quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O Aumento da Desigualdade

Eu sempre tive muita dificuldade para entender o obsessivo foco da esquerda na questão da desigualdade "social" – leia-se material. Afinal de contas, qualquer um pode facilmente verificar que a riqueza não é um bolo fixo e estático, mas sim algo dinâmico. A riqueza precisa ser criada, e o seu nível absoluto pode aumentar para todos, através dos ganhos de produtividade oriundos da divisão de trabalho. Basta comparar a riqueza e o conforto material dos habitantes do antigo Império Romano com a vida de um americano médio de hoje. Qualquer indivíduo que desfruta de coisas como um carro, ar condicionado, microondas, celular e televisão, sem falar da enorme variedade de remédios disponíveis, vive muito melhor do que qualquer senhor medieval.

Portanto, parece evidente que o foco deveria estar voltado ao nível absoluto de riqueza. Se todos estão melhorando a qualidade de vida, o que importa se alguns poucos estão melhorando ainda mais, por mérito próprio? Se todos podem ter computador mais barato, por que ficar revoltado com os bilhões justos de Michael Dell? Se eu podia andar apenas de bicicleta antes, e agora posso ter um carro, devo ficar incomodado porque meu vizinho pode ter um carro ainda mais luxuoso? A obsessão na comparação entre ricos e pobres sempre me pareceu fruto da inveja, aquela mais anti-social das paixões. Como Adam Smith notou de forma brilhante, "a inveja é a paixão que vê com maligno desgosto a superioridade dos que realmente têm direito a toda a superioridade que possuem". Quantos jogam futebol como o Pelé? Quantos cantam como Pavarotti cantava? Então por que todos devem ter uma renda parecida? Eu sempre fui do time que admira o sucesso alheio, em vez de desejar que o vizinho quebre a perna, achando que assim eu posso andar melhor.

Dito isso, não deixa de ser curioso notar a discrepância entre os fins de maior igualdade material da esquerda, e os meios por ela pregados. A concentração de poder no governo sempre foi um convite à desigualdade material, e pelas formas mais injustas possíveis: as trocas de favores políticos, e não produtos demandados pelos consumidores. Normalmente, quanto mais cresce o governo, mais renda é concentrada. Vide Brasília, com a maior renda per capita do País, de longe. E eis que agora a OCDE divulga um relatório mostrando que a disparidade entre ricos e pobres cresceu significativamente desde 2000, principalmente em países como Canadá, Alemanha, Noruega e Finlândia, tidos como ícones do modelo de bem-estar social, onde o governo tem a função de combater a desigualdade material. Até quando a esquerda vai abraçar os fins e os meios errados?

por Rodrigo Constantino

Ambiente Mal Assombrado

Há por aí uma cambada de caras-de-pau que tem a ousadia de chamar esse verdadeiro pandemônio econômico em que vivemos de “Modelo Neoliberal”. E pior: há quem acredite nisso. Eu, que me satisfaço com pouco, ficarei contente no dia que o Brasil alcançar o estágio de país capitalista.

O
Banco Mundial divulgou este ano o sexto relatório sobre o ambiente de negócios no mundo, e o Brasil, para não perder o hábito, ficou perto das últimas colocações – mais precisamente, na 125ª posição, entre as 181 economias pesquisadas. Esse levantamento é baseado na análise quantitativa e qualitativa de 10 diferentes aspectos ligados ao ambiente institucional de negócios, com destaque para a burocracia envolvida na abertura e fechamento de empresas, licenciamentos governamentais, contratação de mão-de-obra – principalmente os encargos relacionados à admissão e demissão de pessoal –, registros de propriedade, acesso ao crédito, segurança jurídica dos empreendedores, pagamento de impostos (carga tributária e burocracia envolvida), facilidades (dificuldades) de comércio com o exterior e respeito aos contratos.

Muitos membros do governo petista – bem como o presidente Lula – têm reclamado dessas análises, alegando que elas não representam a realidade econômica do país e que se baseiam em dados defasados e/ou tendenciosos. Qualquer empresário que já arriscou abrir um negócio no Brasil, no entanto, sabe que os resultados encontrados pelo Banco Mundial, se não são exatos, estão muito próximos da realidade.

Tocar qualquer empreendimento em Pindorama é algo comparável a um filme de suspense e terror, em que uma multidão de fantasmas e vorazes monstros de toda espécie, comandados pelo funesto Leviatã, estão sempre à espreita, ansiosos para abocanhar a maior parte dos lucros e prontos a opor obstáculos de toda ordem no caminho dos intrépidos (talvez melhor fosse dizer estúpidos) empresários.

Exemplos abundam. Vejam o caso da Aquamare: a empresa, fundada por empreendedores brasileiros, patenteou um processo de purificação de água do mar, baseado em nanotecnologia, através do qual se consegue manter o controle dos sais minerais durante a dessalinização da água. Isso quer dizer que os cientistas produziram água mineral – rica em boro, cromo e germânio, elementos abundantes nos oceanos e dos quais o corpo humano necessita em pequenas quantidades – a partir da água do mar.

Para tornar possível a empreitada, foram investidos pelos sócios, de acordo com o jornal Valor Econômico, a quantia aproximada de US$ 2 milhões na pesquisa e desenvolvimento do produto, apelidado de “H2Ocean”. No início, o objetivo era comercializá-lo no Brasil, mas, infelizmente, o projeto teve que ser alterado, já que não foi possível vencer os fantasmas da burocracia tupiniquim e sua aversão a tudo o que diga respeito à inovação.

Em 2006, a empresa solicitou a licença para engarrafar e comercializar o produto no território nacional. O registro foi recusado sob a alegação de que não havia no país legislação específica sobre a matéria. Inconformados, os empresários fizeram uma segunda tentativa, pedindo esclarecimentos sobre o que deveria ser feito para resolver o problema. A resposta veio quatro meses depois, indicando – pasmem! – que a empresa deveria “importar” uma legislação sobre o assunto, ou seja, apresentar, “preferencialmente por intermédio de uma associação de classe, proposta de regulamentação para avaliação pela ANVISA”. Em resumo, eles deveriam fazer o trabalho da agência, uma vez que, provavelmente, deve faltar pessoal por lá para realizá-lo.

Como tempo é dinheiro, especialmente quando se tem um bom produto em mãos, a Aquamare resolveu alterar sua estratégia, e partiu em busca de novos mercados. A opção foi então os EUA. Perceba, amigo leitor, pelo testemunho de um dos sócios ao jornal, a diferença de tratamento, aqui e acolá: “O registro [nos EUA] da empresa saiu em três horas e a água foi analisada em 15 dias. Conseguimos resolver em três meses tudo o que não conseguimos aqui em quatro anos”. (E ainda há quem não saiba por que eles são ricos e nós somos pobres).

A comercialização da “H2Ocean” estava prevista para começar em agosto último, inicialmente em três estados norte-americanos – Flórida, Nova Jersey e Georgia. A fabricação para exportação ainda continua em Bertioga, no litoral sul de São Paulo, mas em breve a fábrica deverá ser desativada e transferida para os EUA. Evidentemente, eles já perceberam que é muito mais fácil, barato e, conseqüentemente, lucrativo fazer tudo por lá.

Mas não pense o leitor que as dificuldades residem só na abertura de empresas e na obtenção de registros e licenças. Depois de funcionando, os problemas enfrentados costumam ser ainda piores, principalmente quando o assunto é segurança jurídica.

Vejam, por exemplo, este inusitado processo enfrentado por um restaurante em Blumenau, SC. O estabelecimento foi multado pelo Instituto Nacional de Metrologia, Normatização e Qualidade Industrial (Inmetro) pelo sacrilégio de cobrar pela espuma, também conhecida como “colarinho”, contida no chope servido aos clientes. Segundo o fiscal responsável pela autuação, “a quantidade de espuma deveria ser desconsiderada”, para efeito de cálculo do preço a pagar. (Eu sei: seria cômico se não fosse trágico!)

Pois bem: os donos do restaurante recorreram da multa e, para espanto geral, a Justiça Federal de primeira instância manteve a estrovenga. Somente em grau de recurso, depois que a empresa gastou uma pequena fortuna com advogados e custas judiciárias, a Terceira Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região decidiu anular a absurda penalidade. Em suma, foi preciso que a matéria fosse parar no colo de um desembargador com um mínimo de discernimento, para que a justiça chegasse à conclusão de que “o colarinho integra a própria bebida”, sendo parte do próprio produto.

Parece até filme de terror, não é mesmo? Eu juro que preferiria enfrentar o Alien, o Jason Voorhees e o Freddy Krueger, juntos, do que a burocracia tupiniquim.

por João Luiz Mauad

Greve da Polícia: Os Mitos e a Imprensa

As entidades de classe da Polícia Civil decidiram ontem pela continuidade da greve. Haverá hoje um protesto na Assembléia Legislativa. CUT, Força Sindical e PT tentam nacionalizar o movimento — a idéia não é parar a polícia em outros estados, mas criar a “solidariedade” com os policiais de São Paulo. Em suma, trata-se de um ato político, como política foi a manifestação delinqüente da semana passada. E, como já vimos, há na imprensa gente que decidiu pôr o fígado no lugar do cérebro e está, digamos, dando gás ao descalabro que é a greve de gente armada.

Há na Folha de hoje um artigo de Sidney Beraldo, secretário de Gestão Pública de São Paulo, sobre a Polícia Civil. Tem de levar setores da imprensa à reflexão. Ou o que ele diz abaixo é verdade, e a cobertura da greve tem sido, além de incompetente, também ela politizada, ou o secretário não está dizendo a verdade.

Se ele fala a verdade, então é preciso que muita gente volte a ler o Manual de Redação. E a razão é simples: há, abaixo, dados fundamentais que são ignorados pelos leitores porque não foram noticiados. Não há outro caminho: ou os números que seguem são desmontados, ou é preciso mudar o eixo da cobertura do caso. Vamos lá:

EM TORNO da greve na Polícia Civil de São Paulo, têm sido dadas como definitivas afirmações absolutamente equivocadas sobre as questões salariais do setor. Vamos a alguns dos mitos.

1) "Há 14 anos não se dá reajuste para a polícia paulista." Falso. Desde 1995, o menor salário dos delegados subiu 215% -ou 26% acima da inflação. No caso dos investigadores, o menor salário, no mesmo período, subiu 58% acima da inflação. Em dez anos, o total de salários pagos na segurança subiu 117%; o número de servidores cresceu menos de 13%. Os salários são altos? Não. Tudo o que o governo pode desejar é aumentá-los, em todas as áreas. Mas, para isso, depende da arrecadação.

2) "São Paulo paga o pior salário do Brasil para a Polícia Civil." Falso. Essa idéia partiu de reportagens que se referiram aos salários de início de carreira, R$ 3.708, pagos a apenas 15 delegados de um total de 3.500. No projeto de lei enviado na segunda-feira à Assembléia Legislativa, esse piso é aumentado para R$ 4.967, com 34% de reajuste. O projeto de lei ainda permitirá a promoção de 1.184 delegados e 16 mil policiais nas demais carreiras. O reajuste linear é de 6,5% no salário base (que inclui aposentados) em 2009 e o mesmo índice em 2010. Na média, um delegado paulista passará a ganhar R$ 8,1 mil em janeiro.

3) "São Paulo é o Estado mais rico do país e deveria pagar os maiores salários." É um argumento que satisfaz o bom senso, mas violenta os fatos. A receita tributária disponível para o governo do Estado, quando se leva em conta o número de habitantes, é a décima do país. Em São Paulo, o governo federal arrecada 42% dos seus tributos, mas não transfere quase nada de volta, enquanto os Estados menos desenvolvidos recebem transferências elevadas. E, apesar de possuir a décima receita tributária por habitante do país, São Paulo realiza a quarta maior despesa em segurança em relação à sua receita tributária!Isso mostra o esforço que tem sido feito, aliás, bem recompensado: este é o Estado com a menor taxa de homicídios do país, com nível semelhante ao das nações desenvolvidas. Mais ainda. Nas comparações entre Estados, inclui-se Brasília, mas, ali, quem paga a polícia (e a educação, a saúde e a Justiça) é o governo federal, sem as limitações da Lei de Responsabilidade Fiscal. Ou o Paraná, onde não há vinculação entre os salários da Polícia Civil e da PM. Em São Paulo, essa vinculação existe, o que evita o descolamento dos salários e, portanto, as distorções.

4) "Os aposentados estão sem reajuste há três anos." De novo, falso. Este governo começou, no ano passado, a incorporar gratificações ao salário, beneficiando os aposentados, como foi o caso da gratificação por atividade policial -a primeira vez que isso ocorreu na história da Polícia Civil.No novo projeto de lei, é previsto o acréscimo gradual aos proventos dos aposentados de metade do adicional local de exercício. Além disso, os policiais civis poderão obter aposentadoria especial, como tem a PM, e como reivindicam há tempos.

5) "O governo é intransigente, não negocia." Mais uma vez, falso. Desde fevereiro, temos participado de seguidas reuniões. Caminhou-se até o ponto em que, em setembro, já com uma greve anunciada pelos sindicatos, o TRT fez uma proposta de conciliação, sumariamente rejeitada. As reivindicações iniciais dos sindicatos implicavam um acréscimo de despesas de R$ 7,9 bilhões (duplicando a folha de salários da segurança), sem mencionar a eleição direta do delegado-geral. As reivindicações mais recentes implicam acréscimos de R$ 3 bilhões, também impossíveis de serem absorvidos. No ano que vem, deduzidas as despesas com salários, dívida com a União, vinculações obrigatórias, R$ 3 bilhões é o total disponível para os gastos de todos os órgãos dependentes do orçamento do Estado.

Considere-se, ainda, a imensa dificuldade de negociação por um motivo simples: são 18 as entidades da Polícia Civil, entre sindicatos e associações, com idéias muito diferentes sobre o que é o mais importante.

6) Há ainda um mito final, que é o do caráter exclusivamente salarial e profissional do movimento. Não duvidamos que essa fosse, e seja, a intenção da maioria. Mas o resultado foi outro, como a análise dos lamentáveis acontecimentos de quinta-feira passada demonstra. No momento em que o governo materializa o projeto, já anunciado antes, de valorização das carreiras de todas as polícias, que arriscam suas vidas para defender a vida das pessoas, não será melhor substituir o confronto que uns poucos desejam (a turma do quanto pior, melhor, que é pequena, mas barulhenta) pelo diálogo com todos?

No blog do Reinaldo Azevedo

A Hora do Polvo - ou de Marta, a Candidata de Lula

O PT tem um jornaleco chamado "A Hora do Povo". O dito, aliás, é muitíssimo safado, como é próprio de tudo o que as esquerdas - e em especial o PT, ultimamente - desde sempre fizeram.

Nesta última semana, no dia 17/10, o referido jornaleco publicou uma matéria de capa com uma revelação bombástica: "Marta sobe porque é Lula. Kassab cai porque é oposição", e dizia que as "sondagens, que mostram o crescimento da candidatura de Marta à Prefeitura de São Paulo, confirmam que a questão decisiva nas eleições paulistanas é quem está com Lula e seu projeto de desenvolvimento e justiça social, e quem está contra Lula. Exatamente por isso, Kassab e seus marqueteiros têm feito o que podem para esconder seu caráter de candidato da malta anti-Lula. À medida que fica claro quem está com Lula e quem está contra, a tendência é o crescimento de sua candidata". Além disso, na "matéria" propriamente dita, o "repórter" literalmente baixa o nível, chegando a xingar Kassab - o que, aliás, é bem próprio da "moral" esquerdista.

Hoje, os jornais publicaram as última pesquisas do DataFolha e do IBOPE. E o que se viu nestas pesquisas?



O Datafolha dá a Kassab 54% das intenções de voto. E a Marta, 36%. O Ibope dá a Kassab 53% das intenções de voto e a Marta, 36%.

Na semana passada, o Datafolha deu a Kassab 53% contra 37% de Marta. E o Ibope, 51 a 39%.

Como a margem de erro das pesquisas oscila entre dois e três pontos percentuais, o Datafolha não detectou nenhuma mudança no quadro eleitoral de São Paulo entre a semana passada a esta.O Ibope registrou um crescimento de dois pontos de Kassab e uma queda de três de Marta.

Uau! Marta está crescendo - para baixo - porque é Lula. É mais uma prévia de 2010, o ano da baderna, como já estamos vendo com a politização da greve da polícia civil e das falcatruas do PT contra Kassab em seu horário eleitoral e seus panfletos.

Como sempre, eles mentem. Mentem porque são esquerdistas e não suportam a realidade. Mentem porque continuam acreditando naquele mundinho de faz-de-conta criado pelo contador de histórias que é seu ídolo, o tal Karl Marx. Mentem porque não têm capacidade de criar mecanismos para realmente ajudar a melhorar a vida de todos: criam uma ou outra saída a partir de idéia alheia e depois acusam os outros de copiá-los, como sempre, criando mais uma mentira.

terça-feira, 21 de outubro de 2008


Não é Possível Negar a Realidade

Fernando Henrique Cardoso, preceptor de alunos da USP sobre marxismo, ao chegar à Presidência da República o mundo mudara. O Muro de Berlim caíra, os satélites moscovitas do Leste Europeu democratizaram-se e a União Soviética entrara em colapso. Privatizou estatais de grande vulto patrimonial, tirou da Petrobras o monopólio do petróleo e ganhou o apelido de neoliberal. Acusado de trânsfuga, repetiu várias vezes que era de esquerda. A rigor, não havia paradoxo, pois a casa da esquerda tem muitos aposentos. O de Marx já não é o principal.

Luiz Inácio Lula da Silva, em 2000, era o lugar-tenente de Fidel Castro nestas latitudes. Dedicava-lhe, muito acima de admiração, declarada devoção. Bancando guia de excursão, levou uma plêiade de esquerdistas, que pagaram para visitar Cuba com direito a entrevista com Fidel. Uma foto publicada no Brasil mostra-o inebriado ao lado do seu ídolo, saudando-o fervorosamente “pelo bem que a revolução fizera ao povo de Cuba e ao mundo socialista”.

A presença no Foro de São Paulo, com toda a esquerda revolucionária sul-americana, associara a Lula a imagem do proletário revolucionário derrotado três vezes nas eleições para presidente da República. Na quarta, que venceu, conquistou a burguesia que Marx denunciara como “fonte de todos os vícios e maldades”. Presidente, em entrevista ao Le Monde, voz da esquerda francesa, decepcionou o entrevistador: “Considero superados certos conceitos da esquerda. Jamais mantive a etiqueta de esquerda”. Bem antes de ser presidente dissera à mídia brasileira: ‘Socialismo é utopia do PT’”. Etimologicamente, Fernando Henrique continuava assistente de Florestan Fernandes e Lula aproximara-se de Roberto Campos. Talleyrand ensinou: “A palavra é dada ao homem para disfarçar seu pensamento”.

No Brasil, dizem os esquerdistas que a esquerda só se une na prisão. Os dias atuais mostram Lula contrariando a ironia. Criou dois princípios de política internacional que favorecem os assumidos esquerdistas. São “as ajudas ao irmão mais pobre e ao irmão menor”. O relacionamento com Evo Morales é exemplo do primeiro princípio. Fez doutrina. Chamou-nos de imperialistas. Disse que “o Brasil comprou o Acre por um cavalo e que explorou a riqueza boliviana ao pagar o gás por preço vil. Lula recomendou paciência ao presidente da Petrobras. Aplicou o princípio do irmão pobre que invadira, militarmente, duas refinarias que a Petrobras comprara quando ineficientes, nelas investira e fê-las capazes de suprir o consumo boliviano de derivados de petróleo.

Fiel ao sistema de equilíbrio do poder — conceito europeu nunca observado —, Lula adota postura de quem tem vergonha da suposta política imperialista do passado. Recebe Evo com afeto e determina à Petrobras que negocie uma forma de receber pagamento pela expropriação das refinarias (até aqui desconhecida) e aumente o preço do gás importado, que recebemos pelo gasoduto que construímos. Concede vultosa verba pelo BNDES para a Bolívia construir rodovias, uma vez que as nossas estão em belíssimas condições. Quando Evo enfrenta oposição dos departamentos (estados) mais importantes, Lula junta-se a Chávez e vão ambos a Evo para oferecer-lhe solidariedade, interferindo, pois, nos assuntos internos do país.

No momento, Evo está em conflito com a empreiteira brasileira Queiroz Galvão que, por sinal, se ofereceu para fazer reparos, sem despesa da Bolívia, na estrada que fez e entregou. Passado um ano, ainda não foi deferida a proposta. E mais: quando um governador oposicionista de departamento é perseguido e preso sob acusação não provada e pede asilo político ao Brasil, ele lhe é negado. Os bolivianos que, ameaçados, entraram no Acre, já receberam ordem de voltar à Bolívia. Extradição sui generis.

Evo inspirou o candidato vitorioso à Presidência do Paraguai, quanto a rever o acordo generoso sobre Itaipu, e estendeu até o Equador, cujo presidente às vésperas de um plebiscito, que precisava aprovar, buscava dividendos eleitorais. Expulsou do Equador a empreiteira brasileira Odebrecht, depois de ter renovado o contrato até então vigente. Ocupou suas instalações militarmente, apresou o equipamento da empresa, retirou “os direitos constitucionais” de dois dos dirigentes da obra impugnada, pivô das hostilidades, o que fez a embaixada brasileira homiziá-los. Finalmente atingiu o próprio Brasil, na figura do BNDES, não reconhecendo a dívida de milhões de dólares usados na construção da usina. Ao mesmo tempo, ameaça de expulsão a Petrobras, se não aceitar leonina modificação de contrato para transformá-la em prestadora de serviços. Conciliador com o “irmão menor”, Lula disse: “Duvido que o Correa (presidente equatoriano) não me telefone ainda hoje”. Não telefonou. Aguardou dias para encontrá-lo numa reunião de presidentes em Manaus, marcada anteriormente. Manteve-se irredutível.

Nosso governo, que reagiu prontamente aos Estados Unidos no caso dos vistos, e à discriminação da Espanha, mostra a unidade da esquerda sul-americana quando se trata da doutrina Evo Morales. Pode-se negar a realidade? Somos um país altivo com os fortes e passivo com os fracos, por conveniência ideológica.

por Jarbas Passarinho, no Ternuma

O Apoio do Terrorista

Leia abaixo, a crítica sempre correta de Reinaldo Azevedo sobre o apoio que o Sinistro da Justiça, Falso Gênero, está dando à greve dos policiais civis de São Paulo, com os quais se reúne hoje, 21/10/2008.



O ministro da Justiça, Tarso Genro, deve se reunir hoje com lideranças de entidades sindicais dos policiais civis que, na semana passada, promoveram nada menos do que uma manifestação armada em São Paulo. Um coronel da PM levou um tiro de bala de verdade, daquelas que matam. A intenção era invadir o Palácio dos Bandeirantes. A idéia da manifestação foi do “companheiro” Paulo Pereira da Silva, deputado federal (PDT-SP) ameaçado de cassação, com o apoio da Força Sindical, CUT e lideranças petistas. Lula disse que atribuir a esses valentes a baderna é uma “heresia”.

Pois bem. O herético Tarso vai se encontrar com os patriotas que decidiram, na prática, unir-se aos bandidos contra a população. É uma acinte. Merece ser processado por crime de responsabilidade. Não é por acaso que, sob o seu comando, temos a Polícia Federal mais politizada da história — e, por “politizada”, quero dizer “balcanizada”, separada em grupos. Os petistas, como sabemos, promoveram proselitismo na PF e na Abin, daí que ambas tenham saído do controle.

Encontrar as lideranças quando o governador de estado impôs como condição o fim da greve para negociar é um disparate político e legal — ou Tarso me prove que ele segue a lei quando acolhe gente que leva armas em manifestação de protesto e abusa da infra-estrutura da Polícia para promover baderna na rua e entrar em confronto com a polícia que estava lá defendendo a Constituição: a Militar. É claro que está agindo em nome de Lula, de olho em 2010. Assim, vejam que ironia: tenta-se caracterizar um situação de crise da segurança pública no estado que tem um dos melhores desempenhos do país nessa área. A cidade de São Paulo está em 22º lugar no ranking das capitais que mais matam no país. Estados administrados por aliados de Lula lideram a lista. Por lá, ele nem vai nem manda fazer bagunça. Sim, o que Genro está fazendo em São Paulo é promover a bagunça.

No dia da luta campal dos arruaceiros, Tarso preferiu, por vias oblíquas, censurar o governador José Serra. Não houve uma só palavra de crítica aos que protagonizaram a baderna. Os petistas estão dizendo o que vem por aí... Imaginem 2010!

Os policiais e os "salários justos"
E continuam a chegar os protestos de gente que se diz policial civil — deve haver muito petralha se fazendo passar por investigador — me indagando se acho justo que se ganhem este ou aquele salários. Alguém já me viu aqui a dizer que a remuneração é um espetáculo ou que é indigno reivindicar ganhos maiores? Não! Porque nunca escrevi isso. O que escrevi, reitero e sustento é que greve de polícia é inadmissível. E lembro aos tontos-maCUTs de sempre: quando policiais federais cruzaram os braços, no governo Lula, censurei também. Quando a PM de Minas parou, no primeiro governo Aécio, aplaudi o governador por ter chamado o Exército. Está em artigo publicado na imprensa mineira. Sou contra greve de servidor público, de qualquer um, imaginem, então, de gente armada — que, na prática, pede a solidariedade dos bandidos. Afinal, esta é a razão de ser de sua chantagem: “Dêem-nos o que estamos pedindo, ou o cidadão comum ficará à mercê dos bandidos”. Tentem provar que estou errado. Não julgo intenções, mas conseqüências.

Os policias têm de tentar ganhar mais e fazem muito bem em lutar por isso. Mas de que forma? Eis a questão. Não me venham chamar de razoável uma greve que, para arremate dos males, se faz de arma na mão. E também recomendo um pouco de prudência na argumentação. Sei que muitos se irritam com o que vai adiante, mas espero estar lidando com pessoas autônomas: se o sujeito acha que ganhar X ou Y por mês como policial é inaceitável e que não há boa perspectiva de melhora, qual é a boa resposta? Sair da Polícia. Se quer ganhar R$ 18 mil por mês, tem de escolher outro caminho. Como policial, não será. Eu sei, por exemplo, que jornalistas não podem ter helicópteros — a menos que a riqueza familiar lhes possa proporcionar tal mimo.

“Ah, a gente fala em ganhar um pouco mais, e esse idiota vem com helicópteros”. Estou evidenciando, por meio de um exemplo extremo, que há coisas que certas escolhas profissionais — E TODOS ESCOLHERAM — jamais darão. Isso vale pra mim, pro padeiro e pro policial civil. Salário não é questão de justiça em nenhum lugar do mundo, mas de possibilidades. É possível? A reivindicação dos policiais civis, de mais de 40% de reajuste, é impossível. Ponto. Equiparar o salário de delegados ao de promotores também é impossível. Ponto. E a razão é óbvia: não há bufunfa para tanto. Então acabou a conversa? Não. Pode ser o princípio para uma boa negociação — mas com os profissionais cumprindo a função que prometeram cumprir: e prometeram não ao governador, mas aos paulistas.

Até parece que escrevi aqui, alguma vez, que policial ganha demais. Não ganha. Certamente é menos do que merece — e ainda não vi trabalhador sobre a face da terra que não pense o mesmo do próprio salário. Posso achar juto que a VEJA decuplique o meu. Mas será que ela acha? E se eu impuser isso como condição? Bem, nunca tentei, mas imagino, hehe...

Se pudesse recomendar alguma coisa à Polícia Civil, diria que pauta e métodos precisam ser repensados. Por mim, todos os profissionais do mundo trabalhariam felizes, com salário, como é mesmo?, “justos”. Mas é preciso ser realista. Conversar com um ministro de estado depois daquela bandalheira pode parecer manifestação de realismo. Mas é só Tarso Genro. Sob certo ponto de vista, ele é puro surrealismo.

Recordar é Viver: Os Dólares de Cuba

A grande interrogação ainda não respondida sobre o escândalo que flagrou o governo e o PT num enorme esquema de corrupção é a seguinte: afinal, de onde veio o dinheiro que abasteceu o caixa dois do partido? Essa é a pergunta que intriga as comissões parlamentares de inquérito e as investigações policiais. Pode ser que os recursos clandestinos do PT tenham vindo de uma única fonte, mas o mais provável, dada a fartura do dinheiro, é que tenham origem em várias fontes. Uma investigação de VEJA, iniciada há quatro semanas, indica que uma das fontes foi Cuba. Sim, a ilha de Fidel Castro, onde o dinheiro é escasso até para colocar porta ou filtro de água nas escolas, despachou uma montanha de dólares para ajudar na campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva. A apuração de VEJA descobriu que:
  • Entre agosto e setembro de 2002, o comitê eleitoral de Lula recebeu 3 milhões de dólares vindos de Cuba. Ao chegar a Brasília, por meios que VEJA não conseguiu identificar, o dinheiro ficou sob os cuidados de Sérgio Cervantes, um cubano que já serviu como diplomata de seu país no Rio de Janeiro e em Brasília.
  • De Brasília, o dinheiro foi levado para Campinas, a bordo de um avião Seneca, acondicionado em três caixas de bebida. Eram duas caixas de uísque Johnnie Walker, uma do tipo Red Label e outra de Black Label, e uma terceira caixa de rum cubano, o Havana Club. Quem levou o dinheiro foi Vladimir Poleto, um economista e ex-auxiliar de Antonio Palocci na prefeitura de Ribeirão Preto.
  • Em Campinas, o dinheiro foi apanhado no Aeroporto de Viracopos por Ralf Barquete, também ex-auxiliar de Palocci em Ribeirão Preto. Barquete chegou a bordo de um automóvel Omega preto, blindado, dirigido por Éder Eustáquio Soares Macedo. De Viracopos, o carro foi para São Paulo, para deixar as caixas no comitê de Lula na Vila Mariana, Zona Sul da capital paulista, aos cuidados do então tesoureiro Delúbio Soares.
A história acima, resumida em três tópicos, foi confirmada a VEJA por duas fontes altamente relevantes, dado o pleno acesso que tiveram aos detalhes do caso. A primeira foi o advogado Rogério Buratti, que também trabalhou na prefeitura de Ribeirão Preto na gestão de Palocci. Procurado por VEJA no dia 20 de outubro, uma quinta-feira, Buratti recebeu a revista no restaurante do hotel San Diego, em Belo Horizonte. A entrevista durou duas horas e meia. Reticente, Buratti não queria falar sobre o assunto, mas não se furtou a confirmar o que sabia. "Fui consultado por Ralf Barquete, a pedido do Palocci, sobre como fazer para trazer 3 milhões de dólares de Cuba", disse Buratti. Segundo ele, a consulta sobre a transação cubana ocorreu durante um encontro dos dois no Tennis Park, um clube de Ribeirão Preto onde Buratti e Barquete costumavam jogar tênis pela manhã. Buratti sugeriu internar o dinheiro cubano pela via que lhe parecia mais fácil. "Disse que poderia ser através de doleiros." O advogado relata que, depois disso, não teve mais contato com o assunto, mas dias depois foi informado de seu desfecho. "Sei que o dinheiro veio, mas não sei como." As declarações de Buratti foram gravadas com seu consentimento. VEJA relatou ao ministro Palocci a história contada à revista pelos seus ex-auxiliares. O comentário do ministro: "Nunca ouvi falar nada sobre isso. Pelo que estou ouvindo agora, me parece algo muito fantasioso".

A outra confirmação veio de uma fonte ainda mais qualificada, já que teve participação direta na Operação Cuba: o economista Vladimir Poleto, que hoje trabalha como consultor de empresas. Poleto recebeu VEJA no dia 21 de outubro, uma sexta-feira, no bar do hotel Plaza Inn, em Ribeirão Preto. A conversa estendeu-se das 10 da noite até as 3 da madrugada. Poleto, apesar da longa duração do contato, ficou assustado a maior parte do tempo. "Essa história pode derrubar o governo", disse ele mais de uma vez, sempre passando as mãos pela cabeça, em sinal de nervosismo e preocupação. No decorrer da entrevista, no entanto, Poleto confessou que ele mesmo transportou o dinheiro de Brasília a Campinas, voando como passageiro em um aparelho Seneca em que estavam apenas o piloto e ele. Fez questão de ressalvar que, na ocasião, não sabia que levava dinheiro. Achava que era bebida. "Eu peguei um avião de Brasília com destino a São Paulo com três caixas de bebida", disse. "Depois do acontecimento, fiquei sabendo que tinha dinheiro dentro de uma das caixas", completou, acrescentando: "Quem me disse isso foi Ralf Barquete. O valor era 1,4 milhão de dólares".

Poleto conta que, quando recebeu a missão de pegar o dinheiro cubano, foi orientado a ir ao Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Ali, embarcou no Seneca, emprestado por Roberto Colnaghi, um empresário amigo de Palocci e um dos maiores fabricantes de equipamentos para irrigação agrícola do país. O avião decolou cedo de Congonhas, por volta das 6 e meia da manhã, e pousou em Brasília em torno das 10 horas. Ao contrário do que fora combinado, não havia nenhum carro à espera de Poleto no aeroporto da capital federal. Lá pelas 11 da manhã, chegou uma van. Depois de embarcar nela, Poleto foi levado a um apartamento em Brasília, de cujo endereço não se recorda. Foi recebido por um cubano, negro e alto, que lhe entregou as três caixas de "bebida", lacradas com fitas adesivas. "Lembro que era um apartamento simples", diz. De volta ao aeroporto de Brasília, as caixas foram embarcadas no Seneca e iniciou-se a viagem de regresso, que, por causa do mau tempo, terminou no Aeroporto de Viracopos, em Campinas, e não em Congonhas.

Por celular, Poleto avisou o amigo Barquete da alteração de aeroporto e foi orientado a não desgrudar das caixas. Por volta das 7 da noite, Barquete, que vinha de Congonhas, chegou a Viracopos. Estava em um Omega preto, dirigido por Éder Eustáquio Soares Macedo, que hoje trabalha como motorista da representação do Ministério da Fazenda no Rio de Janeiro. O motorista ajudou a colocar as caixas no porta-malas e dirigiu o carro até São Paulo, onde o material foi entregue a Delúbio Soares. "Nunca recebi dinheiro de Ralf Barquete", mandou dizer o ex-tesoureiro do PT. Na semana passada, Éder Macedo confirmou a expedição a VEJA. "Não me lembro do dia em que isso aconteceu, mas aconteceu", disse. Por alguma razão Éder Macedo, pouco depois dessa confirmação, entendeu que não deveria falar do assunto e não atendeu mais os telefonemas de VEJA, impedindo assim que a revista pudesse confirmar com ele outros detalhes. O Omega fora alugado pelo comitê eleitoral do PT. O dono da locadora chama-se Roberto Carlos Kurzweil, outro empresário de Ribeirão Preto. Kurzweil confirmou a VEJA que cedeu os serviços de Éder Macedo, então seu motorista, para o PT.

Um petista que pediu para que sua identidade não fosse revelada contou a VEJA que, da parte do governo de Cuba, quem tomou conta da operação foi Sérgio Cervantes. Ele é cubano, negro e alto, conferindo com a descrição que Poleto faz do sujeito que lhe entregou as três caixas de "bebida" em Brasília. Cervantes morou em um modesto apartamento na capital federal, localizado na Asa Sul, pelo menos até 2003, quando deixou o posto de conselheiro político da embaixada cubana no Brasil. Cervantes é, de fato, o homem das operações delicadas. Foi a primeira autoridade cubana a se encontrar com um funcionário do governo brasileiro para tratar do reatamento das relações diplomáticas entre Brasil e Cuba, que foi, afinal, consumado em 14 de junho de 1986. "Em Cuba, quem trata desse tipo de missão, assim como acontecia na URSS e países comunistas, são espiões. Cervantes é agente do Ministério do Interior", diz um diplomata brasileiro que o conhece pessoalmente. Cervantes também foi cônsul de Cuba no Rio de Janeiro. É íntimo dos petistas.

Em março de 2003, quando deixou o cargo na embaixada, Cervantes, que é amigo de Fidel Castro e dirigente do Partido Comunista de Cuba, fez questão de dar um abraço fraternal de despedida no presidente Lula e no então ministro José Dirceu. A cena foi fotografada e a imagem está publicada nesta página. Cervantes conheceu Lula ainda nos tempos de movimento sindical, no ABC paulista. Tornou-se também grande amigo de José Dirceu. Eles se conheceram ainda no fim da década de 60, quando Dirceu esteve exilado na ilha, e nunca mais perderam contato. Cervantes é quem costuma recepcionar Dirceu em suas visitas à ilha. Em julho do ano passado, por exemplo, quando o então ministro da Casa Civil passou uma semana de descanso em Cuba, Cervantes foi recebê-lo no aeroporto e levou-o para um encontro com Fidel Castro. Em retribuição, o agente cubano ganhou uma caixa com peças de reposição de automóvel, produto escassíssimo em Cuba. Cervantes nega que tenha havido ajuda financeira de Cuba para Lula. "Cuba está é precisando de dinheiro. Como é que pode mandar?", disse. "Isso não é verdade."

A investigação de VEJA, associada às confirmações de duas testemunhas, compõe um quadro sólido a respeito da operação do dinheiro cubano, mas há um ponto que merece reflexão. Buratti e Poleto apresentam depoimentos fortes e comprometedores, mas embasam-nos no que ouviram falar de Ralf Barquete – uma testemunha que não pode mais ser ouvida. Em 8 de junho de 2004, Barquete morreu vítima de câncer, aos 51 anos. Seria possível que Buratti e Poleto estivessem sustentando uma história falsa com base num morto, apenas porque não pode contestá-la? No submundo do dinheiro clandestino e das operações secretas, quase tudo é possível e seria leviano descartar liminarmente a hipótese de que a grande vítima fosse o morto. Os contornos dos fatos e os detalhes dos perfis dos envolvidos, porém, mostram que nem Buratti nem Poleto estão combinados em uma armação. A começar pelo fato de que, entrevistados por VEJA em dias, locais e cidades distintas, contam ambos uma história semelhante, mas não idêntica. Buratti diz que soube que Cuba mandou 3 milhões de dólares. Poleto, 1,4 milhão.

É improvável que numa versão montada haja divergência sobre um detalhe tão central, mas há outro dado mais relevante – o de que Vladimir Poleto, depois de dizer tudo o que disse a VEJA, mudou de idéia. Ele despachou um e-mail para a revista pedindo para que não se fizesse "uso do conteúdo" da conversa. Ali, sugere que não autorizou a gravação do diálogo e dá a entender que, diante de "diversos copos de chope", pode ter caído involuntariamente no "exacerbamento de posicionamentos". VEJA respondeu o e-mail, indagando as razões que o teriam levado a uma mudança tão radical de postura, mas Poleto não respondeu. Por essa razão, a revista mantém, no corpo desta reportagem, os termos do acordo selado com o entrevistado, que autorizou a publicação do conteúdo da conversa e a revelação de sua identidade. Houve, inclusive, uma gravação da entrevista, também devidamente autorizada por Poleto. A gravação, com sete minutos de duração, resume, na voz dele, os trechos mais importantes das revelações que fez em cinco horas de conversa no Plaza Inn. A tentativa de recuo de Poleto é uma expressão do peso da verdade.

O aspecto mais decisivo da sinceridade com que Buratti e Poleto falaram de Barquete talvez seja o fato de que ambos têm profundo respeito pela memória do amigo falecido. Os três foram amigos íntimos até a morte de Barquete. As famílias se conheciam e se visitavam. Poleto, até hoje, é um amigo muito próximo do irmão de Barquete, Ruy Barquete, que trabalha na Procomp, uma grande fornecedora de terminais de loteria para a Caixa Econômica Federal. Até a viúva de Barquete, Sueli Ribas Santos, já comentou o assunto. Foi em um período em que se encontrava magoada com o PT por entender que seu falecido marido estava sendo crucificado. Buratti denunciara que o então prefeito Palocci recebia um mensalão de 50.000 reais de uma empresa de recolhimento de lixo – e quem pegava o dinheiro era o secretário da Fazenda, Ralf Barquete. A viúva desabafou: "Eles pegavam dinheiro até de Cuba!" O desabafo foi feito para um empresário de Ribeirão Preto, Chaim Zaher, dono de uma escola e de uma faculdade, além de uma emissora de rádio. Zaher não foi encontrado por VEJA para falar do assunto. A viúva, que já não tem mágoa do PT, nega.

A amizade entre Barquete, Buratti e Poleto prosseguiu em Brasília, com a posse do governo do PT. Eles todos costumavam freqüentar uma mesma casa, alugada num bairro nobre de Brasília, na qual discutiam eventuais negócios que poderiam ser feitos tendo como gancho a influência que tinham junto ao ministro da Fazenda. O próprio Palocci freqüentou a casa, à qual os amigos chamavam de "central de negócios". A casa foi alugada por Poleto, que pagou adiantado e em dinheiro vivo os primeiros meses de aluguel. Foram 60.000 reais. "Era para ser uma espécie de ponto de referência para quem quisesse fazer negócios em Brasília", diz Poleto. O grupo de amigos de Ribeirão Preto que ia à casa era mais amplo. Incluía o empresário Roberto Colnaghi, o dono do Seneca que voou com os dólares cubanos. E não só: Colnaghi também é um dos sócios do jato Citation, prefixo PT-XAC, que ficava à disposição de Palocci durante a campanha de Lula. A casa era freqüentada ainda por Roberto Kurzweil, o dono do Omega blindado em que Barquete transportou os dólares cubanos. Kurzweil também era dono do blindado usado pelo então tesoureiro Delúbio Soares.

De Cuba, sabe-se que não sai dinheiro privado, pelo menos não em quantidades expressivas. Não há um empresário privado altamente bem-sucedido que possa se interessar em despachar recursos para o PT, ou mesmo uma ONG – política, humanitária, ecológica, o que fosse – que, clandestinamente, pudesse querer ajudar os petistas na sua empreitada para governar o Brasil. Por essa razão, é lícito supor que o dinheiro que chegou ao caixa dois do PT deve ter saído apenas de dois lugares que, no fundo, constituem um só: os cofres do governo cubano ou os cofres do único partido político legalmente organizado, o Partido Comunista Cubano. Isso significa dizer que o Estado cubano, com sua contribuição financeira, seja ela de 3 milhões de dólares, seja de 1,4 milhão, procurou interferir nos rumos da política brasileira. Na história da humanidade, são inúmeros os casos em que um governo estrangeiro tenta influir nos destinos de outro. Mas quem cedeu aos encantos de Cuba cometeu um crime. E grave.

A Lei 9096, aprovada em 1995, informa que é proibido um partido político receber recursos do exterior. Se isso ocorre, o partido fica sujeito ao cancelamento de seu registro na Justiça Eleitoral. Ou seja: o partido precisa fechar as portas. O candidato desse partido – o presidente Lula, no caso – não pode ser legalmente responsabilizado por nada, já que sua diplomação como eleito aconteceu há muito tempo. O recebimento de dinheiro estrangeiro, porém, não se resume a esse quadro simples. "Isso é a coisa mais grave que existe", diz o professor Walter Costa Porto, especialista em direito eleitoral e ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). "É tão grave, mas tão grave, que é a primeira das quatro situações previstas na lei para cassar o registro de um partido político. Isso é um atentado à soberania do país. É letal", comenta o ex-ministro. Caso as investigações oficiais confirmem que o PT recebeu dinheiro de Cuba, e o partido venha a ter o registro cancelado, o cenário político brasileiro será varrido por um Katrina: isso porque os petistas, sem partido, não poderiam se candidatar na eleição de 2006. Nem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Veja On-Line, Edição 1929 - 2 de novembro de 2005

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Recordar é Viver: Nasce o Mensalão

O Palácio do Planalto bem que tentou abafar, mas desde o início o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Lula, esteve no centro da crise política. O escândalo eclodiu em 14 de maio de 2005, com a divulgação de uma gravação clandestina pela revista Veja. Maurício Marinho, funcionário dos Correios, pôs no bolso do paletó R$ 3 mil. Propina. De cara, a evidente vinculação do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) ao esquema de corrupção. Os Correios eram área de influência do partido, uma das agremiações integrantes da base aliada do governo federal, capitaneada pelo PT (Partido dos Trabalhadores), a legenda de Lula.

Enquanto os telejornais escancaravam a fita com as imagens de Maurício Marinho enfiando o dinheiro no bolso, Lula apressava-se em defender o deputado Roberto Jefferson (RJ), o presidente nacional do PTB. Palavras de Lula, alto e bom som:

– Precisamos ter solidariedade com os parceiros, não se pode condenar ninguém por antecipação.
Lula se pronunciou durante almoço com aliados. O presidente insistiu:


– Parceria é parceria. Tem de ter solidariedade.

E arrematou, para não deixar dúvidas:

– Essa é a hora em que Roberto Jefferson vai saber quem é amigo dele e quem não é.

Lula estava preocupado. Recorda-se que, alguns meses antes, dissera a seguinte frase endereçada a Jefferson, em meio ao noticiário que especulava sobre um pagamento de R$ 10 milhões do PT ao PTB, com vistas a “comprar” o apoio dos trabalhistas às eleições municipais de 2004:

– Eu te daria um cheque em branco e dormiria tranqüilo.

A gravação de Maurício Marinho trouxe outras complicações. O funcionário dos Correios mencionou uma empresa, a Novadata. Pertence a Mauro Dutra, o Maurinho, amigo de Lula. A Novadata é uma fornecedora de computadores ao governo federal. Em dois anos e meio de administração Lula, faturou R$ 273,5 milhões. Como se sabe, Maurício Marinho desandou a conversar com os interlocutores que o subornavam, sem saber que estava sendo gravado.

Aqui uma pausa, para registrar: Lula passou o réveillon de 2001 na mansão de Mauro Dutra em Búzios, no badalado litoral do Rio. O mesmo Dutra que fez contribuições ao PT, arrecadou dinheiro para o partido e emprestou avião a Lula. Na fita, Marinho fala de “acertos” em licitações. Descreve manobra da Novadata para superfaturar computadores. A empresa tentou fazer o preço de cada computador vendido ao governo dar um salto injustificado, de R$ 3.700,00 para R$ 6.000,00.

Logo nos primeiros dias da crise, Lula trabalhou abertamente contra a idéia de se criar uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para investigar a corrupção nos Correios. Foi decisão de governo: a administração federal iria liberar dinheiro de emendas ao orçamento, a todos os parlamentares que votassem contra a CPI. Faltou combinar com os jornais.

Jefferson foi destaque no noticiário político. As incursões do presidente do PTB nos subterrâneos de Brasília revelaram várias suspeitas de corrupção. Lula achou por bem se afastar do aliado, mas continuou trabalhando contra a instalação da CPI. Jefferson estava cada vez mais isolado. Os estrategistas do presidente não atentaram para o erro fatal.

Em 6 de junho de 2005, Jefferson concedeu uma entrevista-bomba ao jornal Folha de S.Paulo. O Brasil não era mais o mesmo. A manchete, na primeira página, para não deixar dúvidas: “O PT dava mesada de R$ 30 mil a parlamentares, diz Jefferson”. Nascia o escândalo do mensalão.

Leal ao presidente que procurou protegê-lo, Jefferson tentou deixar Lula fora da crise. Mas logo implicou o superministro José Dirceu (PT-SP). A entrevista reproduziu a reação de Dirceu, assim que ouviu Jefferson falar sobre os repasses. A tarefa de fazer a distribuição do dinheiro era de responsabilidade do tesoureiro do PT, Delúbio Soares. Palavras de Dirceu:

– Eu falei para não fazer.

Ora, se o todo-poderoso ministro da Casa Civil, braço direito de Lula, disse a Delúbio Soares não fazer, fica implícito que a prática já fora pensada, discutida e era de conhecimento do chamado “núcleo duro” do governo. Destaca-se que Delúbio tinha relação histórica com Lula. Jefferson continuou o seu relato à Folha, envolvendo outros importantes auxiliares do presidente.

Se os mencionados não conheciam os fatos, ficaram com a obrigação de encaminhar as denúncias a Lula, assim que foram informados. Afinal, o presidente não poderia permanecer alheio a um esquema de entrega sistemática de dinheiro a parlamentares. Isso, claro, se já não soubesse muito bem o que acontecia.

Jefferson levou informações sobre o mensalão ao ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes. Da mesma forma que Dirceu, deveria contar tudo o que lhe foi relatado ao presidente. Assim, providências enérgicas impediriam o prosseguimento da prática de suborno. Independentemente das convicções do ministro. Conforme Jefferson, Ciro disse que não acreditava na história da transferência de dinheiro de caixa 2 para a base aliada.

Informado por ministros leais, Lula não poderia fugir do seu dever constitucional de determinar a imediata abertura de investigação, com a finalidade de punir os eventuais culpados.

Depois foi a vez de Miro Teixeira, o ministro das Comunicações. Os deputados José Múcio (PTB-PE) e João Lyra (PTB-AL) testemunharam a conversa na qual Jefferson pediu para Miro contar tudo a Lula. Tem mais. Jefferson também discutiu o problema com o deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP), o então líder do governo Lula na Câmara, e garante que expôs tudo ao ministro Antonio Palocci (PT-SP), outro integrante do “núcleo duro” do governo. O recado estava dado.

Aparentemente, só Miro tomou a coisa a sério. A prova é a entrevista concedida por ele em 24 de setembro de 2004 ao Jornal do Brasil, na qual alardeou que havia pagamentos a parlamentares ligados à base de apoio do governo. Não houve conseqüências. Miro, no entanto, já havia narrado o caso ao presidente. Aí é que a coisa pega. Foi em 25 de fevereiro de 2004. Na época, o deputado Miro se transferira ao PT e assumira a liderança de Lula na Câmara. O episódio aconteceu logo depois do escândalo que culminou com a saída de Waldomiro Diniz do Ministério da Casa Civil, no primeiro grande caso de corrupção da era Lula.

Miro era assediado por deputados que temiam pelo fim da “mesada” fornecida pelo governo, uma hipótese aventada com a saída de Waldomiro. Afinal, o assessor de Dirceu cuidava justamente da relação da administração federal com o Congresso. Miro foi duro. Disse ao presidente que deixaria a liderança do governo. Não aceitava os pagamentos. Com ar de surpresa, Lula garantiu desconhecer o assunto. Mas disse que iria discuti-lo, sem falta, com Dirceu. Nada. Pouco mais de um mês depois, Miro voltou ao Palácio do Planalto e pediu para sair da liderança. Substituiu-o o deputado Professor Luizinho (PT-SP), aparentemente um dos expoentes do mensalão.

Em 5 de janeiro de 2005, Jefferson levou o assunto diretamente a Lula. Quem testemunhou foi o ministro Walfrido Mares Guia (PTB-MG), do Turismo. Nenhuma providência tomada. Voltou a Lula novamente, em 23 de março de 2005. Desta vez, várias pessoas ouviram a conversa sobre as “mesadas do Delúbio”. Jefferson expôs tudo. Presenciaram José Dirceu, Aldo Rebelo e José Múcio. Todos os três, aliás, já estavam a par do assunto. Além deles, ouviram o relato o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) e o chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, que, da mesma forma, não poderiam mais alegar desconhecimento. Jefferson afirmou:

– Presidente, o Delúbio vai botar uma dinamite na sua cadeira.

Reação de Lula:

– Que mensalão?

Houve ainda um outro episódio, dez meses antes. Foi na noite de 25 de maio de 2004. O curioso é que, daquela vez, Lula introduziu o assunto. A comitiva do presidente estava em viagem oficial à China. Lá pelas tantas, depois do farto jantar, Lula se virou para o deputado Paulo Rocha (PT-PA) e perguntou se ele já ouvira falar do pagamento de mesadas a parlamentares. Para entender: durante os desdobramentos do escândalo do mensalão, Rocha preferiu renunciar ao mandato a correr o risco de ser cassado, justamente por fazer saques de dinheiro de caixa 2. Rocha negou a história. Mas outros três deputados que estavam à mesa na China confirmaram a veracidade da conversa à revista Veja.

Com a explosão do escândalo do mensalão, Aldo Rebelo foi escalado para falar em nome do Palácio do Planalto. Admitiu que Lula ouvira mesmo o relato de Jefferson em 23 de março de 2005, mas tratou de blindar o presidente. Para Rebelo, a denúncia envolvia o PT e outros partidos, não o governo. Ora, o PT é o partido de Lula. E os outros partidos dão sustentação política ao governo Lula. Estavam sendo pagos para isso. Como blindá-lo?

O líder de Lula no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), tentou explicar a reunião de 23 de março:

– Nenhum dos presentes tratou aquilo como denúncia, nem discutiu o assunto na reunião.

Depois, Lula chamou Aldo e Chinaglia e perguntou se havia comentários sobre isso na Câmara. Não houve denúncia, apenas o relato de boato.

Para Mercadante, portanto, Lula, o grande beneficiário da maioria forjada para apoiar o seu governo no Congresso, não tinha providências a tomar sobre o assunto. Pois não havia “comentários” sobre o tema.

A Folha ainda circulava com a denúncia de Jefferson sobre o mensalão naquele 6 de junho de 2005, quando o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), veio a público revelar que dois deputados receberam propostas para se transferir à base aliada do governo Lula, em troca de dinheiro.

Pior: em 5 de maio de 2004, Perillo levou o fato diretamente ao conhecimento de Lula. Na época, o presidente disse que iria apurar. Não fez nada. De qualquer forma, não faria sentido dizer que não sabia do assunto. Meses depois, fustigado, o Palácio do Planalto se posicionou sobre o episódio, por meio de nota. Informou que Lula não se recordava de nenhum comentário do governador a respeito da tentativa de suborno de deputados.

Em 12 de junho de 2005, nova entrevista de Jefferson à Folha de S.Paulo. O deputado deu detalhes da conversa com Lula, mantida dentro do gabinete do presidente:

– Ele me pediu que explicasse como funcionava o mensalão. Eu disse. Depois ele se levantou, me deu um abraço e eu saí.

Na entrevista, a chave para entender por que o escândalo do mensalão não foi contido nos bastidores da política, e virou mesmo um escândalo. Jefferson relatou à repórter Renata Lo Prete a primeira conversa com Lula para falar dos repasses, em janeiro de 2005. Jefferson esforçou-se em proteger o presidente:

– E vi a reação dele de perplexidade. E então as coisas pararam. Mas o que eu estranho é que a Abin, depois que eu disse isso ao presidente Lula, parte para mandar arapongas contra o PTB. Alguém, dentro do governo, não gostou que nós passamos essa informação ao presidente.

O “alguém” é o ministro José Dirceu. Foi acionado por Lula. A Abin (Agência Brasileira de Inteligência) teria entrado em ação. No final das contas, mostrou-se desastrosa a estratégia de fuçar a vida de Jefferson e descobrir podres do deputado, com vistas a obter o seu silêncio. Ele não aceitou a chantagem. O tiro saiu pela culatra.

Dia 13 de junho de 2005, o seguinte à entrevista. A assessoria de Dirceu divulgou informações segundo as quais o relacionamento entre o ministro e Lula era excelente. Bobagem. O importante do “recado” de Dirceu estava na frase que, segundo a assessoria, o ministro havia proferido. A fala de Dirceu foi divulgada como sendo textual, entre aspas, e serviu para definir o seu relacionamento com o presidente:

– Não faço nada que não seja de comum acordo e determinado por ele.

Estava tudo aí. Dirceu, ao travar combate para não ser expelido do governo, fez ameaça velada a Lula. Como quem diz: “Não ouse me fritar, muito menos me demitir. Sei demais. Posso e vou comprometê-lo”. Mas ficou nisso. Dirceu jamais fez nada, apesar de, em outros momentos da crise, ter voltado a insinuar que poderia pôr o dedo na ferida.

Em 14 de junho de 2005, Jefferson prestou depoimento ao Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. Foi um dia histórico. Jefferson pediu o afastamento de Dirceu do governo. Na prática, sentenciou à morte o homem mais importante da história do PT, depois de Lula:

– Zé Dirceu, se você não sair daí rápido, você vai fazer réu um homem inocente, o presidente Lula.

Para complicar as coisas, entrou em cena Fernanda Karina, a ex-secretária de Marcos Valério. A essa altura, Valério, o empresário dono de agências de publicidade e principal operador do mensalão, já era uma celebridade. Ela disse em entrevista à revista Isto É Dinheiro que Valério tinha comunicação direta com Dirceu.

O superministro de Lula também foi acusado de receber dinheiro do esquema de corrupção montado em Santo André (SP). Quem fez a denúncia foi Francisco Daniel, o irmão do ex-prefeito Celso Daniel (PT). Aqui, Lula voltou ao centro da crise. Francisco Daniel disse que o chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, transportou R$ 1,2 milhão de propina em seu carro. O dinheiro teria sido entregue a Dirceu, na época o presidente nacional do PT.

Em 16 de junho de 2005, Dirceu foi defenestrado do governo. Fazendo-se de alheio aos problemas, Lula deu entrevista em Luziânia (GO) para dizer que as denúncias eram “vazias”. Se assim o fossem, por que afastar o ministro? Entrementes, nos bastidores de Brasília, o presidente trabalhava para frustrar a CPI dos Bingos, uma nova fonte de investigações contra o seu governo. Prometeu mundos e fundos para quem ficasse ao seu lado. Não conseguiu impedir a instalação da CPI.

Um episódio que mostrou Lula como sujeito atuante nos corredores invisíveis de seu governo, e não alguém sempre por fora dos “detalhes” comprometedores. Foi o caso da “simples” nomeação do diretor de engenharia de Furnas Centrais Elétricas. O assunto relatado por Jefferson ocupou páginas e páginas de jornal. Não era para menos. O diretor, Dimas Toledo, administrava, de acordo com Jefferson, uma “sobra” de R$ 3 milhões ou R$ 4 milhões por mês – dependendo da versão –, dinheiro abocanhado quase que integralmente pelo PT.

O caso Furnas acabou contribuindo para o desgaste da relação PT/PTB, pois o partido de Jefferson não aceitava ficar à margem, relegado a um segundo plano. Pois bem. Jefferson exercia influência em Furnas e queria trocar Dimas Toledo. O presidente era simpático ao pleito do PTB. Lula dissera a Jefferson:

– Roberto, por que está demorando tanto?

O presidente não aceitou explicações:

– Nada disso. O Dimas vai sair.

No caminho, porém, estava José Dirceu, aparentemente cioso da fortuna em comissões e propina. Quando a casa caiu, Jefferson contou a história aos jornais. A reação instantânea do Palácio do Planalto foi afastar todos os citados, inclusive Dimas Toledo. Mas a história de Jefferson revelou que Lula tinha conhecimento do que se passava, e há tempos.

Outro episódio, vinculado diretamente a Lula. Ocorreu em 8 de julho de 2005, a partir de uma notícia publicada pelo jornal O Globo. A Telemar, uma das maiores operadoras de telefonia do país, investiu R$ 5 milhões na pequena Gamecorp, de Fábio Luiz Lula da Silva, o Lulinha. Como se sabe, a Telemar é constituída por recursos públicos do Banco do Brasil, BNDES e fundos de pensão de empresas estatais. É uma concessionária de serviço público, regulada pelo governo federal.

O negócio Telemar/Gamecorp foi intermediado pela consultoria de Antoninho Marmo Trevisan, outro amigo de Lula. Para o presidente, porém, nada de errado. Como sempre, aliás. A reação dele, nervosa, pretendendo pôr um ponto final no assunto:

– Estão querendo mexer na minha vida privada. Isso é uma baixaria, um golpe baixo, um desrespeito. Isso é irracional.

Voltemos a um acontecimento importante, ocorrido em 17 de junho de 2005. Lula deu a famosa entrevista em Paris, divulgada com exclusividade pelo programa Fantástico, da Rede Globo. O impressionante da história foi o coro do presidente ao que acabara de ser dito por Marcos Valério e Delúbio Soares, ambos metidos até o pescoço na lambança do escândalo do mensalão. A estratégia dos três, apesar da diferença de tom das intervenções, foi a mesma: negar os pagamentos a parlamentares, o crime de corrupção, e pôr tudo na conta dos simples repasses para quitar dívidas de campanha, usando caixa 2. Um crime menor, apenas eleitoral. Para Lula, o PT fez o que é feito no Brasil, sistematicamente:

– E não é por causa do erro de um dirigente ou de outro que você pode dizer que o PT está envolvido em corrupção.

Enquanto Lula minimizava a crise, o senador Pedro Simon (PMDB-RS) acusava o que chamou de “crime de quadrilha”:

– Agora, o partido está dentro do governo, e foram usadas empresas públicas como o Correios e Furnas, para fazer transações ilícitas. Favoreceram essas empresas em troca do dinheiro dado ao partido.

Difícil tapar o sol com a peneira. Olívio Dutra (PT-RS), petista histórico, foi demitido do Ministério das Cidades. Ressentido, desabafou durante entrevista. A “disputa” e a “concentração de poder no governo” fizeram crescer a “erva daninha”. Para ficar claro, a erva daninha da corrupção.

Para ajudar a entender Lula, um acontecimento de 1995. Outro petista histórico, o economista Paulo de Tarso Venceslau, procurou o presidente para conversar. Apresentou-lhe um esquema de corrupção envolvendo o advogado Roberto Teixeira, compadre de Lula. Ele vinha usando o nome de Lula para desviar dinheiro de prefeituras do PT. Venceslau não aceitava a prática, mesmo sabendo que o dinheiro acabava nos cofres do partido.

O economista achou que Lula o ajudaria a extirpar o corrupto que manchava o nome do PT. Resultado: Venceslau foi expulso do partido. Quanto a Teixeira, continuou firme e forte. Venceslau concedeu entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo:

– Lula foi o primeiro a saber do caso. Sabia do comprometimento do seu compadre, sabia do volume de dinheiro público envolvido, e fez questão não só de acobertar, mas de punir quem tinha descoberto.

O economista comparou Lula nos dois casos. Na década de 90, candidato a presidente, ao ser informado das andanças de Teixeira atrás de comissões em prefeituras, e agora, presidente da República, com o escândalo do mensalão:

– Eu levei para ele, pessoalmente. E o tempo todo fingiu que não sabia. Evidentemente que Lula não operava, assim como não está operando hoje. Mas como ele sabia naquela época, ele sabe hoje, sempre soube.

Depoimento de José Dirceu ao Conselho de Ética da Câmara. Quem roubou a cena foi Roberto Jefferson. Veio à tona a operação Portugal Telecom. Os fatos: o ministro Walfrido Mares Guia pediu ajuda a Lula para resolver os problemas financeiros do PTB. Com o conhecimento do presidente, Marcos Valério e Emerson Palmieri, tesoureiro do PTB, viajaram para Lisboa atrás de uma “comissão” de R$ 100 milhões. A jogada pressupunha uma transferência de US$ 600 milhões do IRB (Instituto de Resseguros do Brasil). Se desse certo, os R$ 100 milhões irrigariam os caixas 2 do PT e do PTB. Valério chegou a Portugal se dizendo “consultor do presidente do Brasil”. Era mesmo.

Mais uma história apimentada misturando Lula e caixa 2. Foi publicada em 4 de agosto de 2005, pelo jornal O Estado de S. Paulo. Diz respeito a uma entrevista do presidente ao Programa do Ratinho, do SBT, em 2004. A aparição de Lula na televisão teria sido comprada com R$ 2,1 milhões do valerioduto. O dinheiro viabilizou um acerto entre o deputado José Borba (PMDB-PR), aliado do governo, e o apresentador de televisão Carlos Roberto Massa, o Ratinho. As partes negaram. Dias depois Borba renunciou ao mandato.

Um caso intrigante, o da exoneração de Márcio Araújo de Lacerda, secretário-executivo do ministro Ciro Gomes. Lacerda estava na lista de sacadores de Valério, agraciado com R$ 457 mil. O dinheiro foi usado para pagar os serviços publicitários de uma agência que trabalhou na campanha de Lula, no segundo turno de 2002. A eleição de Lula, portanto, teve dinheiro de caixa 2. O caso repercutiu durante o depoimento do tesoureiro Delúbio Soares à CPI do Mensalão. Eis o diálogo travado entre Delúbio e o deputado Júlio Redecker (PSDB-RS):

– O dinheiro foi enviado para Ciro Gomes?

– Sim.

– Pagou despesas de campanha de Ciro ou Lula?

– De Ciro.

– Mas Ciro disse que foi serviço prestado pelo marqueteiro dele no segundo turno à campanha de Lula.

– Não foi. O dinheiro pagou serviços prestados pelo (publicitário) Einhart à campanha de Ciro no segundo turno.

– Mas Ciro não foi candidato no segundo turno. Ele apoiou a candidatura Lula.

– O Einhart trabalhou com o Duda Mendonça. Eles filmaram o Ciro para o programa de Lula no segundo turno. O dinheiro pagou despesas que o Ciro teve no segundo turno.

– Então o dinheiro de Valério, de caixa 2, pagou despesas de campanha de Lula no segundo turno.

Delúbio silenciou.

Em 11 de agosto de 2005, a crise assumiu contornos dramáticos. O publicitário Duda Mendonça confessou à CPI dos Correios que recebeu R$ 10,5 milhões de Marcos Valério no exterior. Note-se bem: trata-se de dinheiro de caixa 2, não declarado, sem origem definida, usado para pagar serviços prestados na campanha de 2002, na eleição que elegeu Lula. Dia seguinte, em discurso no Planalto, Lula acreditou que dava fim ao caso:

– O PT tem que pedir desculpas. O governo, onde errou, tem que pedir desculpas.

Em 13 de agosto de 2005, a revista Época publicou entrevista com Valdemar Costa Neto (PL-SP), o primeiro deputado a renunciar durante as investigações do escândalo do mensalão. Em foco, a reunião de 2002 que decidiu o apoio do PL (Partido Liberal) ao PT e a indicação de José Alencar para vice de Lula.

O encontro se deu no apartamento do então deputado Paulo Rocha (PT-PA), em Brasília. Lula estava presente. Depois de árdua negociação, durante a qual Lula, discreto, se retirou a um aposento ao lado, fechou-se o acordo pelo qual o PT se prontificou a transferir R$ 10 milhões para o PL. Época pergunta:

– Lula sabia que a conversa no quarto era sobre dinheiro?

– Ele sabia. O presidente sabia o que a gente estava negociando. Olha, ele e o Zé Dirceu construíram o PT juntos. O Lula sabia o que o Dirceu estava fazendo. O Lula foi para lá para bater o martelo. Tudo o que o Zé Dirceu fez foi para construir o partido.

O vice-presidente Alencar confirmou a entrevista de Valdemar:

– Tudo aquilo que ele fala é verdade. Houve uma reunião e houve um acordo. Esse acordo está registrado na imprensa no ano de 2002, um acordo eminentemente político.

Em sua denúncia sobre o escândalo do mensalão, o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, refere-se assim ao acerto PT/PL:

“O acordo criminoso com os denunciados José Dirceu, Delúbio Soares, José Genoino e Silvio Pereira foi acertado na época da campanha eleitoral para a presidência da República em 2002, quando o PL participou da chapa vencedora.”

Em 23 de agosto de 2005, Valdemar depôs à CPI do Mensalão. Sustentou que empregou R$ 6,5 milhões do caixa 2 do PT repassados ao PL, entre janeiro de 2003 e setembro de 2004, para pagar material de campanha do segundo turno das eleições de 2002:

– A situação em São Paulo era difícil. Lula tinha vencido José Serra no primeiro turno por apenas 100 mil votos. Tínhamos que entrar com força. Encomendei o material e o dinheiro foi gasto para pagar os fornecedores.

Vale registrar a entrevista de Hélio Bicudo, o respeitável jurista, à revista Veja. Bicudo, quadro histórico do PT, desligou-se do partido:

– Lula é um homem centralizador. Sempre foi presidente de fato do partido. É impossível que ele não soubesse como os fundos estavam sendo angariados e gastos e quem era o responsável. Não é porque o sujeito é candidato a presidente que não precisa saber de dinheiro. Pelo contrário. É aí que começa a corrupção.

– Por que o presidente não tomou nenhuma atitude para impedir que a situação chegasse aonde chegou?

– Ele é mestre em esconder a sujeira embaixo do tapete. Sempre agiu dessa forma.

Desabafo do deputado João Paulo Cunha (PT-SP), outro acusado de envolvimento no escândalo do mensalão, durante uma reunião do Campo Majoritário, a corrente do PT cujas lideranças máximas sempre foram Lula e José Dirceu. Cunha fez ameaças veladas a Lula, reclamou de ingratidão e de hipocrisia. Apesar de feitas a portas fechadas, acabaram na imprensa. Não foram desmentidas. O envolvimento de Lula, por Cunha:

– Quem tomou a decisão de fazer alianças? Foi o Zé Dirceu? Quem exigiu o contrato com Duda Mendonça?

Em outras palavras, Lula não só sabia, como estava por trás de tudo. Era o chefe. Continua a ser o chefe.

Insatisfeitos com o presidente, próceres do PT mantiveram a carga sobre Lula. Em entrevista à Folha de S.Paulo em 25 de setembro de 2005, Dirceu disse quem, em sua opinião, eram os responsáveis pela crise:

– Muita gente. Parece que eu fui presidente do PT sete anos sozinho, secretário-geral cinco anos sozinho, né? O PT não foi construído assim. Tem dezenas de dirigentes importantes que hoje são prefeitos, governadores, ministros, deputados e senadores que participaram da construção de toda essa estratégia comigo.

– E o presidente.

– E o próprio presidente da República. É isso o que eu digo. A responsabilidade é de todos nós. Nós temos que debater isso, num congresso do partido, e fazer o balanço.

– O senhor acha que o presidente da República assume a responsabilidade que tem?

– Não quero nominar ninguém. O que eu não aceito é prejulgamento, que foi tudo errado, que foi tudo um fracasso, que a política de alianças do PT estava errada. Tudo foi aprovado democraticamente.

Dirceu respondeu se Lula participou das discussões:

– Participou. Todos participaram. Mas eu quero discutir e avaliar. Eu não quero julgar ninguém porque eu não quero que me prejulguem. O que não aceito é a imagem de que eu fiz tudo sozinho e depois apareceu Silvio Pereira, Delúbio Soares e Marcelo Sereno, que são o mal. Então corta esse mal e o PT está salvo. Isso é maniqueísta. E eu não mereço isso.

Outro trecho da entrevista:

– As pessoas que votaram no PT a vida inteira imaginavam que votavam num partido que tinha práticas diferentes.

– Esse é um erro e o PT vai pagar por ele. Nós vamos ter que pedir desculpas ao país. Nós assumimos compromissos na campanha eleitoral com partidos e repassamos recursos. Se fossem da arrecadação oficial do PT, não teria problema nenhum. Como foram recursos de empréstimos tomados num banco e foram repassados fora da prestação de contas, há uma ilegalidade aí que vai ser punida pela Justiça.

Sobre a política de alianças e o programa de governo de Lula:

– Então estão julgando Lula também. Tem de saber qual é o julgamento e qual é o grau de responsabilidade de cada um.

– E a responsabilidade política? As pessoas votam no Lula e ele não sabe de nada? É difícil acreditar que ele ignorava tudo.

– Não é isso. É que ele não tem responsabilidade. Eu não posso atribuir responsabilidade a ele no grau dele. O Lula tem responsabilidade política porque ele era líder do PT. Mas os graus são diferentes. Não posso atribuir a ele responsabilidade sobre o caixa 2. Aí eu não vou atribuir.

– Ele não tem responsabilidade como liderança?

– Isso é uma pergunta que tem de ser dirigida a ele. Eu não vou responder por ele.
Menos de duas semanas depois, foi a vez de Lula conceder entrevista. Ele falou ao programa Roda Viva, da TV Cultura:


– Feliz o país que tem um político da magnitude do Zé Dirceu.

Em outro momento:

– Qual a acusação que existe contra o Zé Dirceu?

Outra entrevista perigosa para o presidente. O entrevistado agora foi Silvio Pereira, o ex-secretário-geral do PT. Silvinho falou à Folha de S.Paulo, em 2 de outubro de 2005:

– A minha responsabilidade não é diferente da de nenhum outro dos 21 membros da executiva nacional do PT. O nível de decisão que eu tinha não era diferente do de nenhum dos 21 membros da executiva nacional do PT.

Silvinho evitou citar nomes:

– Eu assumo a responsabilidade como membro da direção do PT, em que pese a direção do PT ter realmente a noção do que estava acontecendo. Ninguém é hipócrita de achar que não sabia que existia caixa 2. Qual membro da direção do PT não sabia disso?

O repórter perguntou se o então presidente do partido, José Genoino, sabia do esquema de caixa 2. Palavras de Silvinho:

– Eu pergunto: qual o membro da alta direção do PT que não poderia supor que pudesse existir?

Silvinho foi afastado do PT ao admitir que ganhou um jipe Land Rover de presente de uma fornecedora da Petrobrás.

Um fardo pesado para Lula, o caso Santo André. Em 23 de novembro de 2005, a empresária Rosângela Gabrilli depôs à CPI dos Bingos. Trouxe à luz meandros do esquema de corrupção engendrado na administração do ex-prefeito Celso Daniel.

A irmã dela, Mara Gabrilli, pediu ajuda diretamente a Lula. Esteve no apartamento do presidente em São Bernardo do Campo (SP), e conversou com ele por 20 minutos. Descreveu um quadro de extorsão contra prestadores de serviços à Prefeitura, como a empresa da família dela. Lula ficou de “averiguar e tomar providências”. Desabafo de Mara, confirmando o depoimento da irmã:

– Ninguém fez absolutamente nada. Nunca tive uma resposta.

Chamada a depor na mesma CPI dos Bingos, Mara revelou novas informações sobre o encontro com Lula. Na ocasião, contara ao presidente que Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, estava envolvido no esquema de corrupção. Também o acusavam de mandar matar Celso Daniel. Durante a reunião de Mara com o presidente, Lula virou-se para os três assessores que o acompanhavam no apartamento, para dizer:

– Nossa, eu achei que o Sérgio Gomes já estava muito longe.

Como sempre, Lula não sabia o que se passava. Conveniente. O incrível é que o tal Sombra não saía do noticiário dos jornais. Vivia prestando depoimentos a CPI, Ministério Público e Polícia Civil. Como poderia estar “muito longe”? O presidente seria tão desinformado?

Lula não tomou providências para resolver o problema em Santo André, conforme se comprometera. Ao invés disso, a família de Mara passou a sofrer pressões. Ela explicou à CPI o que aconteceu após a conversa em São Bernardo do Campo. Referiu-se ao ex-vereador Klinger Luiz de Oliveira (PT), um dos acusados de envolvimento no esquema de corrupção:

– Ocorreu justamente o contrário. Klinger soube, reclamou, e dias depois uma comissão de sindicância da Prefeitura se instalou na nossa empresa.

Além de Santo André, a crise política teve outra ramificação importante em Ribeirão Preto (SP), terra de Antonio Palocci. Irromperam sucessivos indícios de condutas inadequadas e corrupção na cidade, na época em que a administração municipal estava sob o comando do prefeito Palocci. Apesar da gravidade das denúncias que só se avolumavam, Lula fez reiteradas defesas do seu ministro da Fazenda.

Quanto mais clara a participação de Palocci na malversação dos contratos de limpeza pública de Ribeirão, mais manifestações de Lula a elogiar o ex-prefeito. Como justificar a defesa intransigente dos procedimentos de alguém cujo envolvimento nas falcatruas ficava cada dia mais evidente?

O noticiário era farto: inquéritos, provas documentais e testemunhas. Principalmente os depoimentos do advogado Rogério Buratti. Ele manteve ligações estreitas com o PT, mas decidiu contar o que sabia para melhorar sua situação na Justiça. Por que, então, a solidariedade a Palocci? Aparentemente, só há uma explicação. Palocci sabia demais. Impossível Lula simplesmente demiti-lo e mandá-lo de Brasília de volta a Ribeirão. Palocci era uma pedra no sapato do presidente.

Ao admitir a hipótese de impeachment de Lula, o presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Roberto Busato, falou da proximidade do presidente com Luiz Gushiken, outro integrante do “núcleo duro” do Planalto. Busato tratou do caso Visanet, ou seja, do dinheiro da publicidade do Banco do Brasil que, de acordo com as investigações da CPI dos Correios, acabou desviado para o PT:

– A revelação de repasses de verba de publicidade da Visanet, ligada ao Banco do Brasil, a agências de Marcos Valério, e de distribuição a parlamentares sempre em épocas apropriadas ao governo, atingiu mortalmente o coração de Gushiken. E, ao atingir Gushiken, atinge Lula, na medida que o presidente não tomou nenhuma atitude para afastá-lo do governo. É prova inconteste de que Lula sabia exatamente de todo o esquema e estava de acordo com a sua existência.

Busato não tem dúvidas:

– A participação de Lula é absolutamente baseada pela proximidade de quem sempre foi confidente e grande amigo de Gushiken. O ex-ministro realmente comandava toda a área de comunicação do governo federal, onde havia um desvio de dinheiro público para atividades partidárias e delituosas no sentido de corromper o Congresso Nacional.

Em 17 de janeiro de 2006, mais evidências de que o presidente sabia muito bem o que se passava à sua volta. Gente muito próxima de Lula estava exposta a denúncias de corrupção, com amplo conhecimento de Lula. Em depoimento à CPI dos Bingos, voltou à cena o economista Paulo de Tarso Venceslau. Ele pôs o dedo na ferida. Declarou que enviou uma carta diretamente a Lula, em 1995, para relatar as peripécias do amigo e compadre do presidente, o advogado Roberto Teixeira. Na década de 80, Teixeira emprestou um imóvel para Lula morar, em São Bernardo do Campo.

Teixeira representava uma empresa que vivia batendo nas portas de prefeituras do PT para obter contratos sem licitação, com base “em notas falsas e rasuradas”. Apesar de informado, Lula nada fez. Como se vê, a coisa vinha de longe.

Insatisfeito na época, Venceslau procurou o senador Aloizio Mercadante (PT-SP), sempre muito próximo de Lula. Reação de Mercadante ao ler a carta endereçada a Lula, segundo a descrição não desmentida de Venceslau:

– Ele ficou chocadíssimo e disse: “Isso é nitroglicerina pura”. Mas não fez nada. Afirmava que tentava sem conseguir. O silêncio continuou.

Pergunta-se: como “tentava e não conseguia”? Mercadante tinha acesso privilegiado a Lula. Em 1994, por exemplo, foi candidato a vice-presidente quando Lula tentou chegar ao Palácio do Planalto pela segunda vez. Se Mercadante tentou e não conseguiu afastar Teixeira do PT, a resistência foi do próprio Lula. Não há outra hipótese. Venceslau também contou tudo a frei Betto, outro amigo histórico de Lula. Frei Betto dirigiu-se assim a Venceslau:

– Se o Lula souber que alguém está conversando com você, ele jura que aquela pessoa vai ser decapitada do partido.

Lula protegia o esquema suspeito de corrupção, engendrado por seu compadre. Ressalte-se que isso ocorreu em 1995. Desde 1993 Venceslau vinha denunciando Teixeira. Na época, Venceslau era secretário de Finanças de São José dos Campos (SP), cidade cuja prefeita era Ângela Guadagnin (PT-SP).

Ângela foi ouvida depois do depoimento de Venceslau. Ela admitiu outra acusação, a de que Paulo Okamotto, homem de confiança do presidente Lula, percorria prefeituras do PT na década de 90. Okamotto ia atrás de listas de fornecedores das administrações. De posse dos nomes das empresas, ia a campo pedir dinheiro a quem mantinha contratos com os governos do PT. Ângela é outra estrela do PT que teve papel importante nos desdobramentos do escândalo do mensalão. Ela admitiu:

– O que fica desse episódio é que se conhecia o esquema de arrecadação paralela há muito tempo, desde 1993.

A coisa é anterior. Em 1989, a primeira eleição para presidente disputada por Lula. Ele mesmo, pessoalmente, pediu à então prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, um esquema que alterasse a ordem cronológica dos pagamentos a empresas contratadas para fornecer bens e serviços à administração municipal.

Naquele final da década de 80, vivíamos tempos de inflação galopante. Receber antes do prazo estipulado, portanto, permitiria fazer aplicações financeiras que renderiam bom dinheiro. Quem fosse contemplado com o benefício retribuiria à altura, com transferências generosas de dinheiro para o caixa 2 do PT. Luiza Erundina resistiu.

Em 1998, Lula foi candidato a presidente pela terceira vez. Em 9 de fevereiro de 2006 depôs ao Ministério Público um ex-secretário de Habitação de Mauá (SP), de nome Altivo Ovando Júnior. Em 1998, aquela cidade da Grande São Paulo estava sob comando do ex-prefeito Oswaldo Dias (PT). De acordo com o depoimento de Altivo Ovando Júnior ao Ministério Público, Lula pressionou por dinheiro para financiar a sua campanha eleitoral:

“O declarante se recorda de que, no pleito de 1998, o presidente Lula compareceu no gabinete do prefeito de Mauá, oportunidade em que, utilizando termos chulos, cobrou de Oswaldo Dias maior arrecadação de propina em favor do PT.”

Durante o depoimento, foi reproduzida frase atribuída a Lula:

“Ele dizia: ‘Pô, Oswaldão, tem que arrecadar mais, faz que nem o Celso Daniel em Santo André. Você quer que a gente ganhe a eleição como?’”

Naquele ano, Lula voltou a perder, pela terceira vez consecutiva. Mas, em 2002, disputou e foi eleito presidente. Passou a despachar no gabinete do terceiro andar do Palácio do Planalto. Após mais de três anos, fica difícil acreditar que não soubesse o que acontecia na sala bem ao lado de seu gabinete, ocupada durante parte daquele período de turbulência pelo superministro Antonio Palocci. E ali se urdiu a conspiração contra o caseiro Francenildo Costa.

O rapaz havia desmascarado Palocci. Contestou as mentiras do ministro. Palocci procurava um meio de negar o impossível, o fato de ter sido um freqüentador da “casa dos prazeres”. A mansão fora alugada em Brasília pela “república de Ribeirão Preto”, como ficou conhecido o grupo de colaboradores do então ministro, e costumava ser reduto para festas com garotas de programa.

Lula participou ativamente da tentativa de blindar Palocci. O presidente teria tramado o recurso ao STF (Supremo Tribunal Federal) para suspender o depoimento de Francenildo à CPI dos Bingos. As investigações sobre o caso mostraram que Lula fora avisado pessoalmente da ordem de Palocci para que violassem o sigilo bancário do caseiro. Jorge Mattoso, o presidente da Caixa Econômica Federal, avisou-o em 24 de março de 2006.

A rigor, Lula já recebera informações a respeito em 20 de março, quando o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, relatou ao presidente o envolvimento de Palocci na quebra do sigilo. Palocci foi afastado em 27 de março, uma semana depois. Naquele momento, não havia mais jeito de desvinculá-lo do crime. Durante todo o escândalo, Lula deu uma de quem não sabia de nada. Ao mesmo tempo, participava de toda a operação abafa.

No auge da crise, em 23 de março, houve uma reunião na casa de Palocci. A revista Veja relatou que um sindicalista nomeado por Lula na vice-presidência da Caixa Econômica Federal fora escolhido para subornar algum funcionário da Caixa, com R$ 1 milhão. A idéia era encontrar alguém para assumir a violação do sigilo.

O tal sindicalista, Carlos Augusto Borges, é homem de confiança de Lula. Será possível que o presidente não soubesse da missão de Borges? Ou, ao contrário, teria sido exatamente o presidente quem o designara para pilotar a operação de suborno? Tudo indica que Lula considerava sua obrigação fazer tudo o que estivesse ao alcance para salvar Palocci, que tantos serviços prestara desde a campanha eleitoral de 2002. Sabe-se que, depois da reunião na casa de Palocci, o ministro da Fazenda e Bastos foram se encontrar com Lula no Palácio do Planalto.

Em 16 de abril de 2006, o ex-governador do Rio, Anthony Garotinho, concedeu entrevista à Folha de S.Paulo. Ele reproduziu as palavras de José Dirceu ao procurá-lo na véspera da votação do processo que cassou o seu cargo de deputado. Dirceu queria o apoio de Garotinho para não perder o mandato. Disse assim:

– Saiba que tudo o que fiz, tudo, fiz porque o Lula mandou. Você acha que ia mandar bloquear o dinheiro do Rio e o Palocci iria obedecer? Todo político tem alguém que faz o lado mau. Estou pagando agora por ter feito o lado mau.

Publicada a entrevista, o comentário do ex-deputado Dirceu, devidamente cassado, sobre a declaração de Garotinho:

– Não vou bater boca com ele.

Informações que vieram a público e não foram desmentidas, durante a segunda quinzena de abril de 2006. As notícias dão conta de que Dirceu, depois de cassado, continuou a se reunir com Lula e integrantes do governo federal. Foi incumbido de missões estratégicas, como a de se encontrar com o ex-presidente Itamar Franco, com quem Lula tentava uma aproximação política.

Se Lula manteve relacionamento nos porões da política com Dirceu, era falácia o discurso do presidente de que fora apunhalado pelas costas, no escândalo do mensalão. Afastar Dirceu de seu governo teria sido só um jeito de manter as aparências.

Dirceu pagou caro. Foi cassado justamente por ter sido apontado como o responsável pelo esquema de corrupção. Apenas o operava. Vê-se agora que Lula não interrompeu a parceria com Dirceu. Não foi traído, portanto.
(...)

Lula não queria a verdade. Não a quer. O chefe de tudo foi, desde o início, (...) o próprio presidente Lula.

por Ivo Patarra

Desculpas a São Paulo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou neste sábado que o governador José Serra (PSDB) cometeu uma "heresia" ao associar o PT à greve dos policiais civis de São Paulo. O presidente disse esperar que Serra peça desculpas pelas declarações. Na última quinta-feira (16), uma manifestação de policiais civis --que estão em greve desde o dia 16 de setembro-- em frente ao Palácio dos Bandeirantes, terminou em violência. A polícia militar impediu os manifestantes de se aproximarem da sede do governo e reprimiram o protesto com gás e bombas de efeito moral. Pelo menos 30 pessoas ficaram feridas.

Na ocasião, Serra acusou os partidos políticos PT e PDT e as centrais sindicais de serem responsáveis pela manifestação e disse que a participação das entidades ocorreu para aproveitar o movimento eleitoral.

"Quem não quer ser cobrado pelo povo, que não seja governo, porque o povo cobra", disse o presidente durante ato de campanha de Marta Suplicy (PT) à Prefeitura de São Paulo.

Lula foi mais direto nas críticas ao governador ao dizer que espera ouvir um pedido de desculpas do governador. "Eu espero que, em algum momento, o governador de São Paulo peça desculpas por esta heresia."

Comento
Lula é a maior evidência da exploração política do ato protagonizado por sindicalistas terroristas. A atuação do PT, da CUT e da Força Sindical está documentada. Publiquei aqui o discurso de Paulinho da Força, marcando a data da arruaça, combinando os seus detalhes. A imprensa só não deu destaque àquela fala delinqüente porque está um pouquinho narcotizada pelo PT, como sempre.Quem deve desculpas aos paulistanos é o PT. Por apoiar uma mobilização armada contra a ordem instituída. Enquanto aqueles senhores investiam contra a Constituição, certamente bandidos se aproveitavam da situação. Lula está flertando com o terrorismo. Nós vimos o que aconteceu com um bêbado que invadiu a área de segurança do Palácio da Alvorada: levou tiros. Imaginem o escarcéu se fosse no governo FHC. Acho que os militares cumpriram o seu dever. No Alvorada e no Morumbi.

Um bêbado leva a segurança de Lula a atirar para ferir mesmo, como foi feito. Mas Serra deveria ser condescendente com centenas de pit bulls armados até de escopeta. Ademais, quem protagonizou aquela baixaria perigosa não foi o “povo”, não, senhor. Foram o PT, a CUT, a CGT e o deputado Paulinho da Força.

É imoral, indecente, sintoma de decadência institucional, que um coronel da PM tenha sido ferido a bala por um dos terroristas, e o presidente da República não diga uma só palavra de censura ao ato tresloucado. Ao contrário: chamou tudo de “confronto entre as polícias”. Confronto entre polícias é o escambau! De um lado, estava a lei; do outro, uma variante do crime organizado. Aquilo não era a Polícia Civil. A Polícia Civil é órgão de respeito.

Lula deve desculpas a São Paulo. A cidade o estado repudiam os métodos do seu partido.

por Reinaldo Azevedo