seja, o princípio do Füehrer: haverá uma única solução, tida como boa e adequada, e todas as outras serão consideradas más e inadequadas, e seus defensores punidos e perseguidos.
Pois, de acordo com a “Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva”, documento elaborado em janeiro de 2008 por um grupo de trabalho nomeado pelo Ministério da Educação, entidades praticamente centenárias, com todo o seu know-how adquirido, serão excluídas (este trocadilho se fez particularmente necessário) do processo educacional, bem como muitíssimo mais grave, também serão excluídos os pais destes jovens, eis que se verão obrigados a matricularem seus filhos em instituições da rede comum, sem chance de escolherem pelo que eles venham a considerar como sendo o melhor para seus filhos. Para o governo de índole comunista que agora se refestela no poder, os pais e as instituições tradicionalíssimas nada entendem de ensino especial, mas sim os seus barbudos de carteirinha, que agora vestindo-se com ternos comprados às custas de muito dinheiro proveniente dos impostos, desejam impor a todos o que eles entendem por ensino público “gratuito e de qualidade”.
Em todos os meus anos como administrador de recursos públicos, sempre concluí meus pareceres pela lisura das APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais); sempre seus estatutos estiveram em ordem; sempre esteve regular com o fisco e demais entidades às quais deve prestar contas; e sobretudo, sua atuação sempre foi notoriamente reconhecida pela sociedade.
Imagine o leitor, além disso, o quanto que as APAE, por exemplo, economizam de recursos da sociedade: com uma quantidade adequada de professores e de recursos materiais concentrados em suas instalações, poderá atender a uma população razoavelmente grande de alunos; agora pense quanto de recursos materiais e humanos deverão ser despendidos para cada escola pública ou particular comum para se adequarem às novas medidas, e apenas para – eventualmente – receber um ou outro aluno nas suas salas!
E já que estamos falando em economia e melhor uso de recursos, posso também dizer por mim mesmo que se uma instituição tal como a APAE vier a receber de mim um real que seja, fará o melhor uso possível e totalmente na busca de sua finalidade, dado que necessita de sua idoneidade para continuar a funcionar – e a continuar a receber auxílio por parte da população. O mesmo, porém, jamais poderá ser dito do Poder Público, pois, quando enfim o programa de educação inclusiva começar, terá início mais uma festa de criação de cargos comissionados, de concursos públicos fraudados, de licitações superfaturadas para a compra de equipamentos e livros de ensino especial e de infindas contendas políticas por poder, de modo que, se de cada real chegar ao aluno especial pelo menos um centavo dos impostos que todos pagamos, já me considerarei um cidadão satisfeito.
Pois, urge que você, que leu este artigo, protagonize a sua inconformidade com tal situação! entre em contato com a APAE mais próxima, e demonstre a sua reprovação ao cerceamento da liberdade que deseja nos impor o governo; entre em contato comigo ou com um dos sites em que este artigo for hospedado, e dê a sua opinião. É seu dever cívico! É seu dever moral! É seu dever para o seu próprio interesse, mesmo que você não tenha um filho especial, pois a próxima etapa igualitarista será acabar com as escolas mantidas por entidades religiosas, ou as escolas que, por qualquer motivo, não se enquadrarem no estabelecido pelo novo Fürhurtum! Reaja!
por Klauber Cristofen Pires, em 27 de Agosto de 2008, no Endireitar.org

